"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


domingo, 29 de dezembro de 2013

Republicação 23

 (Assédio Moral no Trabalho e CIPA)

Sou Márcio*, tenho pouco mais de 40 anos e estou aqui para contar a vocês a minha história. 

Tive o prazer de conhecer o trabalho deste blog em relação às questões de assédio moral no trabalho, e a identificação com a minha vida foi inevitável. Agradeço por todos os contatos que tivemos, pois suas palavras me encheram de esperança e através de vocês, tenho hoje a certeza de que não estou sozinho.

Fui metalúrgico há alguns anos atrás, mas em 2009, devido à crise econômica de 2008, mudei para o setor alimentício e iniciei minhas atividades no interior de Minas Gerais. Fui contratado como encarregado de fábrica, no 3º. Turno, onde tinha cerca de 50 pessoas subordinadas a mim, com inteira responsabilidade em segurança, metas e produtividade. 

Sempre fui um líder tido como carismático dedicado à Empresa e a atender as necessidades da equipe. Em outubro de 2010, com muita resistência da Empresa, fui eleito como o mais votado para representar os trabalhadores na CIPA. Desde então minha vida se tornou um inferno. 

Dias após a contagem dos votos fui afastado das minhas atividades de encarregado e passei a ser um “suporte” para a produção. Minhas atribuições passaram a ser buscar vassouras e outros produtos no Almoxarifado.

A empresa fez de tudo para me obrigar a pedir demissão. Trocas de horário, negação do vale transporte, cancelamento de férias – dias antes – sem qualquer motivo, impedimento de acesso às atas  de reuniões da CIPA, e outros. 

Imagens reais do ambiente de isolamento
Felizmente, pude contar com a solidariedade de um colega, antigo subordinado, que, indignado, gravou o que me estava acontecendo. Guardei e-mails, documentos e fotos que, hoje, comprovam minhas denúncias.

Neste período, ao buscar produtos químicos para o operador da caldeira, por falta de treinamento, tive as duas pernas queimadas por produto corrosivo.

A Empresa não me encaminhou ao médico do trabalho, fez de tudo para abafar o ocorrido e me afastar definitivamente do contato com os trabalhadores. 

Para dar continuidade ao meu isolamento colocaram-me em um quartinho fechado, com uma pequena janela para exercer as atividades de entrega de material. Fui mantido nesse ambiente insalubre por quase um ano, sem água potável e exposto a muitos produtos de risco, inclusive Peróxido, que é um explosivo.

Diante de todo o isolamento e constrangimento sofridos, minha saúde mental foi muitíssimo afetada e passei a desejar o suicídio - em duas ocasiões tive forte desejo de me jogar à frente de um carro.

Imagens reais das sequelas das queimaduras químicas
No dia 01/11/2011, quase sem memória, fui levado a um psiquiatra que constatou o meu transtorno (F41.9) – alguns dias após estava buscando ajuda de um psicólogo. Neste mesmo dia passei também por outro médico que constatou as queimaduras químicas em minhas pernas. Estas, ocorridas há oito meses, quando a empresa me mantinha trabalhando em ambiente fechado.

Na época das queimaduras, a empresa não abriu uma CAT, assim como também se recusava a abrir uma CAT por ansiedade e depressão decorrentes do ambiente de trabalho. Mas os meus médicos abriram e o INSS reconheceu com benefício B91 (Auxílio doença acidentário, que é um benefício dado em consequência de afastamento do trabalho por motivo de acidente do trabalho, do qual resulte incapacidade temporária para o trabalhador em consequência das sequelas causadas pelo evento infortunístico, sendo que o valor do benefício corresponde a 100% do salário e deve ser pago enquanto o segurado se encontrar incapacitado para o trabalho).

Mesmo afastado e em tratamento, o RH da empresa me convocou e fui ameaçado tremendamente, com intimidações e calúnias, o que causou grande piora ao meu estado de saúde, necessitando de duplicação das dosagens de medicação, fazendo, inclusive, com que o período de afastamento fosse estendido. (Graças a Deus todo o diálogo foi gravado, o que comprova a minha denúncia).

O INSS me deu alta após seis meses de licença por saúde mental iniciada em 01/11/2011. Após 16 dias de retorno da licença pelo INSS a empresa me encaminhou ao médico do trabalho (da empresa) pela primeira vez. Este, por sua vez, atestou que eu não tinha condições de voltar ao trabalho e me devolveu ao INSS com diagnósticos diferente do que havia sido concedido pelo INSS quando do afastamento por seis meses.

Então, fui encaminhado para casa pela empresa para aguardar até que eles agendassem esta nova perícia. Depois de 22 dias em casa me ligaram informando a data da perícia. Em resumo, estou há meses sem salário, sem qualquer ajuda por parte da Empresa, ainda sofrendo de depressão, e com as pernas sequeladas pelas queimaduras. Há, inclusive, um pedido de aposentadoria por invalidez na Justiça Federal.

O único suporte que recebo hoje é do Sindicato da Alimentação de São José dos Campos, ao qual aproveito o momento para agradecer, na pessoa do seu diretor, Sr. Júlio. E claro que não posso deixar de agradecer a Deus, e aos meus irmãos da Igreja Batista, que têm me dado suporte espiritualmente e em vários momentos me suprindo em alimentos e ajuda financeira.

Sou o testemunho vivo de quem foi assediado e perseguido por fazer parte da CIPA e por promover segurança no trabalho. Hoje estou com um processo trabalhista na 2ª. Vara de Pouso Alegre, no aguardo por audiência. 

Já enviei carta à Comissão de Direitos Humanos e formalizei denúncia aberta ao Ministério Público do Trabalho para que TODOS possam ter acesso ao processo. 

Não há um dia sequer em que tudo que vivi e sofri não passe como um filme em minha cabeça. Tudo ainda é muito difícil, e não há em mim alegria alguma enquanto escrevo, já que continuo fazendo uso, contínuo, de calmantes e antidepressivos.

Quero que este caso venha a público para que outros assediados não se calem, e para que outros colegas se solidarizem, com seus colegas, quando presenciarem alguma situação de assédio, que gravem e documentem o ocorrido, para que maus empregadores sejam punidos e para que pessoas como eu, não percam a alegria e a dignidade – que o trabalho honrado é capaz de proporcionar. Porque esta prática nefasta pode matar ou invalidar o ser humano, para o resto da vida.

*(Nome fictício)

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