"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Relato 28 (MINHA MÃE É UMA “ASSEDIADORA”)



Em 2002, pedi exoneração da Guarda Civil Municipal de uma das cidades do Grande ABCD Paulista, por não concordar com “fatos e feitos” dentro da corporação. Logo, mesmo tendo estabilidade, não me sujeitaria a nenhuma estratégia mal intencionada. E do tão falado: “PEDE PRA SAIR!”, SAÍ MESMO!

Como eu já tinha pouco mais de 30 anos, o mercado de trabalho já não era mais tão generoso comigo. Mesmo assim não me abati e fui fazer um curso de manicure. Nunca trabalhara com isso antes, mas resolvi arriscar. Para muitos, trocar o cargo que eu tinha na guarda, pelo de manicure era uma derrota, mas não liguei para as opiniões alheias e fiz o curso no SENAC.

Minha mãe tem um salão de beleza e logo que terminei o curso fui trabalhar lá.  Ela contratara também outa manicure, então trabalhávamos nós duas como manicure e minha mãe como cabeleireira.

Imagem Google
No início foi muito difícil, além de ser uma área nova para mim, as pessoas quando sabiam da minha decisão, não compreendiam e não se conformavam com a troca que eu fizera, inclusive minha mãe, que não perdia tempo em me humilhar mesmo na presença de clientes.

As pessoas têm muitos preconceitos e consideravam aquele, um trabalho inferior, em relação ao meu antigo posto. No entanto, me mantive firme fazendo meu trabalho, e muitas vezes tentava explicar para as pessoas que me julgavam,  que por dinheiro algum eu me sujeitaria a fazer coisas erradas ou a fazer mal para as pessoas. Também não desejava passar o resto da minha vida em um ambiente ruim e que estava fazendo mal para minha saúde, só porque era concursada.

Bem lá no fundo eu pensava: 'Se passei em um concurso posso muito bem passar em outro'.  Mas no fim das contas, não quis prestar novo concurso, e resolvi que mudaria totalmente de ramo, afinal, existem tantas coisas pra se fazer nessa vida!

Minha mãe é uma pessoa de personalidade muito forte, só eu sei! De verdade, uma pessoa muito difícil de lidar e conviver. Do tipo que só está satisfeita se todos fizerem tudo exatamente como ela quer. 

Como a nossa empregadora, era uma pessoa assim, tão difícil de lidar, nos tornamos bastante amigas e até confidentes. Era com ela que eu me desabafava e ela comigo.  Eu ouvia as reclamações da manicure, que sempre se queixava do comportamento da minha mãe e da forma como a tratava. 

Realmente minha mãe falava e fazia coisas pra ela, com as quais eu não concordava. Dizia por exemplo: “Você é muito devagar”, “Você não sabe falar direito” (menosprezando um problema de saúde que ela tinha nas cordas vocais), “Você não vai arrumar emprego, desse jeito, só eu pra te aguentar”.  Sem falar das vezes que a colocava para fazer serviços externos para os quais não fora contratada, e sem remuneração extra para isso, e das muitas vezes que marcava cliente na hora do seu almoço, deixando-a com fome por muitas horas.

Eu ficava "entre a cruz e a espada”. De um lado a empregadora, minha mãe, do outro a empregada injustiçada e vítima, que agora era minha amiga.

Eu tentava amenizar o clima entre as duas, mas eu também sofria com aquela situação, sem falar da forma acintosa que também eu era tratada por minha mãe na presença de clientes, levando muitos deles, a não quererem ser atendidos por mim.

Varias vezes pensei em procurar outro emprego, mas de certa forma, eu sentia pena de deixar a minha mãe sozinha. Afinal ela estava tranquila comigo lá, porque eu era “de confiança”, era da família e ela podia sair e chegar na hora que quisesse porque sabia que eu tomaria conta de tudo. 

Eu também pensava na minha amiga, porque se eu saísse, ela ficaria sozinha sofrendo as agressões da minha mãe. Diante de tudo isso, optava sempre por continuar.

Passado algum tempo, a manicure me confidenciou que pediria demissão e colocaria minha mãe "no pau”.  Ela ia processar minha mãe.

Eu levei um susto, mas pra falar a verdade não fiquei de todo surpresa, sabia que ela estava no seu direito e a aconselhei que procurasse um advogado e conversasse com ele sobre suas intenções. Para ser sincera, até eu mesma algumas vezes pensei em processá-la, tamanho o absurdo na forma de nos tratar, mas logo o pensamento se dissipava, afinal, como a sociedade encararia uma filha que processa a própria mãe que lhe dá guarida?

Mas para mim uma coisa sempre foi clara. Eu fico do lado da justiça, seja mãe ou não, justiça seja feita!

A manicure pediu demissão e foi embora. Não nos vimos mais e eu até pensei que ela não cumpriria a ameaça de processo e nunca comentei nada com a minha mãe.

Só que depois de alguns meses a notificação do processo chegou e o drama estava instalado. 

Durante o processo, minha mãe descobriu que meu pai, contador do salão, nunca depositara o FGTS durante um ano de trabalho da manicure. Desastre total!

Cada vez ficava mais claro para mim que algo muito errado acontecia nos negócios da minha família.

No decorrer do processo minha mãe sofreu muito. Ficava nervosa, com a pressão alta e tudo mais, pois a manicure alegou que sofria “ASSÉDIO MORAL NO TRABALHO”, e queria indenização.

Eu também sofri muito nesse período, porque ao mesmo tempo em que eu queria justiça em favor da manicure, também ficava mal em ver meus pais naquela situação, sofrendo por não terem dinheiro para saldar tamanha dívida, mas certamente teriam que arcar com suas responsabilidades.

Para isso tiveram que fazer algo que odiavam: ‘pedir favor’. E foi pedindo dinheiro emprestado a parentes que os meus pais conseguiram quitar aquela dívida. 

Bom, a justiça fora feita, eles pagaram o que deviam, e aquele seria o fim daquela história. Pelo menos foi o que pensei na época.

Mas, que nada! Hoje, muitos anos depois, chega um oficial de justiça na casa dos meus pais, alegando que iriam "embargar" a casa deles, porque eles não pagaram a manicure.

Como assim?  Meu pai depositou tudo direitinho, tenho certeza disso, pois acompanhei a situação de perto. Mas vai explicar isso para o oficial de justiça. Obviamente que o constrangimento foi inevitável.

Imagino que vocês nem consigam imaginar o que aconteceu.

Houve um acordo entre as partes e meu pai depositou o combinado na conta da advogada da manicure. A advogada dos meus pais não fez mais contato, e pela inexperiência deles, acreditaram que tudo estava resolvido. Só que a tal advogada, não deu a continuidade necessária para o fim do processo na justiça. Então para a justiça, ficou como se os meus pais não tivessem quitado a dívida com a manicure. Com isso a dívida corria por todos esses anos, como se não tivesse sido paga, com juros e tudo mais.

Resumindo meus pais estão estressados, pois terão que pagar a dívida novamente. Eu estou super preocupada com eles, pois não moramos mais na mesma cidade e não posso acompanhar a situação de perto. Fico pensando neles sozinhos, passando por isso e de certa forma ainda me culpo pelo que aconteceu. Mas na verdade, sei que a única culpara por tudo isso, é a minha mãe, por não ter sabido dar a uma funcionária, o devido valor e respeito.

Isso também deixou uma coisa muito clara para mim, que é a importância da escolha de bons advogados.

Que isso sirva de consolo aos assediados, vejam só, os meus pais estão tendo dor de cabeça até hoje. O meu pai por não terem cumprido com a obrigação legal com a funcionária e minha mãe por ter sido uma assediadora.

A lei é dura para os empregadores que não fazem a coisa certa e acredito que precise ser mais dura ainda com os assediadores. A justiça pode até tardar, mas esperamos que não falhe, doa a quem doer!

Afinal de contas, ninguém merece ser maltratado no trabalho.


Assédio Moral Adoece e Mata.
Denuncie!

8 comentários:

  1. Que mãe essa! Filha corajosa! Parabéns!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. De fato, coragem e imparcialidade.
      Virtudes a serem estimuladas.
      Gratos por seu comentário.
      Assediados

      Excluir
  2. É verdade ! acho que muitos filhos de assediadores não tem essa coragem você soube separar bem as coisas, nem todo mundo é assim, sua postura deve servir de exemplo pois se com sua mãe você agiu assim, então porque os colegas de trabaho também não colaboram com os outros que sofrem assédio na empresa em que trabalham? muitos sabem e são espectadores dessa humihação e se calam diante dos fatos , e o assediado não consegue provar na justiça o que aconteceu com eles, pois não tem a colaboração desses espectadores e cúmplices também. É como se alguém visse o outro ser atacado, agredido e você só assistindo a cena sem tomar nenhum partido a favor da vítima.
    Parabéns a você menina corajosa e com alma de justiça e verdade , nunca tinha ouvido uma história dessas. que sirva de lição. Bom Natal pra você.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Esta é a mais pura verdade, caro Anônimo.
      O sofrimento de um assediado seria diminuído enormemente se pudesse contar com seus colegas de trabalho.
      Esperamos que daqui a algum tempo, a compreensão dos males causados pelo assédio moral no trabalho seja tanto, que ninguém mais consiga ser imparcial ou conivente.
      De fato, a nossa relatora tem alma bastante nobre, capaz de discernir entre a justiça e a falta dela, mesmo sendo sua mãe a assediadora.
      Gratos por seu comentário.
      Assediados

      Excluir
  3. Que boa mensagem de Natal a todos nós, pois acima de tudo devemos ficar ao lado da verdade , é uma virtude do ser humano , agir assim, hoje em dia as pessoas por causa de dinheiro faz qualquer coisa, passa por cima de tudo e todos e são São coniventes no trabalho e em qualquer lugar sempre pensam em sí mesmas e mal sabe elas que podem ser a próxima vítima.

    Que bom saber que existe pessoas assim como você.Parabéns e pela coragem de contar para nós esse relato tão pessoal.
    obrigado e Feliz natal e ótimo 2013

    ResponderExcluir
  4. Que situação difícil você passou entre dois lados totalmente opostos e que difícil decisão ficar entre um familiar ou um simples empregado que nem parente seu é!!! difícil isso de se ver hoje em dia. Se todos os parentes dos empregadores tivessem essa postura quem sabe diminuiria os relatos de assédio moral no trabalho.
    Fico me perguntando será que os assediadores tratam seus familiares como tratam seus empregados?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Caro Anônimo,
      Infelizmente posturas coniventes são o que mais vemos e ouvimos por aqui.
      Embora o nosso assunto seja o assédio moral no trabalho, ele pode estar presente em qualquer outro lugar. O assediador, que por natureza, tem prazer no sofrimento alheio, certamente pode manifestar os mesmos comportamentos com familiares.
      Gratos pelo comentário.
      Assediados

      Excluir