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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Assédio Moral. Um inimigo invisível no local de trabalho


No Sindicato é comum entre um atendimento e outro ouvir queixas de empregados que são perseguidos ou humilhados por seus patrões, gerentes ou encarregados. São narrativas que vão desde xingamentos e menosprezo na frente de clientes e colegas de trabalho, até o controle do tempo no banheiro. Verbos como inferiorizar, amedrontar, constranger, difamar, ridicularizar, ignorar e humilhar são os que mais aparecem para descrever uma mesma prática cada vez mais frequente nos ambientes de trabalho: o assédio moral.

Em entrevista à Rádio Brasil Atual, o juiz do trabalho e professor da Faculdade de Direito da USP, Jorge Luiz Souto Maior, considerou uma tarefa difícil definir em poucas palavras o assédio moral. Para ele, essa prática pode ser identificada pela simples desconsideração humana do trabalhador. Ou seja, o funcionário é transformado em uma mercadoria, é visto como um mero instrumento da unidade produtiva. Essa desconsideração acontece de várias formas como brincadeiras, pressões, olhares, gestos. É um tratamento que agride o íntimo da pessoa, fazendo-a sentir-se incapaz ou incompetente, e que acontece de forma repetitiva, porém encoberta.

Consequências

A repetição contínua dessas situações de humilhação causam dor, tristeza e sofrimento, interferindo diretamente na identidade, nas relações afetivas e sociais do trabalhador. Por causa do assédio moral, a vítima acaba desenvolvendo doenças físicas e mentais, que podem afastá-la do trabalho e até causar a morte.

Danos do Assédio Moral
No local de trabalho
Problemas físicos
Problemas psíquicos
Reproduzir as práticas agressivas nas relações com os colegas;
Cansaço exagerado, estresse, dificuldade de concentração, tonturas;
Irritabilidade, baixa estima;

Ser indiferente ao sofrimento do outro e ter dificuldades para se relacionar e trabalhar em equipe (individualismo);
Problemas de pressão arterial, tremores, aumento das chances de desenvolvimento de LER/DORT;
Dificuldades nos relacionamentos com a família e os amigos (isolamento);
Consentir aos desmandos dos chefes e reforçar um pacto de silêncio coletivo;
Favorecimento ao alcoolismo e envolvimento com drogas;
Diminuição da libido e esfriamento da vida afetiva;
Sentir-se inútil ou como se fosse um objeto;
Distúrbios digestivos, mudanças de apetite;
Sentimento de culpa, pessimismo;
Diminuir a produtividade e aumentar o absenteísmo;
Agravamento de doenças pré-existentes, dores generalizadas;
Depressão, variação de humor, crises de choro;
Descontentamento e falta de prazer no trabalho.
Insônia e outros problemas do sono.
Medo geral e depressão, podendo levar ao suicídio.


As principais situações de assédio moral envolvem hierarquia, como são os casos de um superior para com seus subordinados. Dentro dessa prática também há grupos que estão entre as vítimas mais frequentes, como as mulheres, os negros, os homossexuais, trabalhadores doentes ou acidentados e pessoas questionadoras.

Raiz do problema

De acordo com o professor, a intensificação do sistema capitalista, dentro da sua necessidade de multiplicar os lucros a todo custo, tem relação direta com o aumento das práticas de assédio moral nas empresas. Uma das características próprias dessa intensificação é a flexibilização, que na verdade significa a desregulamentação dos direitos trabalhistas. Isso envolve a precarização do trabalho, com a imposição de baixos salários, longas jornadas, a polifuncionalidade (desvio de função), a competitividade extrema entre colegas de trabalho e a responsabilização do trabalhador pela capacidade de se manter empregado. São essas condições que sustentam um ambiente onde há abuso de poder e manipulação do medo.

Desse modo, o assédio moral não pode ser interpretado apenas como um “capricho” de algum patrão. Essa prática “é reflexo de um capitalismo desajustado, que não encontra muitos freios a partir dos efeitos jurídicos e sociais que foram abalados por essa convicção de que o sistema não deve limites a ninguém”, afirma o juiz. Nesse sentido, a busca do lucro justifica tudo, até passar por cima da saúde física e mental do trabalhador, fazendo dele uma simples peça da engrenagem.

Quem é o responsável?

Pelo fato do assédio moral ser propiciado por uma estrutura capitalista, não é só o agressor direto que pode ser responsabilizado por essa prática. Conforme explica o professor, pode ser que o empregador não participe dessas situações e que essa pressão não seja orientação sua, mas como faz parte do ambiente de trabalho ele pode ser responsabilizado. Esse é o caso de empresas que estimulam a concorrência entre os trabalhadores com o estabelecimento de metas, por exemplo. “Juridicamente ele não poderá falar que não sabia de metas, xingamentos, pois ele precisa verificar como as relações hierárquicas se desenvolvem no ambiente de trabalho”. Assim, a situação econômica da empresa pode até se complicar devido às indenizações.

Quanto ao trabalhador que é vítima de assédio, a primeira dificuldade é perceber que ele ocorre. Diante disso, o Sindicato é o local apropriado para buscar orientação, denunciar e pedir intervenção antes que o problema se agrave. Mas só isso não é suficiente. A principal arma do trabalhador no combate ao assédio moral é a luta pela melhoria das condições gerais de trabalho e, sobretudo, pela construção de uma sociedade com outros valores. Onde as necessidades humanas estejam bem acima dos resultados materiais.

Fonte: CONTRACS

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