"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


terça-feira, 29 de abril de 2014

Os brutos também sofrem

As importantes lições deixadas pelo
polêmico caso de assédio moral no futebol americano
Por Frederico E. Fernandes Filho
 
No refeitório da sede do time de futebol americano Miami Dolphins, o jogador Johathan Martin, 24 anos, serviu-se de comida e caminhou até uma mesa, onde havia vários de seus colegas almoçando. Quando Martin sentou-se, todos à mesa levantaram-se e deixaram-no sozinho. Furioso, Martin amassou sua bandeja, levantou-se e foi embora do clube. E não voltou mais.
 
Dias depois do episódio, ocorrido em outubro de 2013, veio à tona a informação de que o que alguns consideravam uma “brincadeira” tinha sido apenas a gota d’água num oceano de humilhações comandadas por Richie Incognito, 30 anos, colega de time de Martin. No mês seguinte, Incognito – considerado um dos jogadores mais sujos da liga – foi suspenso por prazo indeterminado.
 
Pressionada pela opinião pública, a liga de futebol americano (NFL) contratou uma investigação independente para apurar o caso. O relatório dos investigadores, de 144 páginas, foi revelado em fevereiro de 2014 e comprovou que Martin foi vítima de assédio moral praticado por Incognito e mais dois jogadores.
 
Foram ouvidas mais de 100 testemunhas e analisadas milhares de mensagens de texto que comprovaram que, durante duas temporadas, Martin (que é afrodescendente) foi ofendido quase que diariamente com insultos racistas e xingamentos impublicáveis. Ele também teve que suportar um sem-número de pesadas ofensas de cunho sexual contra sua mãe e irmã.
O relatório apontou que outro jogador, considerado homossexual, e um assistente de treinador, nascido no Japão, foram vítimas de uma série de xingamentos e humilhações do mesmo grupo de assediadores. Os veteranos também tinham o costume de obrigar os novatos a pagarem por caros jantares e festas, o que custou a Martin US$ 15mil para uma ida dos jogadores até Las Vegas.
 
Martin foi diagnosticado com depressão e pensamentos suicidas em decorrência da violência moral a que fora submetido, o que motivou sua saída do time. Em março, ele foi transferido para o San Francisco 49ers.
 
Como consequência da investigação, os técnicos Jim Turner e Kevin O’Neill foram demitidos, já que tiveram conhecimento – e inclusive participação – em alguns dos fatos. Incognito, que continua suspenso, teve um acesso de fúria com a divulgação do relatório e depredou sua própria Ferrari preta a golpes de taco de beisebol. Acabou sendo internado num hospital psiquiátrico, onde passou por tratamento contra o estresse. Críticos esportivos recomendam seu banimento do futebol.
 
Esse caso ganhou grande repercussão por diversos fatores. Além do impacto causado na sociedade pela divulgação dos detalhes sórdidos das ofensas, os acontecimentos tiveram como palco a NFL, a liga que organiza o multimilionário Super Bowl, uma das poucas datas que consegue, literalmente, parar a nação mais poderosa do mundo.
 
Todo esse escândalo acabou levantando importantes questões, como a necessidade de criação de leis contra o assédio moral no trabalho, o que é apoiado por 93% dos norte-americanos, segundo pesquisa do Workplace Bullying Institute.
 
O episódio ainda quebrou alguns paradigmas e causou um impacto positivo na sociedade.
 
O primeiro é o de que o assédio moral deveria ser encarado como algo normal. Por incrível que possa parecer, algumas pessoas criticaram a conduta de Martin (de ter denunciado o assédio), porque ele teria violado o “código de conduta” dos vestiários. O que eles chamam de “brincadeiras” seriam algo normal no ambiente de trabalho de futebol americano, o que, por outro lado, despertou a suspeita de que tais atos estejam ocorrendo em outras equipes. Entretanto, o relatório considerou que o tratamento dispensado a Martin e seus colegas é inaceitável em qualquer ambiente, e que devem ser criadas regras para garantir o respeito aos jogadores, como profissionais e como seres humanos.
 
O segundo paradigma é o de que ser vítima de assédio moral era um sinal de fraqueza, e de que só era assediado quem se deixava assediar. A sociedade finalmente parece compreender que, se um marmanjo de 1,96m e 140 kg, como Martin, sofreu assédio moral no trabalho, qualquer pessoa pode ser vítima.


Fred Filho - Consultoria em Assédio Moral no Trabalho

Nenhum comentário:

Postar um comentário