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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Educação: Professores sob pressão

Estudo da Universidade de Brasília mostra como se desenvolveram 27 casos de assédio moral sofridos por mestres em escolas públicas do DF. Levantamento serviu de base para produção de cartilhas distribuídas dentro do ambiente de trabalho

Thaísa Tiba, antropóloga 
 
O professor sujeito às ações de assédio moral, por vezes, demora a reconhecer e a assumir que está sendo submetido ao assédio, entre outros motivos, pela sutileza das ações que visam a desestabilização psicológica. Thaísa Tiba, antropóloga
 
Todos os dias, Amanda* caminhava de casa até o colégio onde lecionava, a poucos metros da residência, no Plano Piloto. Viveu essa rotina durante 10 anos dos 27 de carreira. Mas os dois últimos, em 2010 e 2011, foram os mais difíceis para ela. ...
 
Sempre que se aproximava da escola, ela se sentia mal. “As minhas pernas travavam e vinha uma forte vontade de vomitar. Pensei várias vezes que fosse em função de alguma doença, mas isso era fruto das experiências que vivia ali dentro”, relembra Amanda.
 
A mesma pessoa que todas as tarde assumia o quadro-negro e falava com convicção aos alunos era uma vítima silenciosa de colegas de trabalho. Alvo de assédio moral, Amanda terminou por desenvolver problemas de saúde, fruto de um processo de perseguição sistemática. Foi expulsa da escola 10 dias antes do fim do ano letivo de 2011.
 
Assim como ela, 26 professores foram protagonistas na dissertação de mestrado apresentada pela professora e antropóloga Thaísa Tiba, enquanto aluna da Universidade de Brasília (UnB). O estudo, inédito no DF, constatou que o assédio moral é frequente dentro das instituições públicas, mas é de difícil identificação e comprovação. Os casos analisados pela antropóloga remontam os últimos 15 anos. Alguns culminaram em processos sindicantes e na destruição de carreiras.
 
“O professor, sujeito às ações de assédio moral, por vezes, demora a reconhecer e a assumir que está sendo submetido ao assédio, entre outros motivos, pela sutileza das ações que visam a desestabilização psicológica”, argumenta. Thaísa menciona que a maioria das vítimas entrevistadas apresentou algum distúrbio por consequência da experiência, como a síndrome do pânico, a depressão, a perda e o ganho de peso. “As reações são variadas, mas, comumente, o profissional, ao ser isolado do grupo, adoece e se fragiliza em decorrência da grande violência psicológica a que é submetido”, justifica.
 
A dissertação de Thaísa auxiliou o Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF) a desenvolver uma cartilha sobre o assédio moral nas escolas públicas. Além de esclarecer o problema, o manual explica como reconhecer o assédio, além de apontar os possíveis caminhos para denúncias, como é o caso dos departamentos jurídico e psicológico da entidade. “Por conta dessa debilidade física e emocional, é comum que pessoas não procurarem nenhuma instância para formalizarem uma denúncia, já que também têm medo das possíveis retaliações no ambiente de trabalho após a efetivação”, afirma Thaísa.
 
Números

Embora o Sinpro-DF confirme a existência de casos de assédio moral entre professores e também a assistência às vítimas, a entidade não possui estatísticas ou pesquisas a esse respeito. Manoel Filho, da Secretaria de Saúde do Trabalho do Sinpro-DF, pondera que o enfrentamento e o atendimento a professores acontecem há anos. “Damos total assistência, inclusive, no ambiente de trabalho. O assediador, normalmente, não se reconhece como tal. No geral, ele também é vítima de assédio”, elucida. Entre janeiro e setembro de 2013, a Ouvidoria da Secretaria de Estado de Educação do DF (SEE-DF) registrou 23 denúncias de assédio moral nas escolas da rede.

*Nome fictício
 
Correio Braziliense. Por MARIANA LABOISSIÈRE. Foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press - 8/10/14 - 18/10/2014 - - 08:21:28
 
Fonte: Edson Sombra
 
 

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