"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


terça-feira, 11 de setembro de 2012

Relato 25 (O Preço de uma Decisão) 2/4

Parte 2


Durante os meses seguintes todo 5º dia útil do mês, eu assinava o holerite com um valor, mas na verdade recebia um cheque nominal com valor bem inferior, com os descontos das minhas dívidas, com isso, sobrava muito pouco para eu passar o restante do mês.

Sofria muito, me alimentava mal, não ganhava o suficiente para saldar as minhas dívidas e mesmo que algumas vezes eles intercalassem os descontos, ainda assim, não era suficiente. Nenhum funcionário da empresa deveria saber desta negociação entre mim e os patrões. Eles falavam para eu não contar para ninguém.  Mas eu contei à minha amiga recepcionista, ela era de minha inteira confiança e eu precisava muito desabafar com alguém todo o meu sofrimento. A dívida não tinha fim, porque eu continuava recebendo apenas a comissão de 30% pelos serviços prestados e nada mais.

Eu trabalhava bastante na tentativa de ganhar mais e assim pagar mais rápido à empresa. Muitas vezes eu entrava às 10h e saia 21h, mas na folha de ponto não me era permitido assinar o horário real de entrada para evitar comprovação de horas extras.

Mais ou menos um mês após a minha volta, a Sra. "P" me chamou para conversar e disse que precisaria de um “favor” meu. Contou-me que contratara outra podóloga em São Paulo e que precisava que eu a hospedasse em minha casa. Garantiu que era por pouco tempo, até a outra encontrar um lugar para ficar, mas que eu não ganharia nada com isso, que aquilo era apenas um “favor”, afinal de contas eu morava sozinha, e até seria uma “companhia” para mim. 

O seu pedido me pegou de surpresa, fiquei totalmente sem ação. Como dizer ‘não’ para alguém a quem se deve somas tão altas? Mesmo eu dizendo que não tinha móveis, que não tinha como hospedá-la, ela insistia com desculpas dizendo: “... depois a gente vê”.

Ela me mostrou a foto da podóloga, descreveu todo o seu perfil pessoal e profissional, inclusive que a mesma era especialista em "pé diabético", o que seria uma ótima aquisição para a empresa. As negociações entre as duas prosseguiam por telefone e e-mail até que um dia a Sra. "P" me avisou que a nova podóloga chegaria, e que eu é que deveria recepcioná-la, pois ela não poderia fazê-lo.

Ao chegar à Rodoviária de Florianópolis demorei a encontrá-la e reconhecê-la, pois só a vira por foto na internet. Quando eu a encontrei ela estava  super nervosa, reclamava que estava sozinha em uma cidade estranha, que estava com medo e ficou inconformada com o fato de que a Sra. "P" não a tenha ido buscar e avaliou a situação como um descaso. Ela estava cheia de malas, estava de mudança mesmo; tive que pedir ajuda a pessoas do terminal para conseguir transportá-la. Por incrível que pareça a nossa empregadora não me dera um centavo sequer para esta operação, e isso seria só o começo dos meus gastos com “a hospede”.

No decorrer dos dias a podóloga ficava apreensiva, pois precisava arrumar casa para morar e não conhecia a cidade. Na medida do possível eu a ajudava. Como eu tinha telefone para falar com meus familiares, eu a deixava ligar para algumas imobiliárias e ligar para seus familiares em São Paulo, pois ela sentia muito a falta deles. No decorrer dos dias a podóloga só chorava, fiquei apreensiva, ela ligava todas as noites para uma pessoa que ela dizia ser psiquiatra e/ou psicólogo, e para a família. Ela ia trabalhar chorando, até que a Sra. "P" a demitiu, pois descobriu que ela tomava remédios muito fortes, devido a uma doença e seu cérebro não produzia certa substância que a deixava em depressão. Por isso ela tinha acompanhamento com psiquiatras de São Paulo todos os dias.

A podóloga permaneceu 10 dias na minha casa, tempo suficiente para aumentar meu prejuízo financeiro, pois tudo era por minha conta, alimentação, água, luz, telefone e até um colchão inflável comprei para que ela dormisse. Com tantos gastos extras tive que pedir "Vale" (adiantamento salarial). A empresa não arcou com absolutamente nada das despesas que tive com ela.

Fiquei muito chateada, pois eles bem sabiam tudo que eu estava vivendo e armaram aquela situação, fazendo com que eu me endividasse ainda mais. Com isso eu me sentia cada vez mais desconfortável e em situação totalmente desfavorável, em total submissão aos caprichos deles. Pois quando devemos daquela forma, ficamos sem moral para reivindicar nada e acabamos por ter que engolir tudo calados. Outros colegas podólogos e a minha amiga recepcionista também percebiam os abusos aos quais eu era submetida e não se conformavam com a situação. 

Em Junho/11 eles me procuraram com outra “boa” proposta. Falaram que teria um curso em São Paulo na área de podologia, que eles pagariam apenas a inscrição. Justificaram que seria muito bom para mim, porque eu veria meus pais e filhos, e também para a empresa, porque eu deveria divulgar vagas de podóloga para o Instituto. Ou seja, uniríamos o “útil ao agradável”. Minha tarefa no congresso seria distribuir os cartões deles e deixar o caminho aberto para futuras negociações de contratação.

Eu não gostei muito, pois teria que abordar as pessoas no congresso para entregar cartões, eu nunca tinha feito isso antes, ficaria sem graça, mas não tive outra opção. Precisava mostrar serviço, pois cobrariam de mim caso nenhum podólogo ligasse interessado na vaga. 

Eu estava com muitas saudades da minha família e seria uma oportunidade para vê-los. Infelizmente foi tudo tão rápido que quase não os vi. Foram apenas dois dias em que eu saia de casa quando eles estavam acordando e quando retornava já estava quase na hora de dormir. Na volta para Florianópolis viajei a noite inteira e às 12h já estava no Instituto para cumprir a minha agenda, só deu para passar em casa e tomar um banho.

Em pouco tempo me mandaram a São Paulo para três congressos, sempre nos mesmos moldes. Pagavam apenas a inscrição, e o resto todo era por minha conta. Não tinha folga após as viagens, trabalhava bem cansada, pois 12 horas em ônibus comercial era muito exaustivo. Nunca recebi nenhum tipo de compensação financeira pelos serviços prestados. Nesses dias eu trabalhava empurrada, quase dormindo na cadeira e com dores pelo corpo de tanto cansaço. Como se não bastasse, as salas de atendimento eram totalmente fora dos padrões estabelecidos pela Vigilância Sanitária o que exigia de mim e dos meus colegas, verdadeiros malabarismos para atender com eficiência e qualidade sem colocar os clientes em risco, lembrando que trabalhamos com bisturis e outros instrumentos cortantes e perfurantes.

Na mesma época do primeiro Congresso, fui surpreendida com a chegada à minha casa de móveis da loja Tok&Stok: dois beliches com os respectivos colchões, 01 guarda-roupa, dois edredons e lençóis usados, da casa do Sr. e Sra. "P". Era um “presente” dos meus patrões. Disseram que era para meus filhos dormirem quando viesses para passear em Florianópolis. Até agradeci, pois eu não tinha móveis, só estranhei o fato de terem comprado tantos beliches se eu morava sozinha e já tinha uma cama para dormir. Só depois percebi que estava sendo usada no “esquema de favores” deles para “hospedar” os futuros podólogos.

Como eles demitiam muitos profissionais, mandar-me para os congressos em São Paulo foi a solução encontrada, pois diziam que em Florianópolis não haviam profissionais qualificados e com experiência.

Eu já estava esgotada, mas não tinha coragem de falar nada. Eu até pensava que eles estavam sendo generosos comigo. Pensava que estavam sendo solidários porque eu estava longe da minha casa, da minha família, mas ao mesmo tempo estranhava aquelas atitudes deles.

Durante um ano, mais ou menos, o ciclo se repetia. Eles contratavam os podólogos de São Paulo eu ia buscá-los na Rodoviária de ônibus. Eles ficavam na minha casa por um tempo, enquanto eu ficava com todas as despesas, tendo que pegar "Vale" para cobrir os gastos extras, para bancar os profissionais deles. Depois essas despesas eram descontadas da minha folha de pagamento. 

Essas podólogas ou eram demitidas ou se demitiam. Elas diziam que aquilo era propaganda enganosa, pois não ganhavam o prometido, visto que como eu, ganhavam apenas 30% de comissão e não tinham salários fixos. Para ganhar R$ 3.000 por mês (que era o prometido na contratação pela proprietária), teriam que trabalhar 12h por dia. A Sra. "P" foi várias vezes questionada pelas funcionárias, inconformadas por não ganharem o prometido, mas ela sempre tinha uma desculpa.


AmanhãComo se não bastasse...

8 comentários:

  1. Gente, onde será que isso vai dar. Quando se pensa que tá ruim, ainda fica pior.
    Cada hora fico mais arrepiada de pensar como pode explorar um funcionário desse jeito. E ela está tão humilhada com a situação que nem consegue levantar a voz pra reclamar, pra dizer que não concorda com tudo aquilo...
    Quero só ver o resto!

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    1. Boa Noite Lolla,
      Compreendemos sua indignação.
      Esperamos tê-la por aqui acompanhando o resto da história.
      Um abraço
      Assediados

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  2. Interessante é a forma com que os empregadores manipulam uma pessoa , são 171, agem de má fé , explora o trabalhor , se aproveita da situação precária e submissa além de estar em outra cidade sozinha eu nem sei o nome pra isso tudo, tem de tudo, assédio, abuso de poder alguém salva ela!
    Abraços e também nem imagino o que vem por aí,isso é pra gente ver que não teno fiscalização na empresa, eles fazem o que querem, dá suas escapadas para não deixar vestígios, sempre penando em burlar a lei.
    Como resolver isso?

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    1. Você tem razão Anônimo,
      Realmente este caso tem um mix de atitudes que podem ser enquadradas em várias situações.
      recebemos inclusive um comentário privado que dizia: " É sério pq é uma mistura de engodo, com mau-trato, com assédio horizontal, tem algumas coisas ai que parece que dá até processo penal, salvo melhor juízo, fica até dificil falar algo... Mas isso ai daria uma boa reclamatório e até ação penal."
      Sua indignação é muito justa, e o desejo de salvá-la está sempre presente.
      Volte Sempre!
      Assediados

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  3. CADÊ A JUSTIÇA DO TRABALHO, MINISTÉRIO PÚBLICO, PRA QUE SERVEM AS LEIS, CADÊ AS FISCALIZAÇÕES NAS EMPRESAS , MICROEMPRESAS SÃO PIORES AINDA, FAZEM O QUE QUEREM, AS LEIS DESSE PAÍS É SÓ DE FACHADA!!!

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    1. As nossas leis estão carecendo de reformulações, e é o que precisamos cobrar dos nossos legisladores.
      Gratos por sua participação.
      Volte Sempre!
      Assediados

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  4. Isso é o fim,desmoralização e degradação da moral, onde estão as LEIS DESTE PAÍS NO LIXO??????
    Onde vai parar o descaso das autoridades desse país. Em pleno século 21 é um absurdo, tanta tecnologia, tantas modernidades , só de fachada ,por trás disso tudo, se esconde ainda, os "capangas" da época da escravatura.
    É lamentável todos os fatos ocorridos e relatados pelos trabalhadores neste blog .
    ACORDA BRASIL!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  5. É terrível saber que ainda existem empregadores desse nível, pessoas que se aproveitam da fragilidade alheia para levar avante os seus propósitos. Fingem estar ajudando ao outro, mas na verdade estão se beneficiando através dele, e a coisa parece não ter fim. À cada atitude só nos mostram que estão alimentando o se mau caráter e ganância. Lamentável!

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