"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Relato 25 (O Preço de uma Decisão) 4/4

Parte 4


Pedi demissão no mesmo mês por não suportar mais tantos abusos e iniciei o cumprimento do aviso prévio. 

No penúltimo dia do aviso prévio os meus patrões me chamaram no escritório. Disseram que eu era boa funcionária, que aquilo tudo fora uma “fase" e que passara, que eles queriam meu bem, e tinham uma proposta a me fazer.


Eles me dariam férias para eu "descansar", mas além da proposta, tinha um “favor”.  As férias seriam apenas no papel, mas eu continuaria a trabalhar normalmente, porque eles iriam demitir outra podóloga, e o Instituto não poderia ficar desfalcado. Eu ficaria para dar “suporte técnico”. Propuseram também que para todos os efeitos ficasse como se eu tivesse vendido 10 dias das minhas férias.


Mais uma vez eu cedi às suas propostas. Assinei as férias, mas não usufruí, continuei trabalhando.

Nesse período não me foi permitido assinar a folha de ponto, apenas nos 10 dias “vendidos”. O pagamento? No holerite constava pagamento de R$3.800,00, (das férias) mas na verdade só recebi R$1.900,00. Como sempre, com chegue nominal da empresa que eu sacava na boca do caixa no mesmo Centro Comercial. Quanto ao pagamento do meu trabalho nas “ferias”, não houve pagamento algum. Pagaram-me apenas a comissão de 30% dos 10 dias “vendidos”.

Foram descontadas algumas dívidas e mesmo assim, ainda fiquei devendo R$800,00. Insisti muito que descontassem logo toda a minha dívida, pois não queria dever mais.

Eles se recusaram a receber, alegando que era para eu pagar depois e para não me preocupar. Disseram que em alguns meses haveriam mudanças na forma de registrar os funcionários e que eu poderia ganhar o dobro do salário e que estavam aguardando apenas acertar alguns “detalhes” com o contador, o advogado e Sindicato. O Sr. "P" chegou a dizer que estava cansado de tantos processos trabalhistas, por isso ele estava estudando uma forma para não ser processado.

Durante o período que passei trabalhando naquele Instituto, cheguei a pedir demissão umas três vezes, mas sem sucesso, pois eles falavam que era besteira minha. Diziam que eu não conseguiria nenhum lugar para ganhar “tão bem assim”, e sempre vinham com alguma proposta ou alguma história para me convencer.

Um deles era espírita e me dizia que tinha um espírito que falava com ele, que lhe “soprava no ouvido”, e este espírito ou mentor mandava mensagens para mim. Por exemplo: que não era para eu voltar para São Paulo, e que eu tinha que me distanciar da minha mãe e da minha família.


Eu me sentia enfraquecida psicologicamente e não tinha mais força para lutar nem argumentar sobre tudo aquilo, afinal era a religião dele, algo que não dá para se discutir.

Desde março os problemas de saúde física também começaram a surgir. Sentia fortes dores nos braços, pescoço, ombro, cansaço, desânimo, dores de cabeça constante, perda de peso, não sentia vontade alguma de comer e comecei a ir com mais frequência aos médicos. Quando me davam atestado eu os entregava na empresa, mesmo sabendo que não iria receber pagamento algum, já que mesmo com carteira assinada, eu só ganhava os 30% de comissão pelos serviços prestados.

Em junho avisei a Sra. "P" para diminuir a minha quantidade de atendimentos diários, pois eu não aguentava mais de tanta dor nos braços. Pedi que não agendassem para mim procedimentos longos (alguns atendimentos chegavam a durar 2 horas), pois eu não conseguiria  fazê-los ao menos por enquanto, até que eu passasse por exames que já estavam agendados pelo Posto de Saúde no Hospital Público para o  mês seguinte.

Todas as recepcionistas foram avisadas, pois os podólogos não tinham acesso à agenda eletrônica, muito menos a contato pessoal com clientes fora dali (sujeito a punição, com advertência e até suspensão), pois o cliente era do Instituto e não do podólogo. Pedi que quando algum cliente insistisse em passar comigo que fossem avisados que eu não podia atendê-los temporariamente, em procedimentos longos, devido a problema de saúde.

De nada adiantou, pois mesmo assim agendaram comigo um procedimento de 2 horas o qual me recusei a fazer. Fui orientada atender a cliente e “fazer o que desse”, pois a cliente era “minha”, o que para mim era inadmissível. Não trabalho de qualquer jeito, prefiro não atender, a iniciar um procedimento que sabidamente tinha consciência de que não teria condição de executar adequadamente, podendo causar à cliente um problema por imprudência e até imperícia.

Senti-me mais uma vez usada e desrespeitada como profissional e como ser humano. Considerei aquilo também um desrespeito à cliente que estaria pagando por um procedimento quase R$ 100,00 e merecia um atendimento de qualidade. E mesmo que fosse R$ 1,00 lhe devíamos respeito. Mas a sensação era de que os proprietários só pensavam nos lucros, e uma das suas máquinas de fazer dinheiro, era eu, doente ou não.

Indignada fui até o Sr. "P" e disse que não dava mais, e que eu iria embora. A reação dele foi: -“De novo? amanhã você conversa com a Sra. “P”, você deve ter arrumado outro emprego”. Respondi que não, que estava era cansada mesmo.

Sentia-me exaurida, sugada, sem forças. Sabia que precisava de ajuda, pois minha saúde física e emocional estava aos pedaços, mas onde procurar, e onde encontrar ajuda?

No dia seguinte não voltei a empresa como havia sido orientada pelo dono. Sabia que se voltasse lá, mais uma vez a história se repetiria. Eles viriam com uma proposta, um pedido de favor, uma mensagem do além ou outra coisa qualquer, e a minha vida continuaria nas mãos deles.


Lembrei-me do Sindicato da Saúde (não existe Sindicato de Podólogos aqui, e a situação de regulamentação da profissão no Brasil ainda depende de decisões de instâncias superiores) e decidi que iria procurar ajuda lá. Fui recebida com muito carinho por uma funcionária, a Heloisa, eu chorava muito, mal conseguia falar. Contei a ela, ao advogado e ao Diretor do Sindicato toda a minha história, eles pediam que eu me acalmasse e me orientaram a não voltar à empresa naquele dia, pois o meu estado emocional estava abaladíssimo. Pedi a eles que fossem lá comigo para formalizar minha demissão, pois sabia que se eu fosse sozinha eles iriam me convencer a ficar, como sempre, e ainda tinha os R$800,00 da dívida sem fim.


Fui recebida com muito carinho por uma funcionária, a Heloisa, eu chorava muito, mal conseguia falar. Contei a ela, ao advogado e ao Diretor do Sindicato toda a minha história, eles pediam que eu me acalmasse e me orientaram a não voltar à empresa naquele dia, pois o meu estado emocional estava abaladíssimo. Pedi a eles que fossem lá comigo para formalizar minha demissão, pois sabia que se eu fosse sozinha eles iriam me convencer a ficar, como sempre, e ainda tinha os R$800,00 da dívida sem fim.

Recebi do Sindicato da Saúde um apoio incrível, na pessoa de seus funcionários, de todos os escalões. Não posso deixar de expressar aqui os meus sinceros agradecimentos.

A minha história ainda não acabou, sei que demorei muito a entender o abuso deles para comigo. Não entendia que eles me queriam devendo sempre, para terem poder de barganha sobre mim. Eu achava que tudo era "normal”, procurava me convencer a cada dia de que  para se conseguir ‘algo na vida’ precisava me sujeitar à empresa para a qual eu trabalhava. Passei a achar que as atitudes de abuso dos proprietários eram “normais”, era o que acontecia em qualquer empresa. Dava à empresa o melhor de mim, ajudava em tudo que era possível e imaginável, da faxina ao controle de estoque.

A ficha só começou a cair quando fui ficando cada vez mais doente e percebi o descaso deles para comigo e as exigências absurdas para eu trabalhasse, mesmo assim.


Felizmente tenho mania de guardar as coisas, bilhetes, contratos, e-mails, tudo mesmo. Por isso acabei de descobrir aqui no blog, que possuo muito mais provas do que vivi e sofri do que provavelmente os meus patrões imaginam. Felizmente também poderei contar com o testemunho de vários ex colegas que já se disponibilizaram a isso.

Depois que entendi toda a exploração que sofri, passei um período de grande sentimento de culpa. Como pude a essa altura da minha vida, ter me deixado levar por tal situação? Sentia-me uma verdadeira ‘toupeira’, ‘cega’ ‘burra', 'idiota’... Coisas que definitivamente sei que não sou.

Vou ficar muito feliz quando puder voltar aqui, pra contar a vocês o resto da minha história. E mesmo que por algum motivo eu não volte, ou demore muito a voltar, já terá valido a pena, se eu tiver conseguido abrir os olhos de você que me lê, para algumas situações que possam cruzar um dia o seu caminho.

Quando a “esmola” for muito grande, você que não é santo, desconfie!


Um grande abraço,


"Y"


P.S. Assediados

Embora Assédio Moral no Trabalho, não escolha raça, cor, religião ou classe social, profissões que ainda não contam com o devido reconhecimento de legislações trabalhistas, certamente deixam seus profissionais em situação de desvantagem, e muitas vezes a mercê de atitudes desrespeitosas e abusivas como as descritas neste caso.

Desejamos que providências sejam tomadas para que cada vez menos, tenhamos que ouvir relatos tão desumanos.

12 comentários:

  1. Bom dia,

    sinceramente parece coisa do "outro mundo" , literalmente, até espirito surgiu no relato. Como serhumana fiquei abismada em saber que há pessoas tão ruins assim,mal intencionadas e articuladas coisa de bandido e se não brecarem eles continuarão a fazer isso com outras pessoas outras vítimas. Psicopatas pior que são dois.
    esperamos que a Y fique bem de saúde, procure um bom profissional pois irão enfrentar nos tribunais pessoas maldosas .
    abraços estou sem palavras, i minuto de silêncio...........................

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    1. Cara Anônima,
      entendemos sua indignação e esperamos que estas pessoas paguem por todas as suas maldades.
      Também estamos na torcida pela recuperação da saúde de "Y".
      Gratos por seus comentários.
      Assediados

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  2. Boa tarde,
    acho bem normal que ela tenha se sentido tão culpada, porque cada coisa que lemos nos perguntamos, como ela tá aguentando isso. Mas esse tipo de gente é igual a marido que bate. A mulher no fundo fica achando que fez alguma coisa pra merecer, ou fica com vergonha de admitir o que está acontecendo e ter que voltar pra casa dos pais de mão vazias, só com mais dívidas.
    Te desejo sorte "Y", que você consiga superar tudo isso, e que sua profissão seja reconhecida pra quem sabe ter mais respeito ou pelo menos tenha pra quem reclamar.
    Ah... não demore a voltar e contar como você superou tudo e qual o destino dos exploradores.
    Muito boa sorte a você!!!!!

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    1. Boa Noite Lolla,
      Você fez uma analogia bem pertinente quando compara o que "Y" viveu com o que vivem as mulheres abusadas por seus maridos. Que humilhadas e envergonhadas, não sabem muito bem como sair de tal armadilha.
      Também esperamos que ela volte para nos contar o fim dessa história.
      Abraço
      Assediados

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  3. Boa Noite,

    Não concordo com essa comparação , se fosse um HOMEM no lugar dela, , vocês comparariam com qual situação???

    porque todos os Assediados, se fosse assim , são comparados com mulher que apanha do marido e ainda fica com ele??? PÉSSIMA ANALOGIA. É por isso que muitos assediados não denunciam e abrem a boca para todo mundo , porque serão comparados e julgados desta maneira. Todo Assediado aguenta porque é comprometido com a profissão, batalhou muito pra conseguir aquela posiçao na empresa, fez sacrifícios, tem dívidas e familia para sustentar .
    Estamos falando de um trabalhador que tem direitos assim como deveres a serem cumpridos e tem que ser remunerado e respeitado dentro da lei, ele pode "pecar" pelo excesso de responsabilidade e não por
    "apanhar do marido" .
    temos que respeitar e saber colocar as comparações

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    1. Boa Noite Anônimo,
      O seu protesto e ponderações são bastante sensatos. Como bem sabemos, o assédio moral não escolhe sexo. Mas a analogia de certa forma, também serve ao homem. Imagine que ele é humilhado e ofendido fisicamente por sua mulher? Na verdade, estudos mostram que para o homem, o assédio moral tem um peso muito pior do que para a mulher, pois este se sente muito mais ofendido em sua honra do que a mulher, por isso o índice de suicídio entre os homens é muito maior, e aqueles que não o cometem, tem pensamentos suicidas.
      Os motivos que fazem um assediado suportar as humilhações, são de fato todos esses que você bem pontuou.
      Provavelmente a nossa seguidora Lolla fez esta analogia, por ser mulher, e entenda de forma especial o ponto de vista das mulheres, da mesma forma que um homem consiga perceber melhor o ponto de vista masculino, e nós do Assediados, precisamos respeitar todas as percepções e pontos de vista.
      Estamos felizes por sua participação e por sua indignação no que tange ao assédio moral no trabalho.
      Concordando ou protestando...
      Volte sempre!
      Um abraço
      Assediados

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  4. Prezada Y,

    Seu caso é extenso, mas não é complexo, considerada a técnica jurídica. Um advogado trabalhista pode ajuizar uma ação reclamatória para você ser indenizada por essas ilegalidades cometidas pelos seus ex-empregadores. Você tem testemunhas dos fatos e, pelo menos, o email com a promessa da casa e o tempo de uso, sem custo.
    Se outras pessoas usaram o imóvel, ainda mais a pedido da dona da empresa, no mínimo é ela que deve pagar a parte das demais.
    Fica difícil eu entrar em maiores detalhes para aconselhá-la e creio que é até inadequado, pois a análise de um texto não permite colher todas as informações que só seriam possível mediante uma consulta pessoal.

    De qualquer forma, ficam conselhos que servem para todos e que já mencionei em meu blog: quando um empregado percebe que está sofrendo assédio moral, a primeira coisa que deve fazer é começar a procurar outro emprego (mas sem comentar com ninguém). Não espere as coisas caírem do céu. Esse é um grande erro das pessoas, na vida.
    Não se pode deixar a situação piorar, para só depois tomar uma atitude. Pode ser tarde demais.
    Depois, deixe claro que você trata as pessoas com respeito e também quer ser tratada com respeito. Tente conversar amigavelmente, que não tem condições de continuar daquele jeito. Faça isso com prudência, claro. O empregador é o lado mais forte e não vale comprar uma briga, como a outra colega fez contigo. Senão, eles "criam" motivo para te aplicar uma justa causa. Mas não seja passiva. O empregado tem direitos e, pelo que me parece do seu relato, você tem consciência deles.
    Procure um advogado e tome uma atitude. Você estará ajudando não só a si como às demais pessoas que trabalham naquele local.

    Atenciosamente,
    Gustavo Campos

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    1. Caro Dr. Gustavo,
      Gratos por seu comentário.
      De fato, procurar outro trabalho para qualquer pessoa que está sendo explorada, é muito importante. Infelizmente a nossa "Y" foi tão enredada, que sair de lá se tornou algo realmente muito difícil.
      Um grande abraço e volte sempre com seus comentários que muito enriquecem o nosso espaço.
      Assediados

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  5. Realmente, sair do emprego seria a melhor saída se não fosse a dificuldade de encontrar outro emprego pois o mercado de trabalho está cada vez mais acirrada a idade compromete também pois há empresas que tem limite de idade para certos cargos, assim como a pessoa tem compromissos e familia e acaba se sujeitando e relevando o assédio até o limite para não perder seu emprego.
    A pessoa que é vitima de assédio moral deveria receber uma ajuda de custo e seus assediador deveria ser afastado do cargo até apurar os fatos , na verdade o que acontece hoje, é que o funcionario/vitima é prejudicado de imediato e o chefe/assediador permanece no cargo não sofre dano deveria ficar afastado do cargo.
    obrigado

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    1. Infelizmente a justiça ainda é lenta para punir os assediadores.
      Você ganha o processo, a empresa recorre... e lá se vão alguns anos da sua vida a espera do novo julgamento, enquanto os assediadores seguem com suas vidas, lépidos e fagueiros a fazer novas vítimas.
      Você está coberto de razão em suas ponderações, meu caro Anônimo.
      Um abraço e volte sempre!
      Assediados

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  6. Sofri assedio por parte da encarregada que desde que entrou queria mostrar serviço e achou eu pra fazer isso me gritava me humilhou e ainda nunca foi com minha cara, pedi as contas e estava cumprindo aviso, nome dela é kelly mentiu pro meu supervisor disse que me deu uma ordem e eu não quis fazer, então não cumpri o aviso todo e sai fora mais isso tem mexido comigo emocionalmente. E ainda pedi minhas contas não porque eu quis é que meu supervisor ia me mandar embora me dando uma justa causa inventada pela empresa acha que se eu for atrás de um advogado posso processar essa empresa já que pedi minhas contas quase que forçada.l

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