"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Relato 26 (A Cereja do Bolo)



Pensaram que o Assediados mudou o foco e agora virou um blog culinário?
Infelizmente não, o que estamos falando aqui é da cereja no bolo do assédio moral.
Com vocês mais um capítulo da triste história da Sra. X, vítima do desrespeito e da falta de escrúpulos com que são tratados muitos profissionais no nosso país.

Estou aqui mais uma vez para continuar contando a minha história.
Faz tempo que tudo começou e às vezes tenho a sensação de que nunca terá fim.

É segunda-feira, primeiro dia de trabalho depois da carta que mandei à Coordenação da empresa dando conta da forma como as coisas vêm acontecendo. Continuo em acompanhamento psiquiátrico, fazendo uso de medicações controladas e em dois meses perdi oito kg.

Sinto-me triste, é muito difícil passar por tudo que estou passando, já que as pessoas têm medo de falar comigo, pois foram alertadas pela chefe e sua cupincha Bajuladora que estou gravando as conversas, que sou “perigosa”, e que as pessoas devem ter cuidado comigo. Não tenho mais a senha dos computadores e quando desconfiam que eu descobri a tal senha, é uma correria geral para  que a senha seja trocada. Tento viver como se não estivesse percebendo ou como se não soubesse o que está acontecendo, mas o meu isolamento é cortante.

Estou escalada para atendimento à demanda espontânea durante toda a manhã. Recebo a visita na sala de consulta da auxiliar da gerente me pedindo que vá até sua sala, pois tem um recado para mim. Imagino que seja por causa da minha carta a Coordenadora e até me sinto esperançosa, pois muitas coisas que não escrevi na carta, poderei falar caso seja questionada.

Até o momento uma coisa que me parece estranha é que ninguém, de nenhuma Supervisão de Saúde ou Ouvidoria, me chamou para conversar, para questionar a denúncia do meu marido e nenhum retorno foi dado aos funcionários com relação à apuração feita. Todos comentam as escondidas que a apuração parece ter sido apenas uma farsa, já que nada mudou, a não ser que a chefe está mais dissimulada do que nunca e não grita mais a vista de todos como antes, mas junto aos que ela acredita serem de sua confiança, chama-me de “desgraçada” entre outros adjetivos.

Inclusive algum tempo após a denúncia do meu marido, houve outra denúncia à Ouvidoria de Saúde do Município, por parte de uma paciente gestante, dando conta do constrangimento sofrido pela mesma, que quase caíra da maca com o susto que levara quando a tal gerente entrara intempestivamente na sala e gritava com um colega enfermeiro pedindo explicações para os números de sua produção. 

Eu tinha uma amiga no RH da unidade que não se conformava por ver tantos maus tratos e ofensas desferidas pela gerente a várias pessoas e me contava indignada os absurdos que presenciava, e inclusive escrevera uma carta anonimamente e descaracterizada de sua pessoa na época da tal apuração, já que não confiava na forma como as coisas estavam sendo conduzidas, para fazê-lo nominalmente.

Assim que há uma pausa no atendimento vou até o RH para saber qual é o recado. Ele me orienta a estar às 14:00h na Nova Sede da Empresa pois a Sra. Coordenadora quer falar comigo. Termino meus atendimentos e não tenho tempo sequer para almoçar, não quero me atrasar, por isso saio imediatamente.

Quando chego lá, sou recebida por uma mocinha que me leva até uma sala vazia e me deixa esperando. Passado algum tempo chega um trio na sala. O gerente do RH, uma Supervisora e outro funcionário da gerência. Não faço ideia do assunto, mas como a Coordenadora não chega com eles, imagino que como reafirmei as mesmas denúncias ao chefe do RH antes do meu retorno, ele esteja querendo apurar melhor os fatos e trouxera para isso mais gente para lhe ajudar.

Ele então começa a falar:
- Nós chamamos você aqui, porque diante dos últimos acontecimentos, nós estamos demitindo você por JUSTA CAUSA.

Aquela frase para mim não fazia nenhum sentido, era como se tivesse sendo falada a outra pessoa. Eu não roubara ninguém, não agredira ninguém, não fizera nada daquelas coisas terríveis que se pensa quando alguém é demitido por Justa Causa.

Pergunto: - “Eu?”
Ele apenas responde: - “Sim”.
Pergunto: -“Mas porque estou sendo demitida por JUSTA CAUSA?”
A sua resposta é: “Você sabe o porquê”.
Respondo que não sei e volto a perguntar o porquê.
Ele diz que não precisa me falar o que fiz.
Respondo que acho que tenho o direito de saber do que estou sendo acusada.
Ele então diz que estou denegrindo a imagem da empresa em um blog.
Pergunto se no “tal blog” tem meu nome ou o nome da empresa. Ele dá de ombros e diz apenas que há relatos de reuniões.
Ele então estende o papel da demissão para que eu assine. Pergunto se posso não assinar. Ele responde que é um direito meu, mas que eu só posso levar o papel se eu assinar e me estende o mesmo para que eu leia. Como quero a cópia do documento assino na lateral do documento.
Em desacordo
Sra. X
Agradeço e saio da sala.

Estou em estado de choque com tamanho absurdo. Graças a Deus não derramei uma lágrima sequer na frente deles. Na saída, a mesma mocinha que me recebeu me orienta quanto à devolução de uniformes e exame médico demissional.

Entro no meu carro em estado de choque e só ali ligo para o meu marido e desabo em prantos.

Depois de mais calma resolvo ir até a minha unidade pegar os meus pertences, pois depois de tudo que sofri não tenho desejo algum de voltar a aquele lugar. O meu sofrimento psicológico é grande demais, a sensação de perda, de desamparo, descrédito e descaso são indescritíveis.

Era evidente que eu me tornara uma referência dentro da empresa e uma luz para os outros de que era possível denunciar o assédio moral sofrido e sobreviver. Mas como eu tinha estabilidade de um ano, em função da minha doença ter sido relacionada ao trabalho pelo INSS, eu me tornara uma grande pedra no sapato deles e a única forma de se livrar de mim era me descartar forjando uma justa causa, da forma mais vil e desonesta possível e assim mostrar aos outros como é que se trata alguém que tem a ousadia de denunciar alguma coisa errada dentro da empresa.

E como dissera o gerente do RH ao fim da conversa: “o ônus da prova é nosso”. Ou seja, eles destoem a sua vida, sua saúde, seus sonhos e depois, quando você for capaz de reunir forças para ir à justiça e esperam por meses sem fim, para levar aquela situação a julgamento, tudo terá caído no esquecimento, a vida de todos estará seguindo em suas rotinas e eles poderão sair ilesos daquela situação, como se nada tivessem feito.

Sinto-me usada, abusada e descartada. Como eles puderam ser capazes de fazer aquilo comigo. Mas aquela era sem dúvida a cereja no bolo do assédio moral que eu vinha sofrendo a tanto tempo no meu trabalho. As pessoas que poderiam ter cuidado de mim, se responsabilizado por mim e me protegido daquela víbora, optaram por acobertá-la descaradamente transferindo-a de unidade no dia seguinte à minha demissão, pois apenas assim poderiam responder à Ouvidoria por tantas queixas no nome da mesma pessoa.

E ainda assim a vida tem que continuar...

4 comentários:

  1. BO TARDE,
    OLHA PASSEI POR ALGO PARECIDO, DENUNCIEI E A OUVIDORIA NÃO ME OUVIU LOGO, SAÍ TAMBÉM DA EMPRESA COM SEQUELAS, ESTOU PROCESSANDO A EMPRESA LÓGICAMENTE E ESTOU TENTANDO SEGUIR MINHA VIDA SEM FOCAR MUITO O PROCESSO POIS COMO VOCE DISSE DEMORA ANOS PRA RESOLVER ALGO QUE É TÃO ÓBVIO,MAS NOSSA LEI É MOROSA MESMO. VOCÊ DEVE FAZER O MESMO, E PENSA QUE FOI MELHOR ASSIM POIS AGORA QUE VOCÊ ESTÁ FORA DA EMPRESA, PODE PENSAR E VIVER MELHOR PODE ACREDITAR. VOCÊ PODERIA SOFRER E MORRER LÁ DENTRO E IRIAM TE DESCARTAR/OCULTAR SEU CADÁVER. E A VIDA CONTINUARIA E SÓ VOCÊ SERIA PREJUDICADA. ENTÃO PENSE QUE FOI BOM ASSIM, NÃO SEI COMO AGUENTOU TANTO TEMPO ISSO. MAS PENSE EM FAZER OUTRA COISA TRABALHE COMO AUTÔNOMA, MUDE............
    ANTES TARDE DO QUE NUNCA.
    BJS
    DEUS ESTÁ A SEU LADO E VEJA O LADO POSITIVO DESSA SITUAÇÃO. TODA MOEDA TEM DOIS LADOS!!!!!!!

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    1. Caro Anônimo, a vida de um assediado não é nada fácil. São muitas lutas, tem que enfrentar um leão por dia.
      Gratos por seus bons conselhos.
      Um abraço
      Assediados

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  2. Que difícil sua situação. Conheço outras pessoas demitidas por justa causa. Uma pena que para as empresas isto fique barato, um crime que para elas compensa. A própria demissão por justa causa quando é com toda a maldade já é um ato que requer indenização por dano moral, já que, se não era devida, então causou muito dano emocional físico e material para o demitido e por quase todo o resto de sua vida.Não é preciso ser juiz ou médico para saber que uma demissão por justa causa causa é um rolo compressor sobre um empregado.Não dar uma punição severa para a empresa é incentivar o crime, os assassinatos.
    Espero que se recupere e lute por seus direitos embora as leis estejam a favor de quem tem mais dinheiro e o judiciário ainda não saiba tratar estes casos. Tudo vira apenas mais um caso de mais uma pessoa que vai para uma vala comum. Força Sra X e não desista para não sentir vergonha no futuro. Procure se tratar para ter forças emocionais e i para enfrentar el monstro.E acredite: há empresas que tratam bem seus empregados, nem todo empregador ou gerente é desumano.

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    1. Realmente é muito difícil constatar que as empresas podem dispor da vida dos seus funcionários de uma forma tão vil e desonesta. Certamente o efeito disso na vida de uma pessoa é devastador.
      Gratos por suas palavras de força e encorajamento à Sra. X, que certamente precisará de muita força para continuar.
      Um abraço e volte sempre!
      Assediados

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