"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


domingo, 1 de setembro de 2013

Republicação 15

Reunião com a direção

Assim que comecei a me sentir um pouco fortalecida, pedi uma reunião com a Direção, depois de ter o nexo causal reconhecido pelo INSS. No período mais crítico, passava em consultas psiquiátricas quinzenais e terapia individual diária.  Estava em terapia intensiva, não podia me dar ao luxo de ficar deitada esperando que o tempo passasse e trouxesse solução ao meu sofrimento. E não me satisfaria com o alívio de meu sofrimento apenas. Fui buscar mais forças na necessidade de enfrentar a raiz do mau. Não queria que outros colegas continuassem vítimas de atitudes semelhantes. Já que meu sofrimento era irreparável, ao menos ou poderia contribuir para que outros não fossem vitimizados por atitudes deste tipo, venham de quem vier. A minha decisão estava tomada.

Pauta da reunião com a direção

Nesta reunião fui extremamente sincera e transparente – como gosto de ser – e disse tudo ou “quase” tudo que estava engasgado há muito tempo na minha garganta. Até escrevi um roteiros para não esquecer o que tinha para falar. Foram 21 itens, e passei mais de uma hora com a Diretora. Sou grata pela atenção recebida. 



1.    Agradecer pela disponibilização feita no primeiro contato, e embora eu quisesse tê-la procurado antes não estava em condições físicas e psicológicas pra isso.

2.    Nem tudo foi dito na primeira oportunidade, por questões obvias de tempo, e do stress que a situação me provocava. Após sair daquele encontro, embora desejando muito voltar ao trabalho me senti muito mal fisicamente e por isso optei por me afastar (seguindo sua sugestão) só que não usando as minhas folgas, mas procurando ajuda médica.

3.    Tanto queria voltar logo que mesmo tendo um atestado de sete dias (do dia 16) e um de 15 dias (do dia 17), porque achei que seria bom ter uma avaliação do serviço publico, visto que o primeiro atestado era de familiar, dei apenas o de sete dias porque acreditava que estaria bem em uma semana e em condição de voltar a conversar e retomar as atividades. Mas neste período só piorei, com ansiedade intensa, insônia, angustia, terror... Tive muita dificuldade em admitir que precisasse de ajuda mais especializada embora estivesse com dois encaminhamentos e duas prescrições para iniciar medicação (das duas consultas já citadas).

4.    A intenção real do meu marido quando escreveu foi apenas me proteger, mas a motivação para que ele mandasse a carta à ouvidoria (também sem o meu conhecimento) foi a colocação da Senhora na resposta, de que eu havia “cortado e lixado as unhas parecendo não estar interessada”. Para ele isso foi uma desqualificação da gravidade da denuncia que ele estava fazendo, e ele sabia o quanto eu gostaria de ter dito naquela ocasião o que lhe digo agora. Mas não havia vínculo suficiente para que qualquer um se sentisse seguro em falar naquele primeiro encontro.

5.    Quanto ao corta e lixar de unhas durante a reunião, não me pareceu estar sendo desrespeitosa com ninguém. Pelo que senti naquele momento, o clima de informalidade (que posteriormente chegou a se rodar pacote de biscoito de mão em mão) me permitia cortar UMA unha que estava quebrada e incomodando, com uma tesoura de chaveiro, e por isso inapropriada, que fez com que eu precisasse lixar a mesma unha por 3x. Se eu tivesse tido a percepção de que estava sendo ofensiva e desrespeitosa, não o teria feito.

6.    Outra coisa que fiquei pensando foi de quando a Senhora falou que quando eu comecei a falar na reunião que acontecera na empresa, com o grupo de colegas, parecia que eu estava com raiva e que por isso me fez outras perguntas e viu que não era raiva e sim entusiasmo. Mas eu fiquei pensando muito naquilo e cheguei à conclusão que a Senhora estava certa, eu estava mesmo com raiva quando comecei a falar, mas na verdade era uma raiva bem específica, porque detesto puxa-saquismo, doença da qual padece a colega que falou antes de mim, e isso de fato me provoca profunda irritação. E o entusiasmo que se seguiu com as suas perguntas, é porque sou de fato muito entusiasmada com o que faço, amo o meu trabalho e acredito nele.

7.    É preciso que fique claro que o pedido de reunião tem apenas a intenção de deixar algumas questões mais claras.

8.    Durante a nossa primeira conversa ficou sempre presente a impressão de que tudo que estava acontecendo era apenas uma dificuldade minha em lidar com o "jeito" da chefe. O que não é verdade, e eu falei isso naquele primeiro encontro, de que era uma dificuldade de todos, e que se fosse dada oportunidade onde as pessoas pudessem se sentir seguras, elas poderiam contar o que realmente passavam. Desde a carta mandada pra você pelo meu marido este era o ponto, não era uma queixa apenas minha. Mas será que eles se sentiram seguros quando lhes foi dada a oportunidade de falar? Com a colega citada acima ninguém se sente seguro pra falar o que pensa.        
                                                                                                                                                                                                                                  
9.    O médico do trabalho fez algumas colocações interessantes: Quando eu lhe disse que todos viviam sobre o domínio do medo ele perguntou: "mas quem deu tanto poder a essa mulher pra todo mundo ter medo assim?" Mas esta pergunta tem uma resposta relativamente fácil: Todas nós temos medo porque precisamos dos nossos empregos, cada um por um motivo ou outro, sabe o que o faz se calar e buscar suportar os maus-tratos. Outra colocação dele quando voltei para trazer o relatório que ele pedira à minha psiquiatra solicitando que ela especificasse porque colocara no atestado que o meu quadro era compatível com “experiências estressantes no trabalho” foi de que ela devia "gostar muito" de mim pra fazer um relatório daqueles. Na verdade eu a conhecera na minha primeira consulta, e tenho certeza de que ela fez o relatório da forma que fez, por ter recebido de mim relatos e provas consistentes do medo coletivo que se instalara no meu trabalho. Certamente ela não colocaria seu CRM em risco apenas por ter gostado de uma paciente.

10.  Não tenho a intenção de usar os meus colegas citando nominalmente os constrangimentos sofridos. Quando disse que tenho colega em terapia e tratamento há mais de um ano por causa das agressões dela, eu não estava mentindo nem aumentando, mas não acho justo expor a vida privada de nenhum colega embora eu possa provar do que estou falando. Sem falar nas inúmeras vezes que uns serviram aos outros como ouvidos e ombros para as lágrimas e angustias.


11.  É muito triste quando você procura fazer sempre o seu melhor e sente que todo o tempo a pessoa está procurando algo pra colocar defeito, pra lhe 'pegar na curva'. Esta é a sensação geral. É obvio que ninguém é perfeito e todos estão sujeitos a falhas, mas mesmo não tendo como negar as coisas boas que fazemos não nos sentimos reconhecidos de fato, pois o tempo todo há algum tipo de pressão totalmente desnecessária acontecendo, e quando não é você a 'bola da vez', sempre alguém está sendo, e você não sabe se você não será o próximo.

12.  Em curto período três colegas foram demitidos e nem sempre por motivos consistentes. Com profissionais de outros escalões, a situação muda um pouco, pois são estes que vão embora após algum tipo de agressão sofrida. Mas como eles não precisam se submeter a isto devido a grande procura por esse profissional, ele é que vai embora sem mais queixas. O que é bem diferente na nossa pele, já que sabemos que existem 1000 querendo o seu lugar. Por isso o sofrimento e o silêncio.


13.  Alguns relatos pessoais: O primeiro apenas, eu citei na nossa primeira reunião quando ela gritou comigo na frente de todos (reunião geral) me mandando estudar porque eu não quis assinar um documento referente a um curso do qual eu não participara e não sabia do que se tratava.

14.  Eu disse também que pelo gosto dela nós só falaríamos o que ela permitisse. Como exemplo cito: uma ocasião no ano passado quando a supervisão nos fez uma visita e disse que eu não poderia fazer a bota de unna porque eu não tinha feito as duas partes do curso eu disse que não havia problema, era só dizer pra onde eu poderia mandar os pacientes que precisassem de bota porque eu nem gostava tanto assim de ferida. É claro que o fato de eu preferir outras coisas não me impede de fazer sempre o meu melhor, e isso estava evidente no sucesso que estava sendo o tratamento de feridas sob os meus cuidados, com fotos da evolução, com autorizações, etc. (em poucos dias a Supervisão encontrou um jeito de me dar a parte que faltava). Quando a encontrei (sozinha) depois da reunião com a Supervisão ela disse: "Quase dei na sua cara, como é que você fala que não gosta de feridas, esse povo não é amigo...".

15.  Eu poderia relatar outras situações se fosse necessário, tanto minhas como dos meus colegas, mas tudo que preciso é deixar claro que não sou nenhuma maluca deprimida com mania de perseguição. Nunca na minha vida precisei de cuidados psiquiátricos nem de medicações controladas. Muito pelo contrario, sou uma pessoa feliz que tem fé na vida e nas relações humanas.

16.   Já presenciei e tomei conhecimento de atitudes de desrespeito com outros colegas com comentários maldosos que poderiam gerar até processos. Como exemplo: dizer que uma funcionária que ela demitira era “sapatão”, e que inclusive a ex-funcionária, e a “amante” tinham brigado na rua, em algum lugar que não conheço. Nunca contei isto à ex colega, pois sabia o quanto ela já se sentia magoada com sua demissão, mas que achava o comentário da chefe preconceituoso e descabido e que nunca ouvira ou percebera nada que indicasse fundamento naquele tipo de comentário.

17.  É verdade que ela melhorou? Sim, é verdade. (Essa era a fala dos colegas, na reunião que a Coordenadora fizera com a equipe após a ouvidoria) Mas é algo parecido com alguém que se sente feliz e agradecido ao seu torturador por estar sendo torturado agora apenas 1 a 2x na semana, já que antes a tortura era de 4 a 6x. O torturado se sente feliz por ter alguns dias de paz e chega a sentir-se agradecido ao torturador, sendo até capaz de dizer que o tal e bonzinho. Não é capaz de perceber que não deveria estar sendo torturado em nenhum dia da sua vida.

18.  É muito triste ter a sensação de que possa parecer que você está inventando ou aumentando alguma situação por algum motivo pouco claro, quando na verdade você sabe exatamente o que você e os outros passaram. Digo passaram, porque pelo que sei hoje ela está bastante “cuidadosa’ com a forma como trata os subordinados.

19.  Também não acho justo ter que ser mudada de posto de trabalho como se eu tivesse recebendo uma punição por algo errado que eu tenha feito, quando de fato eu e os outros temos sido vitimas dos abusos de autoridade. É verdade que não fui contratada para um lugar especifico ou para uma equipe especifica, mas o que se constrói em quase seis anos não se constrói em seis dias ou em seis meses, e tudo que consegui construir lá foi com muito carinho e dedicação. Realmente acho injusto ter que deixar tudo pra trás, porque existe todo um processo de conquista de espaço que se perde.

20.  Explicações inverídicas à equipe referentes à minha saída e colocações do tipo: “... isso era invenção da “fulana”, não precisa nada disso... ela que ficava inventando um monte de planilhas e coisas pra vocês fazerem, daí vocês achavam as coisas difíceis”. Só que alguns dias depois as funcionárias estavam sendo cobradas por essas coisas que eu é que tinha “inventado”.

21.  Nenhum desses fatos foi relatado à  ouvidoria embora eles tenham pedido ao meu esposo que o fizesse. Em sua resposta ele sugeriu apenas que eles próprios perguntassem aos funcionários. Deixo claro que não omitirei nenhum fato quando for questionada, por eles ou qualquer outro, e que espero que eles possam ouvir outros funcionários de forma individual e segura para que a verdade possa prevalecer.

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