"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


domingo, 15 de junho de 2014

Republicação 25 Parte 4

Relato 25 (O Preço de uma Decisão) 4/4


Pedi demissão no mesmo mês por não suportar mais tantos abusos e iniciei o cumprimento do aviso prévio. 

No penúltimo dia do aviso prévio os meus patrões me chamaram no escritório. Disseram que eu era boa funcionária, que aquilo tudo fora uma “fase" e que passara, que eles queriam meu bem, e tinham uma proposta a me fazer.


Eles me dariam férias para eu "descansar", mas além da proposta, tinha um “favor”.  As férias seriam apenas no papel, mas eu continuaria a trabalhar normalmente, porque eles iriam demitir outra podóloga, e o Instituto não poderia ficar desfalcado. Eu ficaria para dar “suporte técnico”. Propuseram também que para todos os efeitos ficasse como se eu tivesse vendido 10 dias das minhas férias.


Mais uma vez eu cedi às suas propostas. Assinei as férias, mas não usufruí, continuei trabalhando.

Nesse período não me foi permitido assinar a folha de ponto, apenas nos 10 dias “vendidos”. O pagamento? No holerite constava pagamento de R$3.800,00, (das férias) mas na verdade só recebi R$1.900,00. Como sempre, com chegue nominal da empresa que eu sacava na boca do caixa no mesmo Centro Comercial. Quanto ao pagamento do meu trabalho nas “ferias”, não houve pagamento algum. Pagaram-me apenas a comissão de 30% dos 10 dias “vendidos”.

Foram descontadas algumas dívidas e mesmo assim, ainda fiquei devendo R$800,00. Insisti muito que descontassem logo toda a minha dívida, pois não queria dever mais.

Eles se recusaram a receber, alegando que era para eu pagar depois e para não me preocupar. Disseram que em alguns meses haveriam mudanças na forma de registrar os funcionários e que eu poderia ganhar o dobro do salário e que estavam aguardando apenas acertar alguns “detalhes” com o contador, o advogado e Sindicato. O Sr. "P" chegou a dizer que estava cansado de tantos processos trabalhistas, por isso ele estava estudando uma forma para não ser processado.

Durante o período que passei trabalhando naquele Instituto, cheguei a pedir demissão umas três vezes, mas sem sucesso, pois eles falavam que era besteira minha. Diziam que eu não conseguiria nenhum lugar para ganhar “tão bem assim”, e sempre vinham com alguma proposta ou alguma história para me convencer.

Um deles era espírita e me dizia que tinha um espírito que falava com ele, que lhe “soprava no ouvido”, e este espírito ou mentor mandava mensagens para mim. Por exemplo: que não era para eu voltar para São Paulo, e que eu tinha que me distanciar da minha mãe e da minha família.


Eu me sentia enfraquecida psicologicamente e não tinha mais força para lutar nem argumentar sobre tudo aquilo, afinal era a religião dele, algo que não dá para se discutir.

Desde março os problemas de saúde física também começaram a surgir. Sentia fortes dores nos braços, pescoço, ombro, cansaço, desânimo, dores de cabeça constante, perda de peso, não sentia vontade alguma de comer e comecei a ir com mais frequência aos médicos. Quando me davam atestado eu os entregava na empresa, mesmo sabendo que não iria receber pagamento algum, já que mesmo com carteira assinada, eu só ganhava os 30% de comissão pelos serviços prestados.

Em junho avisei a Sra. "P" para diminuir a minha quantidade de atendimentos diários, pois eu não aguentava mais de tanta dor nos braços. Pedi que não agendassem para mim procedimentos longos (alguns atendimentos chegavam a durar 2 horas), pois eu não conseguiria  fazê-los ao menos por enquanto, até que eu passasse por exames que já estavam agendados pelo Posto de Saúde no Hospital Público para o  mês seguinte.

Todas as recepcionistas foram avisadas, pois os podólogos não tinham acesso à agenda eletrônica, muito menos a contato pessoal com clientes fora dali (sujeito a punição, com advertência e até suspensão), pois o cliente era do Instituto e não do podólogo. Pedi que quando algum cliente insistisse em passar comigo que fossem avisados que eu não podia atendê-los temporariamente, em procedimentos longos, devido a problema de saúde.

De nada adiantou, pois mesmo assim agendaram comigo um procedimento de 2 horas o qual me recusei a fazer. Fui orientada atender a cliente e “fazer o que desse”, pois a cliente era “minha”, o que para mim era inadmissível. Não trabalho de qualquer jeito, prefiro não atender, a iniciar um procedimento que sabidamente tinha consciência de que não teria condição de executar adequadamente, podendo causar à cliente um problema por imprudência e até imperícia.

Senti-me mais uma vez usada e desrespeitada como profissional e como ser humano. Considerei aquilo também um desrespeito à cliente que estaria pagando por um procedimento quase R$ 100,00 e merecia um atendimento de qualidade. E mesmo que fosse R$ 1,00 lhe devíamos respeito. Mas a sensação era de que os proprietários só pensavam nos lucros, e uma das suas máquinas de fazer dinheiro, era eu, doente ou não.

Indignada fui até o Sr. "P" e disse que não dava mais, e que eu iria embora. A reação dele foi: -“De novo? amanhã você conversa com a Sra. “P”, você deve ter arrumado outro emprego”. Respondi que não, que estava era cansada mesmo.

Sentia-me exaurida, sugada, sem forças. Sabia que precisava de ajuda, pois minha saúde física e emocional estava aos pedaços, mas onde procurar, e onde encontrar ajuda?

No dia seguinte não voltei a empresa como havia sido orientada pelo dono. Sabia que se voltasse lá, mais uma vez a história se repetiria. Eles viriam com uma proposta, um pedido de favor, uma mensagem do além ou outra coisa qualquer, e a minha vida continuaria nas mãos deles.


Lembrei-me do Sindicato da Saúde (não existe Sindicato de Podólogos aqui, e a situação de regulamentação da profissão no Brasil ainda depende de decisões de instâncias superiores) e decidi que iria procurar ajuda lá. Fui recebida com muito carinho por uma funcionária, a Heloisa, eu chorava muito, mal conseguia falar. Contei a ela, ao advogado e ao Diretor do Sindicato toda a minha história, eles pediam que eu me acalmasse e me orientaram a não voltar à empresa naquele dia, pois o meu estado emocional estava abaladíssimo. Pedi a eles que fossem lá comigo para formalizar minha demissão, pois sabia que se eu fosse sozinha eles iriam me convencer a ficar, como sempre, e ainda tinha os R$800,00 da dívida sem fim.


Fui recebida com muito carinho por uma funcionária, a Heloisa, eu chorava muito, mal conseguia falar. Contei a ela, ao advogado e ao Diretor do Sindicato toda a minha história, eles pediam que eu me acalmasse e me orientaram a não voltar à empresa naquele dia, pois o meu estado emocional estava abaladíssimo. Pedi a eles que fossem lá comigo para formalizar minha demissão, pois sabia que se eu fosse sozinha eles iriam me convencer a ficar, como sempre, e ainda tinha os R$800,00 da dívida sem fim.

Recebi do Sindicato da Saúde um apoio incrível, na pessoa de seus funcionários, de todos os escalões. Não posso deixar de expressar aqui os meus sinceros agradecimentos.

A minha história ainda não acabou, sei que demorei muito a entender o abuso deles para comigo. Não entendia que eles me queriam devendo sempre, para terem poder de barganha sobre mim. Eu achava que tudo era "normal”, procurava me convencer a cada dia de que  para se conseguir ‘algo na vida’ precisava me sujeitar à empresa para a qual eu trabalhava. Passei a achar que as atitudes de abuso dos proprietários eram “normais”, era o que acontecia em qualquer empresa. Dava à empresa o melhor de mim, ajudava em tudo que era possível e imaginável, da faxina ao controle de estoque.

A ficha só começou a cair quando fui ficando cada vez mais doente e percebi o descaso deles para comigo e as exigências absurdas para eu trabalhasse, mesmo assim.


Felizmente tenho mania de guardar as coisas, bilhetes, contratos, e-mails, tudo mesmo. Por isso acabei de descobrir aqui no blog, que possuo muito mais provas do que vivi e sofri do que provavelmente os meus patrões imaginam. Felizmente também poderei contar com o testemunho de vários ex colegas que já se disponibilizaram a isso.

Depois que entendi toda a exploração que sofri, passei um período de grande sentimento de culpa. Como pude a essa altura da minha vida, ter me deixado levar por tal situação? Sentia-me uma verdadeira ‘toupeira’, ‘cega’ ‘burra', 'idiota’... Coisas que definitivamente sei que não sou.

Vou ficar muito feliz quando puder voltar aqui, pra contar a vocês o resto da minha história. E mesmo que por algum motivo eu não volte, ou demore muito a voltar, já terá valido a pena, se eu tiver conseguido abrir os olhos de você que me lê, para algumas situações que possam cruzar um dia o seu caminho.

Quando a “esmola” for muito grande, você que não é santo, desconfie!


Um grande abraço,


"Y"


P.S. Assediados

Embora Assédio Moral no Trabalho, não escolha raça, cor, religião ou classe social, profissões que ainda não contam com o devido reconhecimento de legislações trabalhistas, certamente deixam seus profissionais em situação de desvantagem, e muitas vezes a mercê de atitudes desrespeitosas e abusivas como as descritas neste caso.

Desejamos que providências sejam tomadas para que cada vez menos, tenhamos que ouvir relatos tão desumanos.

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