"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


domingo, 8 de setembro de 2013

Republicação 16

(Apuração Mambembe)

A retirada de minhas coisas

Depois de mais ou menos um mês de licença médica contrataram outra profissional para assumir minhas funções, ocupando os mesmos espaços físicos. Foi então que pedi a uma das pessoas que trabalhavam comigo que recolhesse alguns pertences pessoais, de maior valor, que estavam na minha sala. Eu tinha adquirido vários objetos para organizar o trabalho.
Quando a pessoa avisou “O” que iria retirar minhas coisas recebeu uma entusiasmada resposta: “é bom mesmo, que assim ela nem vem mais aqui”.

A empresa ouve as pessoas em pequenos grupos

Continuava em licença médica quando uma manhã às 10h15minh o bip de mensagem do meu celular tocou. Ao abrir a mensagem estava escrito exatamente assim: “ME LIGA AGORA”. Quando liguei, a voz ofegante do outro lado da linha me disse: “Tem uma comissão de gente da empresa lá no trabalho. Fizeram uma reunião com a gente e estão com outro grupo agora. Disseram que é porque houve uma ouvidoria. Estão querendo saber como é que a gerente “O” trata a gente”. Embora estivesse ofegante, porque caminhava enquanto falava, ainda descreveu vários depoimentos ocorridos na reunião.

No correr do dia recebi varias mensagens e ligações dando conta do desenrolar das reuniões que se seguiram e do clima que se instalara. As pessoas estavam perplexas e cheias de esperança. Começavam a acreditar que, finalmente, alguém ouviria os seus lamentos e faria com que o desconforto, o mal-estar, a sensação de impunidade e injustiça tivessem um fim. Confesso que eu também quis acreditar.

A falta de segurança e privacidade para relatar

Soube de alguns que choraram, enquanto relatavam, entre outros fatos, que tinham sido chamados de incompetentes, recebido gritos diante de outras pessoas pelos corredores. Até onde fui informada, inicialmente as pessoas estavam retraídas – talvez com medo de romper o silêncio. A partir do momento em que alguém se abriu a coisa transbordou como água represada por muito tempo. Quanto mais simples o escalão a que pertencia uma pessoa, mais facilidade parecia ter para expressar os sentimentos, sem a precisa noção de onde isso tudo levaria. A simplicidade aliada ao sofrimento talvez torne uns mais crédulos, corajosos e esperançosos do que outros.

A esperança

Fiquei feliz por todos. Sabia bem o que significava colocar para fora sentimentos represados por tanto tempo. Entretanto, mais uma vez, parece que a Direção da empresa não compreendera a importância de meu pedido para que ouvisse as pessoas individualmente.  A empresa informou a todos a oportunidade de se expressarem verbalmente ou por escrito, sem se identificar. 

O medo

Grupos grandes têm mais facilidade para se expressar, até porque sabem que será mais difícil de serem identificados. Mas, em grupos pequenos, como era o caso em algumas categorias – de até cinco pessoas – há a dificuldade em se revelar, e com boas razões, mesmo que de forma escrita e supostamente anônima. Sem falar que escrever coisas tão complexas, sentimentos há tanto tempo guardados, não é tão fácil como possa parecer a quem está de fora. Ainda que não houvesse o medo de retaliações, revelar fatos e situações os colocaria de forma nominal na “cena do crime”. Ainda mais se em tal cena, mora um delator.


Apuração Mambembe

Não foi por ingenuidade ou falta de interesse que a apuração dos fatos se deu de forma precária. Era evidente que o contexto não era favorável para que as pessoas expressassem suas realidades recheadas de angústias e medos, sendo o da represália a maior destes. O erro de procedimento teria a finalidade de se ocultar atrás de palavras esvaziadas de sentido a realidade dos fatos? Será que um dia saberemos?

Solidariedade ou busca de proteção no afastamento

Veja abaixo um pequeno trecho escrito por colega, algumas semanas antes desta “apuração” dos fatos:

“... deixe que cada um se vira como pode, ou como acha que deve agir. Mesmo que ela chame todos individualmente, é possível que ninguém fale nada com medo de represálias... não se preocupe pois não é sua culpa o comportamento dela conosco... cuide de você e pense em sua saúde...”  


Maldade ou a falta de ética

O boato que corria era que a chefe estava suspensa, já que por três dias ela não foi vista na unidade de trabalho. Claro que a Bajuladora passou desesperada os dois dias de “investigação” e cumpriu sua função de manter “O” informada. Todos precisam de “amigos” que os ajudem. As informações são vivas como cada um de nós. Suas diferenças estão na ética dos propósitos de quem as carrega.

Traição ou a história previsível

As pessoas ficaram abismadas quando na segunda-feira seguinte, eis que surge “O”, em todo seu esplendor e glória, ainda mais voraz que de costume. Provavelmente alimentada pela sede de vingança. Comentava-se que era frequente ouvir de “O” falas do tipo “disseram que eu era ruim... agora é que eles vão ver quem é “O”.
O meu celular tocava com frequência, com mensagens de texto ou ligações, com pessoas querendo saber o que aquilo significava. Estavam todas se sentindo lesadas, enganadas pela esperança que depositaram na tal “comissão de ética”. Não imaginavam que “O” retornaria para a Unidade depois dos depoimentos. Eu não tinha respostas; só sabia o que elas me contavam e estava me sentindo igualmente perplexa. Estava evidente que a empresa não tomara a posição de “cortar o mau pela raiz”. Era incompreensível esta postura. Alguns cogitavam sobre possíveis motivos que teriam levado a empresa a maquiar uma investigação, abafar, e preservar “O”. As pessoas permaneceram confusas com a permanência da maldade que não deixou de manifestar sua natureza tirânica.

A esperança como propósito

Nesta fase tomei uma importante decisão. Quando eu melhorasse, era para lá mesmo que eu deveria voltar. Queria de volta o que me fora sequestrado: minha vida, com minha equipe de trabalho, meus colegas, pessoas com as quais eu me importava, e para os quais, a minha volta significaria um raio de esperança. Pois se eu sobrevivi, eles também poderiam.

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