"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


domingo, 22 de dezembro de 2013

Republicação 22

(Porquê pedi demissão do banco)

 

É sabido por muitos, em especial os interessados pelo tema assédio moral no trabalho, que pesa sobre as instituições bancárias do Brasil, um grande número de acusações nas mais diversas formas e manifestações do mesmo.

Segue abaixo o relato de um ex funcionário do Banco do Brasil (BB) em carta onde justifica seu pedido de demissão a instâncias superiores, a poucos dias de sua aposentadoria por não mais suportar o peso do assédio moral em sua vida.


Prezados Senhores,


Depois de 34 anos e nove meses, protocolei nesta data meu pedido de demissão dos quadros de funcionários do Banco do Brasil.

Confesso que não foi uma coisa fácil. Construí minha vida no BB, onde entrei com 15 anos de idade. Funcionários de banco ajudaram a formar meu caráter, me passando diariamente lições de honestidade, ética, respeito aos funcionários e aos clientes e transparência. Durante muitos anos me orgulhei de ter o sobrenome “Banco do Brasil”. Não existia o individuo, existia o "Fulano" do Banco do Brasil. Isso sempre foi motivo de orgulho para todos os que trabalhavam na casa. Digo foi, pois já não tenho certeza se o é.

Parece soar estranho alguém se demitir do Banco do Brasil. Ainda mais após construir uma sólida carreira e estando a poucos meses da aposentadoria. Tanto parece que vou lhes expor os motivos de minha decisão.

Como é sabido, há mais de 3 anos sofro processo intenso de assédio moral promovido pela Superintendência Norte. Registre-se, a bem da verdade, que não sou o único e nem faço parte da minoria. A execração e pressão desmedida se tornaram a forma administrativa dessa e de outras superintendências.

Neste processo adoeci e, pela primeira vez, tive que ser afastado para tentar curar a depressão adquirida. Acabei sendo descomissionado, em férias, pela Superintendência Estadual – que não tem alçada para isto - num ato nunca visto da minha longa carreira no BB, sem que me fosse apresentado qualquer motivo que dessa origem a punição e sem abertura do processo administrativo conforme determinam as instruções.

Denunciei (coisa que ninguém tem coragem de fazer) o abuso a todos os órgãos que poderiam, se quisessem, por um fim a este processo criminoso. Todos, sem exceção, se furtaram a tomar qualquer ação.

Primeiramente a unidade da Gestão de Pessoas - GEPES tentou me enrolar sem querer dizer o motivo. Há muito custo descobri que se tratava de “comportamento incompatível”, porém não me foi esclarecido quais atos geraram essa interpretação de padrão de comportamento incompatível.

Posteriormente denunciei a OUVIDORIA que também não tomou nenhuma atitude. Ao contrário, após ter se esgotado o prazo de 30 dias, ainda me mandou em email malcriado, sem explicar o motivo da demora. Quando finalmente tive que procurar a justiça para garantir meu salário (conseguido através de liminar), a Ouvidoria se escondeu atrás desse processo para, também, não tomar nenhuma atitude contra os assediadores.

Isso confirma o sentimento da rede de que a ouvidoria só serve para punir gerentes de agencia, porque quando se tratam de Gerentes Regionais e Superintendentes ela se torna submissa e tem medo de afrontá-los.

Diante de mais esse ato de fraqueza da instituição busquei refugio na unidade de  Auditoria-SP2 que ficou num jogo de empurra com a Auditoria-SP3 e também não tomou nenhum atitude. Nova prova de submissão.

Tentei ainda a Diretoria de Relações com Funcionários (DIREF) e a Diretoria de Pessoal (DIPES). E o que conseguimos? NADA!

Gostaria que ficasse claro que, muito além de uma resposta positiva e que restabelecesse a moralidade e o direito, eu gostaria de ter alguma resposta! Que me provassem que eu estava errado, que os “deuses” das Gerencias Regionais de Varejo (GEREV’s) e das Superintendências podem tudo, até desrespeitar os normativos e a dignidade dos funcionários, mas que DISSESSEM ALGUMA COISA! 

O silencio absoluto de todos os órgãos me deixa com a clara sensação de que não podem dizer que estou errado, pois tenho conhecimento e convicção plena de que estou certo, e que a impunidade aos assediadores tem se tornado pratica na instituição.

Dessa forma, com o vencimento de minha licença-saúde em 01/06/2012 voltei a agencia para reassumir como “posto efetivo”, às 09:00 horas da manhã. Devido ao grande tempo de afastamento, solicitei a funcionaria que desbloqueasse minha senha para acessar o sistema.

Para minha surpresa, todos meus acessos tinham sido revogados e não conseguia ler nenhuma instrução. Consegui apenas ler meu correio pessoal, onde havia uma “nota técnica” do Gerente Regional, me negando o direito de sair de férias, que já estavam marcadas e autorizadas pelo banco, conforme documentos em meu poder. Note-se que ele apenas respondeu a referida “Nota Técnica” num horário em que eu já não estava mais na agencia, como forma de justificar um futuro ato de insubordinação e dar falsa sustentação a um processo totalmente fora dos normativos e de que eu já havia sido informado em out/2011.

Verificando as normas, observamos que precisava buscar o Atestado de Saúde Ocupacional (ASO) na CASSI - Caixa de Assistência dos Funcionários do BB (que só atende no período da tarde) e, como não estava conseguindo trabalhar por não ter acesso a nenhum sistema, busquei a CASSI para fazer o ASO e retornar ao trabalho. Como o INSS já havia negado a prorrogação da licença (existe uma norma interna de que para casos de depressão o afastamento não pode ser superior a 120 dias), seria natural que a CASSI me considerasse apto ao retorno.

Porém, em função do meu estado de saúde e dos laudos médicos apresentados, a médica da CASSI prorrogou minha licença até 01/07/2012, o que me fez retornar ao afastamento.

Em 02/07/2012 retornei a CASSI, com novos laudos médicos e, novamente, com a negativa do INSS, porém desta vez, contrariamente ao posicionamento anterior, a CASSI resolveu ignorar o parecer dos outros profissionais e me considerou “apto” ao retorno ao trabalho. Sendo assim, neste 03/07/2012 deveria retornar ao trabalho.

Porém, na noite de 02/07/2012 recebi um email do marido de uma funcionária, dando conta da perseguição que ela vem sofrendo por parte do Gerente Regional, unicamente por ter cumprido sua função, ou seja, desbloqueando minha senha para que pudesse trabalhar em 04/06/2012 e me ameaçando como se eu fosse o culpado pela perseguição que ela vem sofrendo. Ressalte-se que ela não me deu NENHUM ACESSO especial e que não fez nada que fosse contrario as instruções.

Desta forma, não me resta alternativa que não seja me demitir desse banco.  Agora as pessoas que, de boa-fé e dentro dos normativos, apenas me permitiram acessar meus “emails pessoais” também estão sendo perseguidas, ficando claro o propósito de me prejudicar e a todos que estão ao meu redor.

Se já seria difícil retornar ao local de trabalho onde passei por tanta humilhação, agora não possuo mais nenhuma condição psicológica de fazê-lo.

Assim, não se trata, como o banco já insinuou, de alguém que não queira trabalhar ou cujo único intuito seja obter vantagens financeiras.  Ao contrário, se quisesse não trabalhar e obter vantagens bastaria retornar ao meu posto no banco, trabalhando como escriturário e ganhando como gerente de agencia, sem nenhuma preocupação com a qualidade do trabalho apresentado, vantagens que a Sumula 372 do TST me garante.

Trata-se sim de alguém que queria trabalhar e foi impedido e cerceado em seus direitos, sem qualquer condição psicológica de exercer suas funções e que, agora, teme inclusive por sua integridade física e vendo funcionários honestos sendo perseguidos em nome da obsessão por parte dos superiores em me prejudicar só porque na visão da Gerencia Regional, tiveram a infelicidade de trabalhar comigo.

Infelizmente, o assédio moral no BB foi institucionalizado. Não que não existisse antes, afinal maus elementos existem em qualquer empresa. Só que antes eram minoria e eram punidos, agora são maioria e são promovidos. Centenas de funcionários se demitem todos os meses por não resistirem à sede de sangue dos assediadores. Pessoalmente, acompanho mais de 10 casos de colegas. Infelizmente me tornei especialista nisso.

Ter saído agora é apenas mais um capítulo no desgaste que venho sofrendo nos últimos anos.

Ao contrário do que possa parecer não se trata de uma vitória de alguém ou de uma derrota minha. Saio de consciência tranquila, pois nunca enganei, usei ou desrespeitei meus colegas e clientes e não vendi minha ética e meus conceitos morais.

Agradeço a todos. Os que me ajudaram com sua amizade e os que me tornaram mais forte com suas injustiças.



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