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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Violência psicológica causa danos irreversíveis à saúde


A conduta abusica do empregador, chefe ou colegas, direta ou indiretamente, abala o estado emocional do assediado - FÁBIO ROGÉRIO/ARQUIVO

Psicoterrorismo, tortura psicológica, abuso. Não importa o nome, mas as consequências provocadas pelo assédio moral no ambiente de trabalho. É o que ressaltou a psicóloga Deise Cristina Gomes, pós-graduada em Psicologia Jurídica. Atuando há cinco anos como perita em ações que tramitam na Justiça do Trabalho, ela adverte que a violência moral pode causar danos irreversíveis à saúde.
Deise define o assédio moral como a prática de expor trabalhadores a situações humilhantes e constrangedoras, geralmente repetitivas e prolongadas durante o serviço e no exercício das funções.
São situações que ofendem a dignidade da pessoa humana e, por vezes até, a própria integridade física. A conduta abusiva do empregador ou colegas, direta ou indiretamente, abala o estado psicológico do assediado. Nesta entrevista, ela atribui o aumento do número de casos a fatores como a globalização e o cenário mais competitivo dentro da rotina profissional e fala dos desdobramentos do quadro. Confira:
CS: O que leva alguém que ocupa posição hierárquica superior a se prevalecer disso para assediar moralmente o subordinado?
Deise: Para a configuração do assédio moral tem sido exigida a presença de quatro elementos constitutivos: a conduta abusiva do assediador; a natureza psicológica da conduta; a prolongação da conduta ofensiva no tempo; e a finalidade de exclusão da vítima. A primeira é elemento primordial para se caracterizar o assédio moral.
Consiste no abuso de direito do empregador ou preposto/superior hierárquico, os próprios colegas de trabalho, ou de ambos, de acordo com o caso e a finalidade de cada qual, podendo ser um exagero do poder diretivo do empregador ou por razões de incompetência do gestor (medo de perder o posto), competição ou simplesmente discriminatórios pelos colegas, que passam a maltratar e a constranger o assediado buscando excluí-lo do ambiente do trabalho e, com isso, não se indisporem com o assediador, por receio de serem a próxima vítima.
CS: E por que a prática do assédio moral aumentou tanto?
Deise: Com a industrialização, surgiram cuidados com a saúde do trabalhador, mas esses cuidados eram voltados especificamente aos acidentes de trabalho. Com o passar do tempo, a preocupação também se voltou para a prevenção de doenças dos trabalhadores. Hoje, com a moderna organização do trabalho voltada para a globalização, o cuidado passou a ser não apenas com os aspectos físicos, mas, também, com os mentais, pois saúde não é apenas um estado físico, mas inclui os estados mental e social. Isso porque a competitividade aumentou. Como eu disse antes, questões como insegurança, a dificuldade de reconhecer as próprias limitações, o receio de que o outro se sobressaia, se destaque mais, fizeram com que os encarregados, chefes em geral, vissem nos subordinados um incômodo, quase uma ameaça.
CS: Qual o perfil de quem sofre o assédio moral?
Deise: Geralmente, as pessoas mais visadas são aquelas que são muito diferentes de todas as outras em uma empresa, ou que são muito competentes, ou, ainda, aquelas que não são tão produtivas como as outras ou que estão passando por uma momentânea fase delicada em sua vida. Também são alvo de assédio aquelas pessoas que têm grande potencial em obter uma evolução profissional dentro da empresa. Com isso, seu superior hierárquico, muitas vezes por medo de perder seu posto, passa a assediar seu subordinado de forma que ele se anule, e não produza mais.
CS: A prática do assédio moral pode ser evitada e até cartilhas (uma delas do Ministério do Trabalho) foram editadas. Por que as empresas relutam em adotar ações que diminuam os efeitos desse problema?
Deise: Muitas vezes, as empresas fazem vistas grossas, ou apresentam-se perplexas diante de uma situação de assédio moral aos seus colaboradores e na maioria das vezes não sabem ou não estão bem preparadas para gerir melhor as dificuldades de seu pessoal. Legalmente a empresa é considerada culpada pela violência sofrida pelos seus funcionários ocorridas no seu âmbito interno, por muitas vezes ser conivente com a situação, pois, todas têm o dever de fiscalizar a atuação de seus funcionários e zelar pela qualidade no ambiente de trabalho e pelo respeito à dignidade de seus funcionários. Algumas organizações, porém, ainda mantêm culturas de relações desumanas e aéticas, onde predominam condutas negativas, chegando a negligenciar o abuso, desde que a situação lhe traga lucro, e com isso, a cada dia, passa a gerar mais cidadãos doentes.
CS: É comum empresas usarem o argumento de que o assédio moral seria uma das formas de se conseguir indenizações judiciais. Como interpreta isso?
Deise: Tenho isso na conta de um menosprezo ao sofrimento de quem trabalha. O que ocorre é que, devido à falta de uma investigação a fundo, a diretoria, a gerência da empresa, superiores hierárquicos ou os próprios colegas de trabalho, encaram a vítima, o empregado, como sendo "O" problema a ser combatido, dando ênfase às informações a respeito do empregado, que chegam distorcidas e manipuladas, sem se dar conta de que, o que origina problemas, está em outro foco. Então, a empresa, através de seus prepostos, se alia aos assediadores, mesmo que inconscientemente, e demite sumariamente a vítima ou faz com que ela peça demissão ou se afaste do emprego.
CS: Quem sofre assédio moral está doente?
Deise: Sem dúvida. A violência moral pode causar danos irreparáveis à saúde da vítima/assediado, pois quando a pessoa é submetida a humilhações, pode manifestar doenças, originadas do estresse causado pelo sentimento de extremo sofrimento, impotência. Com isso, a saúde física e mental da pessoa é afetada em conjunto com o abatimento moral, o constrangimento que leva a pessoa vítima do assédio moral a degradar a sua condição de trabalho e a sua qualidade de vida. Os sintomas podem acometer diferentes sistemas orgânicos e o trabalhador pode apresentar distúrbios psicossomáticos, cardíacos, digestivos, respiratórios, endocrinológicos, entre outros. 
 
 

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