"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Relato 31 (Meu irmão)


Imagem Google
Meu nome é “Jota”, e estou aqui para contar a história do meu irmão. Acredito que quando se é o irmão mais velho, para o resto da vida nos sentimos responsáveis e atingidos, quando algo de ruim acontece a um deles. Sou dez anos mais velho que o meu irmão, e me sinto magoado e ofendido por ter que ouvir de um jovem tão cheio de sonhos e planos, o quanto se sente infeliz, intimidado e desestimulado com o seu trabalho.

Meu irmão trabalha a alguns anos em uma das unidades de uma das maiores fusões da indústria de alimentos no Brasil. Neste tempo ele relata ter presenciado irregularidades graves cometidas aos funcionários, em ambientes considerados de médio e alto risco para acidentes.

A maior irregularidade de todas, e que mais tem revoltado e amedrontado, tanto ao meu irmão, quanto aos seus companheiros, é o fato de nunca poderem denunciar os acidentes ocorridos no interior das unidades. E caso surja alguma denuncia de acidente o encarregado e o supervisor do setor, obrigam o funcionário assinar um termo de advertência com base em um tal  “artigo 482” onde reza que o funcionário é o único responsável pelo seu acidente e assume a responsabilidade por negligencia e conduta de risco.

O referido artigo também serve para justificar demissão por justa causa, ou para ameaçá-los disso. Isso faz com que todos trabalhem com medo e nunca denunciem os acidentes ocorridos no interior das unidades, e se alguém esboça alguma reação de denúncia o encarregado reafirma a sua “culpa” pelo acidente, dizendo que ali nunca houve relato de acidentes e que ele é o primeiro.

Se durante o cumprimento da ordem de um encarregado, algum acidente ocorre, o mesmo afirma que o funcionário “sabia do risco”, e inverte a situação unicamente contra a vítima. Inclusive, de tempos em tempos, todos são “obrigados” a assinar termos de que foram treinados para desempenhar determinadas tarefas, treinamentos estes que nunca acontecem.

A tal empresa não possui políticas de redução de acidentes, visto que não reconhece a existência deles. Ela não usa os acidentes que de fato ocorrem como forma de estudar a situação e encontrar meios para reduzir a gravidade ou diminuir a incidência dos mesmos. Em uma situação como esta o funcionário recebe uma ameaça de justa causa.

Passo a descrever algumas situações relatadas a mim, por meu irmão:

No mês passado aconteceram dois acidentes no setor de Almoxarifado, um foi com meu irmão e o outro foi com um de seus colegas. Até ai tudo bem, afinal seres humanos são passíveis de acidentes. Meu irmão registrou o acidente que ocorreu com ele, mas o seu colega não. Muitos, inclusive o meu irmão alertaram o colega para que fizesse isso, mas ele não o fez. Certamente intimidado pela “conversa particular” que foi chamado a ter com o encarregado do setor horas depois. O buchicho do acidente se espalhou pelo chão da fábrica e mesmo tendo chegado ao conhecimento do SESMT (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho), nada aconteceu e ninguém foi até lá fazer uma perícia, muito menos saber se o funcionário estava bem, o único efeito disso foi ter ambos os acidentes divulgados nas outras unidades.

O que me deixa inconformado, é pensar que o colega do meu irmão poderia estar morto hoje, pois ao obedecer a uma ordem do encarregado para andar em cima de uma parede acima do forro de PVC e verifica a bóia de uma caixa d’água, ele caiu de uma altura de aproximadamente 5 metros e só não foi mais grave porque ele conseguiu se segurar com apenas um dos braços, e meu irmão estava no local subiu em uma mesa e apoiou os pés dele, com isso ele conseguiu subir novamente e depois descer em segurança.

Por ironia do destino no dia seguinte, o meu irmão se feriu com uma lâmina que estava em uma das paleteiras do almoxarifado. Ele foi mandado pelo encarregado à enfermaria para um “curativo”, entretanto ao ser examinado ele foi levado para o pronto socorro da cidade vizinha e teve seu braço suturado. Meu irmão relatou que teve uma perfuração profunda no seu cotovelo porque estava de costas para o local onde havia uma lâmina mal acondicionada, e tentando consertar uma paleteiras hidráulica, que para ser movida, precisa ser bombeada para frente e para traz e que apresentava um defeito e ameaçava cair, teve seu cotovelo atingido.

Quatro dias depois ele foi chamado para assinar uma advertência que o culpava de negligência pelo seu acidente. Ao ler essa advertência meu irmão ficou indignado e logo quis saber por que tinha que assinar aquilo, mas para sua surpresa o supervisor lhe disse que quem redigira a advertência fora seu encarregado.

Durante os quatro dias o tal encarregado fizera um teatrinho na tentava de mostrar aos colegas do meu irmão como ele causara o próprio acidente. Alegava que ele estaria correndo com uma paleteira e não conseguira parar, e por isso se ferira. Chegou a levantar a hipótese de que meu irmão ao cumprir uma ordem dele, dias antes, de fazer limpeza nas prateleiras, movimentara as lâminas de lugar e que isso poderia ter causado ferimentos graves em outros colegas, visto que as lâminas se encontravam na altura do peito, podendo atingir pontos vitais como pulmões, etc.

Sabendo que lá havia câmera e se sentindo forçado a assinar a advertência, meu irmão perguntou ao encarregado na presença do supervisor onde estariam as imagens que comprovariam que dias antes ele fizera uma limpeza na prateleira e movimentara a ponta da lâmina para fora da área de segurança fazendo com que ele se ferisse e expondo os outros colegas a riscos. A resposta dada pelo encarregado foi que as câmeras não funcionavam.

Surpreso, no dia seguinte, sua primeira missão foi ir até a portaria e perguntar aos vigias se a câmeras do almoxarifado estariam funcionando. A resposta foi que depois de uma reforma que houve por lá, as imagens não eram mais monitoras ali e “talvez” estivessem sendo feitas em outra central interna.

Infelizmente no dia do acidente ao voltar ao trabalho, após ser encaminhado ao PS, ao retornar quase ao final do seu turno, o local do acidente já havia sido descaracterizado, impossibilitando uma avaliação adequada da situação.

Meu irmão não queria assinar a advertência, não que ele fosse contra a advertência em si, mais pela forma mentirosa e recheada de suposições, e o mais absurdo, fora redigida pelo encarregado passando-se por ele, que assim, responsabilizava-se não só pelo seu próprio acidente, mas por expôs seus colegas a risco. E ainda seguido do artigo 482, sobre os deveres que o funcionário é obrigado a cumprir.

Na sala do supervisor da área, e na presença do encarregado meu irmão foi acusado de estar sofrendo acidentes “o tempo todo” dentro da empresa e o artigo 482 foi usado verbalmente como forma de intimidá-lo, dizendo que se ele sofrer “acidente demais” poderá levar uma justa causa.

Ele alegou que em quase 5 anos de empresa sofrera apenas dois acidentes e que um deles ocorrera fora do seu ambiente de trabalho, já que estava substituindo um colega em outro setor, para o qual inclusive não fora treinado.  Nesse acidente ele sofreu um escorregão ao subir no caminhão e caiu de costas no chão de uma altura de quase 1 metro, acidente este causado por haver pisado em ambiente molhado no local da entrega.  Após registrar a ocorrência ele ainda teve que ouvir do encarregado que ele “caiu de costas porque quis”.

Diante daquela situação, meu irmão sentiu-se impelido a dizer que seu colega de trabalho havia sofrido um acidente um dia antes, e que seu encarregado sabia, pois fora ele mesmo que dera a ordem para o funcionário subir na parede e verificar a caixa d’água, e que após o acidente o encarregado teve uma conversa particular com o acidentado e o colega não registrara o ocorrido. Por incrível que pareça ele negou que havia dado a ordem.

Meu irmão já expressara na presença de varias testemunhas que o encarregado não queria que fossem feitos registrados dos acidentes, além de ser ele o responsável pelo acidente de seu colega de trabalho, pois havia dado a ordem para o funcionário verificar a caixa d’água, e esta não fora a primeira vez, já que era comum a exposição de funcionários a situações de risco.

O único argumento do encarregado foi dizer que meu irmão não sabia o que estava falando e que cada caso era um caso. E ainda quis imputar-lhe novos riscos à segurança, acusando-o da colocação de borrachas de dinheiro nos refletores que poderiam cair e provocar novos acidentes. Meu irmão afirma que de fato colocou borrachas em lugares onde deveria haver parafusos, pois na verdade já se encontravam presas com borrachas, e todas as vezes que lhe foi solicitado fazer limpeza nas mesmas, ele apenas as substituiu. E se o encarregado sabia da existência delas a ponto de acusar o meu irmão, porque não providenciara a manutenção adequada dos mesmos?

A desculpa do encarregado é que só queria “ajudar” os trabalhares não permitindo que eles registrassem seus acidentes, isso o próprio encarregado disse para meu irmão.

A única verdade da história era o fato do encarregado estar expondo todos, a riscos de acidente. Afinal os tais refletores estão a mais de 7 metros de altura. Outro relato assustador do meu irmão, é que uma vez ele flagrou o encarregado elevado outro colega no garfo da empilhadeira sem a gaiola de proteção, que por sinal não é tão segura assim, visto que já aconteceu de a gaiola se desprender da empilhadeira.

O  que ficou evidente para meu irmão nesse momento, era que por ter cumprido ordens de limpar os refletores e as prateleiras, bem como o fato do seu colega ter sofrido um queda que quase acabou com a sua vida, era o fato de que seu encarregado dava ordens que poderiam de fato, resultar em acidentes, mas mesmo assim, poderiam ser culpados, já que a responsabilidade pelos acidentes é sempre imputada a eles.

Muitos destes acidentes acontecem em momentos de “desvio de função", e sempre usando a alegação de que eles devem ser "proativos" e que devem ser mais produtivos, empurra-os para o desempenho de diversas tarefas que não correspondem aos seus cargos e funções, deixando-os mais expostos a erros e acidentes.

Muitos funcionários trabalham descontentes e fazem suas conferências apenas por amostragem, refletindo o desinteresse em trabalha bem. Agora fiquei sabendo que meu irmão foi acusado de “improdutividade” e de ser um “morto” por esta trabalhando usando métodos criteriosos, já que não usa o método de “amostragem” visto que este não apresenta garantias de confiabilidade. Isto para mim é inconcebível, já que a acusação feita ao meu irmão é a meta que deveria se esperar de cada funcionário. Ou seja, a acusação é de que meu irmão é quem apresenta menos “divergências” nas suas conferências, ele não dá prejuízo à empresa e está sendo questionado por isso?

Trabalhar machucado é fato, quando o funcionário ainda nem se curou de algum acidente e se vê obrigado a voltar para garantir o seu sustento. Muitos retornam lesionados e queixosos da situação e do desamparo.

Após essa sucessão de fatos meu irmão procurou conversar com seus colegas de trabalho e descobriu que vários deles já haviam assinado advertências como aquela, por outros motivos, como por exemplo, em pequenos atrasos nos horários de trabalho, o que é muito estranho, já que os mesmos trabalham com compensação de horas.

Outro fato inexplicável, é que ninguém possui copias de seus contratos de trabalhos, e quando meu irmão procurou o dele, já que fora mudado de função, lhe disseram que o antigo que ele recebera há alguns anos atrás quando fora contratado para o setor de produção ainda era válido.

Quanto a CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) ou SESMT pelo que ele me conta, simplesmente não funciona.

Reivindicações feitas pelos funcionários são respondidas pelos encarregados e supervisores de forma desdenhosa, com: “Ninguém vai receber salário melhor, se sair daqui”, ou “Vai se virar, se vocês quiserem vocês é que tem que correr atrás”, ou quando em desvio de função: "Você não pode ter um salário maior por que você foi contratado para ser motorista de empilhadeira e não almoxarife", e por ai vai. É triste saber que trabalhadores, no desempenho de suas funções estão o tempo todo sendo chamados de moleques, improdutivos e incompetentes.

Os mais jovens não ficam ali por muito tempo. Alguns conseguem estudar e são promovidos para outros setores ou simplesmente pedem demissão, e os que ficam por anos ali, trabalham com medo e evitam registrar seus acidentes como foi o caso mencionado.

Dá pra confiar em seres humanos que trabalham com medo? Uns desconfiam dos outros, afinal são pais de família que necessitam dos seus empregos para alimentar seus filhos. Como pedir que pessoas nesse estado de medo sejam testemunhas de alguém ou sobre alguma coisa?

Recentemente um colega que já não trabalha mais lá, ligou para meu irmão solicitando que ele fosse sua testemunha em um processo que está movendo contra a empresa. Meu irmão diz estar receoso em ajudá-lo por medo de sofrer algum tipo de perseguição, mas mesmo assim esta tentando ajudá-lo entrando em contato com outros que já saíram da empresa.

Fico abismado com as formas absurdas de desrespeito e os abusos cometidos contra outros semelhantes em situação de assédio moral no trabalho e fico feliz com a forma que vocês abordam o tema com injeções de ânimo, quando relatam ações onde um assediado sai vencedor e a forma como incentivam pessoas que estão sendo assediadas a contar os seus dramas. Espero que a história do meu irmão sirva de exemplo para que outros se manifestem e compreendam que apenas na união e solidariedade pode haver vitória.

Depois dessa creio que aprendemos uma lição importante que é: em tempos modernos onde o computador é regra e a internet é a porta do mundo, temos que nos informar também sobre as empresas onde estamos entrando para trabalhar se não quisermos ser a próxima vitima.

Assédio Moral Adoece e Mata.
Denuncie!

2 comentários:

  1. SINCERAMENTE NÃO AGUENTARIA ISSO POR MUITO EMPO, POIS NÃO TEM EMPREGO NO MUNDO QUE ME FAÇA CORRER TANTOS RISCOS........NÃO VALE A PENA!!!!
    o RISCO QUEM CORRE SÃO OS FUNCIONÁRIOS MESMOS, DEPOIS MORRE E NO OUTRO DIA TEM OUTRO NO LUGAR E NINGUÉM SE IMPORTA , O SOFRIMENTO É APENAS DA FAMÍLIA. aLGUÉM TEM QUE FAZER ALGUMA COISA POR ELES . FAZER GREVE , PARAR TUDO, ALGUMA COISA TEM QUE FAZER GENTE!!!!!!!!

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    1. Caro Anônimo,
      A necessidade de manter o emprego, pelos mais diversos motivos, é o que faz com que muitos suportem absurdos como esses.
      De fato os riscos são muitos e é impossível não nos indignarmos com tamanho desrespeito ao trabalhador.
      Gratos por sua participação.
      Volte sempre!
      Assediados

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