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quinta-feira, 4 de julho de 2013

Para acabar com o assédio moral, é preciso mudar a estrutura organizacional, defende especialista.

Para Heloani (esq.), acabar com o assédio está condiciado ao fim das metas abusivas
(Brasília) - Divulgado durante o Congresso do Sindicato dos Bancários de Brasília, no último sábado 22, o resultado da consulta feita pela entidade junto à categoria mostrou que, nas cláusulas relativas a saúde, condições de trabalho e segurança, a necessidade de se combater o assédio moral nos locais de trabalho foi apontada por 65% como prioridade para a Campanha Nacional 2013. Na sequência, com 57%, aparece o fim das metas abusivas.

Os números são preocupantes e sintomáticos. O assédio moral e a pressão pelo cumprimento de metas abusivas são dois velhos conhecidos da categoria bancária, uma das mais afetadas por essas práticas que, juntas, configuram o retrato mais visível de um modelo organizacional netasto que, no caso dos bancos, é todo programado para gerar lucros, não importa a que custo.

“A cobrança pelo cumprimento de metas constitui o ‘calcanhar de Aquiles’ do assédio moral”, apontou Roberto Heloani, doutor em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e membro-fundador do site www.assediomoral.org.br, durante painel sobre o tema, ministrado dentro da programação do Congresso do Sindicato dos Bancários de Brasília, realizado no último sábado 22 na Legião da Boa Vontade (LBV).

Nesse contexto, ele criticou principalmente os métodos de avaliação em vigor dentro das instituições financeiras, principalmente a individual, que classificou de “altamente patologizante”, visto que, segundo o especialista, o trabalho é um sistema cooperativo, grupal. Soma-se a isso, acrescentou, o fato de os bancos terem instituído a remuneração variável, com premiações por bônus, estimulando uma “competitividade destruidora”. “O que prevalece é a lógica de que o meu bem-estar significa o seu mal-estar, para que eu continue na empresa. Cria-se assim um tipo de trabalhador com tendência à psicopatia”.

É de tal forma absurdo o modelo em curso nos bancos que os bancários não têm medido esforços para bater suas metas. Prova disso, exemplificou Heloani, é o caso de uma agência onde as mulheres, pressionadas pelas metas individuais de abrir 40 contas para clientes com renda a partir de R$ 3 mil num curto espaço de tempo, se utilizaram de métodos bastante duvidosos, chegando ao ponto de se insinuarem sexualmente para eles.

Há 15 anos trabalhando com o assunto, com vários livros publicados com os temas de assédio moral e sexual, Heloani fez assim um alerta aos bancários, neste momento em que se mobilizam para mais uma Campanha Nacional: “é ultrapassada a visão de que temos que reivindicar somente salário. A violência no trabalho é um tema que não pode ser tratado com descaso”.

Nesse sentido, o especialista atribui aos sindicatos um papel determinante na luta contra a desmoralização da prática do assédio moral, uma batalha que tem sido travada inclusive - e de forma preocupante - em alguns tribunais. “Para muitos juízes, essa prática não existe”, afirmou, acrescentando afirmação feita por um desembargador que é reveladora do entendimento que prevalece em parte do Judiciário brasileiro: “assédio moral é como batata frita, acompanha qualquer coisa,  e acaba não sendo coisa alguma”.

Enquanto isso, do lado de fora dos tribunais, as vítimas continuam adoecendo e morrendo, em muitos casos por suicídio. Casos de adoecimento e até mesmo de morte como consequência direta das práticas de assédio moral têm atingido níveis preocupantes, o que, para o especialista, encontra explicação no aperfeiçoamento das manifestações dessa violência, ou seja, dos métodos utilizados pelo agressor para atingir suas vítimas.

Por definição, o assédio moral é a exposição dos trabalhadores a situações humilhantes e constrangedoras, que se dá por períodos repetitivos e prolongados durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções, tendo como resultado a desestabilização da relação da vítima com o ambiente de trabalho e a organização, forçando-o a desistir do emprego.

Segundo Heloani, a intenção do assediador se mostra pela frequência. Ele afirma que 68% dos episódios de humilhação ou constrangimento, por exemplo, ocorrem de duas a três vezes por semana. “Todas as estatísticas sérias mostram que o comportamento é repetitivo e seu objetivo é colocar o individuo para fora da empresa. E nos casos de bancos públicos, como há estabilidade, isso serve como instrumento de pressão. Daí o indivíduo adoece e é afastado”, explicou.

O especialista afirmou que a própria Previdência Social está preocupada com tanta gente adoecendo tendo por causa o trabalho, e o assédio moral tem muito a ver com isso. “Hoje, pessoas de 40 anos estão apresentando transtornos mentais”. De acordo com o último relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) citado pelo psicanalista, esse tipo de problema psíquico constitui atualmente a segunda causa de afastamentos do trabalho, sendo a depressão a maior incidência, um dos problemas mais graves. Além disso, pesquisa da Unicamp constatou: aumentaram em 530% os casos de mulheres cardiopatas. “Depressão, transtorno e cardiopatia são doenças relacionadas ao trabalho”, assegurou.

Avanços e problemas

Apesar de serem muitos os problemas, houve avanços na luta contra o assédio moral. O especialista citou como exemplo o acordo assinado em 2011 entre os trabalhadores e os principais bancos. “Nesse aspecto, a questão política é fundamental. Se não, daí tudo pode virar um malefício. E isso depende da correlação de forças, da capacidade de pressionar”.

Ele, porém, se disse contrário ao projeto de lei que visa criminalizar o assédio moral. O problema, segundo o professor é que, se aprovado, o que será colocado na Justiça é a versão de um indivíduo contra o outro, o que representa um risco, isentando as empresas e suas formas de organização do trabalho. 

Ética é imprescindível

Para mudar essa realidade vivenciada por muitos trabalhadores, o especialista defende mudanças estruturais na cultura organizacional. “É preciso mudar a organização de trabalho. Não é a questão de metas, mas o tipo de metas e o que acontece com as pessoas que não a cumprem”.
Nesse sentindo, a observância da ética é condição sine qua non para essa transformação. “As empresas não podem prescindir da ética”, orientou, e citando um renomado pensador, arrematou: “a gente só é ético quando se coloca no lugar do outro e sente o que ele esta sentindo”.

Renato Alves
Do Seeb Brasília

Fonte: FETECCUT

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