"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


domingo, 25 de agosto de 2013

Republicação 14

(
Imagem Google
(Ouvidoria)

No fim da tarde, quando cheguei à minha casa, após a reunião com a Coordenadora Sra. XXX e com a gerente “O”, abri o meu e-mail encontrei uma mensagem do meu marido. 

Dizia que “diante da resposta da Sra. XXX (Relato 11), insatisfeito com o conteúdo, em especial a parte que dizia: “Na reunião ela lixou e cortou as unhas, me pareceu não estar muito interessada”. 

Considerando a resposta da empresa à grave denúncia feita, uma mudança de foco inoportuna, um aparente descaso e desrespeito, ele encaminhou à Ouvidoria Geral da Saúde do Município de São Paulo, uma das instâncias do órgão responsável pela fiscalização dos serviços contratados. 
No momento, não vira outra alternativa e fizera este encaminhamento ao Ouvidor no própria dia em que recebera a resposta da empresa, através da senhora XXX. Meu marido se surpreendeu com seu teor, incompatível com a imagem que tinha da empresa.

Eu não tinha o que contestar, estava frente a uma situação sem volta. Eu jamais poderia dizer que o meu marido estava faltando com a verdade. Fato é que ele se pautara apenas na realidade dos meus relatos e lamentos, e eu sabia que em nenhum deles havia mentido ou maximizado. 

É comum e recomendável que se divida com familiares e amigos o que passamos em situações adversas (é nossa rede de apoio social, fundamental como um recurso para superação). Aliás, recorrer a grupos de pares e família é tão importante como a busca de ajuda psicológica especializada. Pessoas com fortes grupos de pertencimento (família, amigos, igreja e outros) tendem a se sair melhor nas adversidades.
Dois dias depois, logo cedo, meu marido recebeu da Ouvidoria uma cópia do encaminhamento da denúncia à empresa, que fora repassada à Ouvidoria. Neste encaminhamento a Ouvidoria solicitava manifestação da empresa a respeito:
“À Senhora XXX
Encaminhamos o presente para conhecimento e manifestação sobre o resultado sobre a apuração dos fatos.Informamos também que uma cópia desta comunicação foi enviada à interessada para acompanhamento.
Atenciosamente,
Ouvidoria”
No mesmo dia, à tarde, soube por mais de um colega que a Coordenadora, Sra. XXX, estava lá para fazer reunião com a equipe do meu escalão.

A única coisa que pensei foi: Tomara que ela se lembre do que eu disse e chame as pessoas individualmente. Se ela não fizer isso, jamais saberá a verdade. 
À noite, fiquei sabendo do teor da reunião, e mais uma vez, as técnicas usadas para colher as informações de forma precisa, foram equivocadas e ineficientes. 
Colocaram todos o empregados da Unidade juntos na mesma sala. Lá, a “puxa-saco”, que gentilmente passarei a chamar de “Bajuladora”, e o “escrevente da ata” da reunião (marido da secretária da chefe “O”), levado pela Sra. XXX, impediam que os presentes se sentissem à vontade para expressassem as suas verdadeiras opiniões e sentimentos.

Nesta época recebi mensagens, escritas e verbais, do tipo:

“Por favor, amiga, me perdoe, mas eu não tive coragem de falar.”
“Falamos o que deu para falar, muita coisa ficou nas entrelinhas.”

“Com o “escrevente da ata” lá, como é que alguém vai falar?”. 
“A Bajuladora disse que vai descobrir quem é que está fazendo terapia há mais de um ano pra contar pra chefe. Eu fiquei em pânico.”
“Com a Bajuladora por perto, quem é que vai ter coragem de falar?”
Será que passa pela cabeça de alguém, que pessoas neste estado, possam de fato, se expressar livremente? É evidente que a situação arranjada para que falassem não visava obter informações que confirmassem as denúncias. A situação era intimidadora, sem garantias necessárias de não punição. 

Nesse dia escrevi uma carta aos meus colegas, pois imaginava como cada um se sentia. De certa forma eu também me sentia culpada pela situação que eles estavam tendo que enfrentar. Também sabia dos medos e dos motivos que fariam com que permanecessem calados –  essa tinha sido a regra por anos, até comigo – e não os culparia por isto. 

Recebi resposta de apenas uma das cartas. Depois soube que as pessoas estavam com medo de mim, ou de falar comigo, porque a Bajuladora divulgara que eu estava gravando tudo para mostrar à coordenadora.

Os dias foram passando e se tornando meses e cada vez mais os colegas se distanciavam. Embora me tratassem bem, eram reticentes e não voltavam a fazer contato. Parecia que eu tinha uma doença contagiosa que se passava por e-mail ou telefone. No entanto, no mesmo período recebi demonstrações de carinho e solidariedade indescritíveis de alguns.

Seguem aqui algumas transcrições:
“Bom dia. É tão ruim e vazio chegar aqui e saber que você não está. Você faz muita falta para mim. Estou orando e torcendo por você, e nunca se esqueça que os humilhados serão exaltados. Deus nunca desampara os seus verdadeiros filhos. Te amo amiga.”

"Como você está? Espero que bem. Tenho sonhado muito com você se despedindo de nós. Você faz muita falta por aqui. As coisas não são as mesmas sem você. Fique bem aonde quer que vá. Você faz a diferença e isso às vezes incomoda demais as pessoas. Bom feriado, fique com Deus. Saudades...”
“Se precisar de mim, estou do seu lado.”
"Fique firme amiga, que Jesus está juntinho de ti, e seus verdadeiros amigos também.”
A propósito, coloco aqui um relato que muito me impressionou:

Pouco mais de uma semana após iniciar minha licença médica, recebi uma ligação de alguém que relatava ter ficado impressionada com o fato de outra pessoa que ela nem sabia que “gostava” de mim – já que não me era próxima – a ter me defendido diante de fala bastante agressiva a meu respeito. Contou-me então que um novo profissional, médico, de uma determinada equipe fora até a sala de vacina, e lá entabulando conversa dizia:
 “Ainda bem que não conheci essa enfermeira que saiu. Dizem, que era o demônio. Eu soube que os médicos que saíram daqui, saíram todos por causa dela...”
A pessoa que me defendeu, segundo soube, disse-lhe que ele não estava falando da mesma pessoa que ela conhecia, porque eu não era nada daquilo que ele estava falando. Ao que ele respondeu: 

“Isso foi informação que veio de cima”.
Durante os meses em que fiquei fora, a minha recuperação foi dolorosa. Sentia muita falta dos meus colegas. Muitas vezes me senti magoada e abandonada com o distanciamento deles. 

Com as investidas “agressivas” da parte de “O”, foram-me tiradas várias fontes de satisfação na vida. Senti que minha vida me havia sido tomada. Por exemplo, o convívio com colegas de trabalho – alguns que foram se afastando por medo –  pacientes de programas e atividades construídas ao longo de anos, pautadas num vínculo afetivo propulsor de satisfação e êxito no trabalho. 

Senti-me sequestrada e isso é bastante coerente com um quadro de Ansiedade Generalizada e Síndrome do Estresse Pós Traumático. Como diz meu marido, psicólogo clínico há décadas, é inquestionável o nexo causal precipitante ou agravante destes e de outros quadros de ansiedade, que podem, lá na frente, configurar como sequela um quadro depressivo duradouro.

Quando as medicações começaram a surtir efeito, comecei gradativamente a melhorar. Já conseguia dormir melhor, os flashbacks foram aos poucos diminuindo e também a sensação de terror. Mas não desapareceram de todo. 

Não posso deixar de prestar uma homenagem ao meu marido, grande companheiro que esteve o tempo todo ao meu lado.  Como companheiro e como profissional, usando técnicas de terapia comportamental que muito me ajudaram e continuam a ajudar no meu processo de recuperação, que segundo a psiquiatra, deve durar no mínimo um ano. Não sei o que faria sem ele, a começar pelo seu gesto de denunciar. 

Seguramente, eu não teria condições de fazê-lo, me manteria calada, negando o que se passava, tentando paliativos - como fiz por anos - como muitos de meus colegas ainda fazem. Eu os entendo. Às vezes, de tão mal que estamos, como diz meu marido:
"nós precisamos de alguém que nos carregue numa maca, sem que nos pergunte se queremos ou não; é uma questão de sobrevivência". 
Eu caminhava para um estado cada vez mais precário, de imobilização.

Uma noite sonhei que tinha voltado a trabalhar, daí entrei na unidade de trabalho e encontrei uma cliente que ficou feliz em me ver e pediu para eu atendê-la. Também eu fiquei feliz em atendê-la em uma sala próxima à entrada. Mas não via nenhum dos colegas. Só de muito longe. Parecia que os corredores eram bem mais compridos. Resolvi então ir à minha sala. Enquanto andava pelo corredor, eu ia me sentindo feia, olhava o meu avental e achava que estava todo sujo, olhava pro meu pé e estava de chinelo com as unhas grandes... e dava pra ver que todos estavam de sapato. Senti-me envergonhada, deslocada e fora de contexto. 

Comecei a me questionar se era assim que eu me sentiria quando voltasse a trabalhar. 


Mas de qualquer forma eu teria que tentar.

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