"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Relato 32 (Carta de assediada a um Juiz)


Senhor Juiz,

Gostaria de estar calma naquele dia, como estou agora, e que as minhas idéias fossem claras como são neste momento.

Imagem Google
Posso lhe assegurar que estar sentada à sua frente, foi uma das piores coisas que já tive que enfrentar. Não que o senhor fosse feio ou de aparência assustadora, pelo contrário...  mas a forma como o Senhor conduziu suas perguntas foi de fato aterrorizante e me deixaram de certa forma travada, paralisada.  O senhor me interrogou, e me interrompeu várias vezes dizendo: “responda apenas sim ou não”. Infelizmente Senhor juiz, tudo que vivi e sofri não é possível resumir com sim ou não. Por isso saí da sua sala ao fim de tudo, com uma sensação horrível de dever não cumprido.

O senhor me perguntou se quando voltei ao trabalho minha assediadora me tratava de forma normal, eu lhe respondi que superficialmente sim, mas por trás ela falava mal de mim, dizendo que eu era perigosa, para as pessoas terem cuidado comigo e para que as pessoas tivessem medo de mim e se afastassem de mim.  Gritar comigo realmente, ela não gritou mais. Mas não foi possível lhe dizer, por exemplo, que ela me deixou vários dias sem nenhuma atribuição e me tirou todas as que eu tinha antes, dando-me apenas atribuições descartáveis, e que sugestões ou qualquer outra interferência minha nas reuniões gerais eram ignoradas desdenhosamente, mesmo aquelas onde eu era a única especialista no assunto. Também não foi possível lhe dizer que me foi tirado o acesso às senhas dos computadores que todos os colegas tinham e que se suspeitasse que eu houvesse “descoberto” a senha, era uma correria velada pra trocar a tal senha para que eu não tivesse acesso a nada...

Eu pleiteava horas extras também Senhor Juiz. Na nossa conversa o senhor me perguntou se determinado trabalho técnico que eu fizera, fazia parte de minhas atribuições. O Senhor acha mesmo, que eu me sentaria à sua frente para dar um tiro no pé? E se não fizesse parte das minha atribuições, como explicar que o tal trabalho tenha participado de Congressos e eventos e tenha se tornado padrão de referência em todo o município. Sabe Senhor Juiz, eu nem teria me importado que o Senhor não tivesse me dado as horas extras, que o Senhor dissesse que eu não fizera mais do que minha obrigação, mas gostaria que tivesse me ouvido, porque é impossível resumir um livro em um simples: “Sim” ou “Não”.

Eu lhe respondi: “acho que não”, e o Senhor deu a conversa por encerrada. O senhor achou mesmo que as minhas palavras respondiam tudo que o senhor queria ouvir? Porque não me perguntou por que eu achava que não? Quando lhe disse “acho que não”, queria lhe dizer que tudo o que fiz ia muito além das minhas atribuições. Que o amor que dediquei a aquele trabalho ia muito além. Que as madrugadas que passei acordada por aquele trabalho, iam muito além. Que toda a energia que dediquei por mais de quatro anos a aprimorar aquele trabalho, iam muito além.

Se o senhor me perguntasse se fiz tudo aquilo pra ganhar horas extras, a resposta seria facilmente exata, NÃO. Mas depois de ser descartada por Justa Causa, acusada de forma vil, covarde e traiçoeira, de estar difamando a empresa, quando ela através de uma preposta sua, me adoecera e tripudiara... Acho que seria justo, muito justo, muito mais que justo, que eu fosse ressarcida e remunerada por isso.

Hoje enquanto lhe escrevo, ainda não sei qual será a sua sentença no meu caso. Só gostaria que soubesse o quão triste me sinto, por ter sido usada e descartada por aqueles que poderiam e deveriam ter me protegido. Por ter sido obrigada a ouvir do preposto da empresa sem poder reagir, que eu deixava de cumprir com as minhas obrigações, que eu não visitava meus clientes. Porque será que eu sendo assim tão incompetente, nunca recebi uma advertência sequer?  

O senhor se lembra Senhor Juiz, como em todas as oportunidades que teve, o advogado da empresa insistia em derrubar o laudo do INSS que me deu o benefício em caráter acidentário? Na última oportunidade inclusive, eles pediram até que as provas dadas por mim ao INSS fossem expostas. Pois vou lhe dizer uma coisa Senhor Juiz, se o Meritíssimo tivesse atendido ao pedido deles eu teria que ter exposto pessoas que ainda trabalham lá, e por querer protegê-las, não solicitei os seus depoimentos. Mas ao INSS eu mostrei tudo o que eu tinha de provas, e certamente para eles, foram provas irrefutáveis e deram veracidade às minhas palavras.

Eu sei que corria e corro o risco, Senhor Juiz, de que minhas outras testemunhas não tenham sido fortes suficientes para corroborar as minhas afirmações, e insuficientes para o seu convencimento. Mas sou uma mulher de palavra, e jamais prejudicaria alguém deliberadamente. Que garantias de segurança eu poderia dar às minhas testemunhas que ainda trabalham lá,  mesmo que a lei diga que elas não podem ser punidas por testemunhar, depois delas terem visto a empresa forjar a minha demissão por justa causa aos 45 dias de um período de estabilidade de 365 dias?

Eles me acusaram Meritíssimo, de estar denegrindo a imagem deles aqui neste espaço. Como se pode ver, um espaço sem nome e sem rosto, que pode ser de nenhum, ou de qualquer um que queira se desabafar e ser ouvido.

Eles entraram na minha rede social e imprimiram o rosto de todos os meus contatos e anexaram ao processo. Eles destacaram os meus contatos que eram seus funcionários, entraram em suas contas fazendo-se de amigos, e imprimiram compartilhamentos meus em seus murais. Eu lhe pergunto Meritíssimo: Até os amigos que seus funcionários podem ter, e os assuntos que podem ser compartilhados em seus murais, precisa passar por prévia autorização do empregador?

Eles imprimiram páginas de conversas minhas que não são públicas a eles, já que não fazem parte da minha rede de amigos, nem dos meus amigos, que tiveram suas conversas comigo anexadas ao processo. Imprimiram também todos os concursos que participei desde a minha demissão da empresa e anexaram ao processo.

O que isso significa Senhor Juiz? Que depois de ser demitida por justa causa, de ter que devolver a eles até o adiantamento do 13º. recebido nas férias e  ter que ver entrar na minha conta corrente R$ 382,00 (para quem tinha um salário bruto de quase R$6.000.00) eu iria ficar sentada na calçada esmolando em vez de arregaçar as mangas e ir ao menos procurar trabalho?

O Senhor me perguntou Meritíssimo, se eu estava trabalhando e eu lhe respondi que fazia trabalhos eventuais, o que não lhe contei Senhor Juiz, é que continuo em tratamento psiquiátrico e que todas as vezes que volto à minha médica ela me encaminha de volta ao INSS, mas que eu teimosamente resisto em retornar, pois fico sempre na esperança que alguém me chame para trabalhar. Sempre fico pensando e acreditando que a minha cura está no trabalho. Também não lhe contei Senhor juiz, que participei de um concurso onde fiz uma excelente pontuação que me colocaria entre os primeiros colocados, mas que no entanto, fiquei entre os desclassificados porque tive um lapso de memória e a quarta coluna do gabarito com 10 questões das quais acertei 9, simplesmente deixei  a lápis e não pontuei. Só acreditei porque recorri e vi com meus próprios olhos. Desolada com a situação abandonei o tratamento por 4 meses.

Senhor Juiz, eu participei também de um processo seletivo neste município, mas sabe a que conclusão cheguei? Que mesmo classificada, nunca me chamarão para trabalhar. Acho até que foi inocência minha participar. Escutei da própria Coordenadora da minha antiga empresa, poucos dias depois do meu retorno ao trabalho, que a Prefeitura “avisa” quando algum “parceiro” tenta contratar alguém que deu “problema” em outro lugar. Ou seja, existe uma “lista negra” onde os ex funcionários considerados “problema”, figuram. E certamente para eles eu fui um grande problema, ou não teriam feito comigo toda a maldade que fizeram.

Sabe Meritíssimo, quando comecei a lhe escrever esta carta eu estava chorando, no entanto agora, me sinto um pouco mais leve. É por isso que mando os meus Relatos para serem publicados, para me sentir mais leve, e para que outros, lendo a minha história aprendam como se defender, como conseguir provas e até como se portar na frente de um juiz, pra não sair de lá com a mesma sensação de engasgamento que eu saí. Muito embora eu tenha sabido de outras pessoas (vítimas e testemunhas) em outras audiências, e com outros juízes, que se sentiram mais a vontade e menos pressionados do que eu me senti pelo Senhor.

Quem sabe o Senhor também não seja vítima do sistema, quem sabe também o senhor seja pressionado a cumprir sua produção e por isso precise nos fazer responder com SIM e NÃO o que na verdade temos um livro pra dizer? Se for isso Meritíssimo, eu sinto muito, por nós dois.



Assédio Moral Adoece e Mata.

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6 comentários:

  1. Mas é mesmo uma pouca vergonha isso não? não é crime não isso de entrar na rede social da pessoa e ir invadindo assim? Muito louco isso, dá até medo. Esse povo é terrorista, gente do mau mesmo. E essa de botar no processo os concursos que a coitada fez? É proibido procurar trabalho depois que é demitido? sei não, acho que não entendo é mais nada do mundo.
    Boa sorte moça, vou pedir a Deus pra te livrar de tanta ruindade. Que seu ano novo seja NOVO!!

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    1. Acredite caro Anônimo, sua indignação é a de muitos, embora nem todos se manifestem.
      Gratos por sua participação.
      Volte sempre!
      Assediados

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  2. FELIZ 2013,

    MESMO DIANTE DESTE RELATO TEMOS QUE NOS FORTALECER E ACREDITAR EM UM PAÍS MELHOR E REZAR PRA QUE ESTE PROBLEMA DE ASSÉDIO NAS EMPRESAS TENHA UMA PUNIÇÃO MAIOR E ASSIM DIMINUIR AS DENÚNCIAS. PRECISAMOS TRABALHAR EM PAZ !!!!
    A NÃO É FÁCIL, MAS ATÉ JESUS NÃO AGRADOU A TODOS!!!

    AMIGA RECOMEÇE SUA VIDA OU TENTE VIRAR A PÁGINA DESTE "BEST SELLER"

    DEIXE O PROCESSO ROLAR COMO TEM QUE SER MAS NÃO FOQUE MUITO NISSO SENÃO VOCÊ NÃO FICA BEM DE SAÚDE PRA ENFRENTAR NOVOS DESAFIOS, SUA VIDA NÃO ACABOU !! ESTA É SÓ UMA FASE QUUDO TEM E ESTÁ PASSANDO.... TIRE ALGO DE BOM DISSO TUDO QUE ACONTECEU COM VOCÊ, TUDO TEM SEU LADO BOM , CRESÇA COM ESSA EXPERIÊNCIA E QUEM SABE SEJA UMA EMPRESÁRIA VÁ TRABALHAR POR CONTA E TER SEU PRÓPRIO NEGÓCIO NESTE ANODE 2013. O SER HUMANO É FALHO , OS JUÍZES NÃO ESTÃO FORA DISSO, E A JUSTIÇA DOS HOMENS NÃO É TÃO BOA ASSIM , ACREDITA NA JUSTIÇA DE DEUS E O TEMPO DELE NÃO É IGUAL AO NOSSO. ESTA EMPRESA SERÁ PUNIDA ALGUM DIA !! OU ESSAS PESSOAS QUE ESTÃO TE FAZENDO MAL SERÃO DAQUI A ALGUM DIA SERÁ OUTRA VÍTIMA DE ASSÉDIO OU PIOR , DE UM MAL QUALQUER QUE NOSSA INTELIGÊNCIA NÃO ALCANÇA... SÓ DEUS É QUE SABE O CASTIGO QUE MERECEM PODE DEMORAR MAS ACONTECE....QUANDO MENOS ESPERAR "O CASTIGO VEM A CAVALO".
    BJS
    ABRAÇOS

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    1. Caro Anônimo,
      Gratos por suas palavras, afinal, solidariedade é tudo que precisa um assediado.
      Um abraço e volte sempre.
      Assediados

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  3. Caros

    Fiquei,muito triste com o relato ,já fui muitas vezes testemunhas de amigas ,que poderiam ter perdido o certificado se não

    tivesse alguem como eu para lhes dar apoio .Nunca me acovardei perante os(poderosos).Temos um longo caminho pela frente .O

    jeito é não desistir.

    Abraços

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    1. Caro Anônimo,
      O sonho de todos os assediados do mundo é poder contar com pessoas, assim como você, que não se vendam nem se acovardem diante do risco de se opor aos "poderosos".
      Parabéns por sua coragem e empenho em ajudar.
      Um grande abraço
      Assediados

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