"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Relato 33 (A dor da opressão)



Quando passei no concurso da minha cidade e tomei posse, fui para uma instituição na qual fui recebida muito bem, mas com o passar dos meses as relações de trabalho foram mudando, pois à medida que ia desenvolvendo meu trabalho passei a sentir resistência por parte de uma funcionária. Logo percebi que aquela pessoa, sem motivação nenhuma tinha uma grande antipatia por mim e começou a influenciar os colegas a também se oporem a mim.

Todos os anos eu tentava sair daquela repartição, mas não conseguia e chegando a época da remoção a hostilidade e as provocações se intensificavam para me forçar a desistir da vaga. Com o passar dos anos os relacionamentos interpessoais foi só piorando e eu permanecia calada, guardando só pra mim o que estava acontecendo. Aí adoeci.

Foram muitas situações: risinhos e trocadilhos entre os funcionários, provocações e ataques velados, indiretas sobre minha vestimenta e sobre minha personalidade. Batiam à porta da sala com violência na minha cara, quando eu estava sozinha lá dentro, diziam que se eu não fosse às festas e happy hours ficaria até mais tarde no trabalho. 

Velho Aflito 1890 - Vicent Van Gogh
Durante reuniões cortavam minha fala repetidas vezes, pediam que eu fizesse substituições por um valor abaixo de mercado, dizendo que deveria fazer isso “por amizade” e omitiam o trabalho realizado para a Secretaria do meu município. Observavam meu trabalho na porta da sala, até que tive um sério problema de depressão, que foi só se intensificando a ponto de precisar tomar quatro medicações por dia, entre antidepressivos e calmantes. 

Diante do meu adoecimento ouvi risadas sucessivas e vexatórias sobre minha condição psicológica e chegaram a dizer que depressão se curava com esperma.

Ridicularizaram minha doença, me chamaram de “doida e problemática”, minaram minha autoestima, a ponto de eu ser acusada por uma colega de que quando a coisa apertava eu fugia. Chamaram-me de “magra”, “fragilizada”, “mau espírito”, “fraca” e outros.

Repetidas vezes fui 'forçada' a ir a eventos fora do horário de trabalho. Era sempre abordada no final do expediente com provocações e ataques sutis.

Falas como essas eram constantes:  
- Tem gente aqui precisando de terapia, né gente?”,
- “Ninguém gosta dela”,
- “Aqui quanto mais a pessoa acha ruim, mais a gente pega no pé”,
- “Cada um tem o que merece”...

Por mais absurdo que pareça, as pessoas ali fingiam não perceber que aqueles comportamentos eram maldosos e destrutivos. Elas faziam vistas grossas.

Eu me sentia sempre em estado de alerta no trabalho. Não conseguia comer, nem beber água, sentia-me controlada e perseguida e só pensava no que poderia acontecer comigo. Sentia medo das pessoas, medo de ser motivo de chacota e medo de perder meu ganha pão.

Tripliquei minha produtividade no trabalho no intuito de deixar de ser perseguida, com isso tive grande desgaste físico e mental, crises de choro, vergonha e sentimento de culpa por aquilo estar acontecendo comigo. Tinha também um grande sentimento de inferioridade por não ser aceita pelo grupo.

Quando resolvi expor a situação e reclamar o que estava acontecendo, sofri grande hostilidade dos colegas de trabalho. Muitos deles se afastaram e fingiram não estar a par do que estava acontecendo. Senti que alguns me evitavam enquanto outros se levantaram em defesa dos agressores. Hoje penso que agiram assim por medo de também se tornarem vítimas, pois os assediadores tinham cargos de liderança e grande influência ideológica sobre os subordinados.

Na época que fiz a queixa de assédio moral, os assediadores uniram-se para fazer um documento relatando que nada daquilo estava acontecendo e ‘induziram’ os funcionários a assinar, no intuito de se respaldarem.

Foi muito difícil pra mim, em especial porque quando fui afastada do trabalho por motivo de doença não recebi uma ligação sequer e nenhum apoio da instituição.

Onde consegui forças? Eu não sei!

Estou dividindo com vocês algumas coisas que ouvi e vivi no meu ambiente de trabalho, com o desejo de que alguém que esteja passando por problema semelhante não se sinta sozinho, e que busque forças como eu busquei para encontrar uma saída.

Foi muito difícil passar o que passei e viver o que vivi. Por isso oriento a quem está passando pela mesma situação, ou por situação semelhante, a reclamar, a não se calar, a procurar sair do ambiente insalubre de trabalho, a procurar outro local para desenvolver sua função, ou a se munir de provas e reclamar junto aos órgãos responsáveis os seus direitos. Procure buscar o bem estar e qualidade de vida e não deixe o problema crescer a ponto de te desestabilizar. Quando iniciar o problema busque bloquear o assediador e se as situações começarem a se repetir procure o RH, direção e a delegacia do trabalho, mas nunca antes de estar munido de boas provas.

Compartilhe sua dor, antes que aconteça o que aconteceu comigo. Eu tive sérios problemas de saúde, dormência nas mãos, mãos enrijecidas, fortes dores no peito, dor intensa no estômago, falta de ar, perda de apetite, perda de peso, tremores, dores de cabeça frequentes e insônia. Até que tive que dobrar o uso de antidepressivos e calmantes, por medo de ir ao trabalho, de andar nos corredores da repartição e de ficar perto dos agressores.

Mas as coisas começaram a mudar quando resolvi me abrir e exigir respeito. Reclamei meus direitos, orei muito e conversei com pessoas confiáveis.

Ainda não superei totalmente tudo que vivi e sofri, mas procuro superar, imponho respeito, valorizo aqueles que me amam, luto pelos direitos humanos e por relações saudáveis no trabalho. Procuro não levar mais problemas profissionais pra casa e espero que esta história possa ajudá-lo a também superar uma fase ruim.

Este é o relato real da minha vida, cheio de situações que me feriram e machucaram profundamente. Para me livrar da dor, escrevi. Escreva também e faça do amanhã um dia melhor, resistindo às relações desumanas e as injustiças.

Mostre para seus amigos, familiares e colegas de trabalho que não é certo compactuar com o assédio moral no trabalho, pois quem se cala é cúmplice do assediador.

Hoje mantenho a confiança de que dias melhores virão.


4 comentários:

  1. Estou feliz com sua recuperação, pois eu ainda não consigo falar nem escrever sobre isto e pior estou vivenciando mais um episódio em licença saúde.

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    1. A história de um pode ser a esperança para outros, de que dias melhores de fato virão.
      Volte sempre.
      Assediados

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  2. Meu Deus, parece que estou lendo a minha própria história!!
    Eu não me acovardei, por ser concursada pude denunciar, buscar justiça e por isso fui obrigada a mudar de setor, como moro numa cidade pequena, logo minha história ficou conhecida e passei a ser assediada também no novo setor em que estou lotada.
    O quadro de depressão e síndrome do pânico foram inevitáveis, quem já sofreu ou ainda sofre assédio moral, sabe o estrago que faz na vida da gente.
    Hoje não confio em mais ninguém, a palavra AMIGO se tornou sem sentido para mim. Sofro com a minha dor em silêncio.
    Estou de licença médica (15 dias) e no dia 18/11, terça-feira, retorno ao trabalho e só de pensar nisso me sinto mal.
    Gente, é horrível...

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    1. Cara Anônima,
      É muito bom saber que cada vez mais as pessoas estão tendo coragem de denunciar e buscar os seus direitos.
      Cada vez mais doenças vem sendo associadas ao assédio moral no trabalho, de fato o estrago é imensurável.
      Desejamos que você encontre o suporte necessário para encontrar forças no retorno ao trabalho.
      Estamos na torcida!
      Um abraço e volte sempre.
      Assediados

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