"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Relato 25 (O Preço de uma Decisão) 1/4

Parte 1


Meu nome é "Y" e preciso compartilhar com vocês tudo o que vivi, porque realmente preciso de ajuda até para compreender o que estou passando. Isso é assédio moral mesmo? É trabalho escravo? Tem outro nome para isso que passei? Pois até agora estou sem entender direito.

Sou viúva, filha única de pais aposentados, tenho 44 anos, e dois filhos adolescentes.

Morava em São Paulo e desde 2008, enfrentava problemas financeiros. Eu precisava arrumar emprego para ajudar minha família, meus pais estavam endividados e eu também, e infelizmente por isso, com o nome sujo na praça, e com muita dificuldade em arrumar contratação em São Paulo, pois a concorrência é muito grande.


Em 11/07/2010 domingo, encontrei nos Classificados de um jornal de empregos uma vaga de podóloga para trabalhar em uma empresa que chamarei de "Instituto", na cidade de Florianópolis-SC.

Interessei-me pela oferta no primeiro momento, e mesmo imaginando que não tinha condições para tal mudança e não tinha como levar minha família comigo, enviei meu currículo sem muita esperança. No dia seguinte a proprietária do  "Instituto", a Sra. "P",  ligou na casa dos meus pais e iniciamos uma pré-entrevista por telefone e e-mail que durou uma semana. 

Fiz todas as perguntas possíveis e deixei bem claro minha situação financeira, pois não tinha fiador nem dinheiro para dar cheque caução no aluguel de uma casa. Não tinha condição de contribuir com absolutamente nada para arcar com uma mudança. Eu precisava ter segurança e certeza do que estava fazendo, pois seria uma mudança radical na minha vida. A resposta da Sra. "P" era sempre que eu não me preocupasse e que ela iria me ajudar. 

Decisão muito complicada para uma mulher e mãe, mas diante da precária condição financeira em que me encontrava, e diante das condições que a empresa oferecia (salário acima de R$2.000, convênio médico após um ano de empresa, registro em carteira, e ainda uma casa para morar).

A Sra. "P" me enviou por e-mail fotos da casa e falava que eu poderia ficar uns seis meses nela, pois depois disso, a casa seria alugada para temporada, e só então eu teria que arrumar uma casa definitiva. Assegurava-me que eu pagaria o aluguel com tranquilidade, pois receberia um bom salário.  

Senti-me segura e confiante, pois as palavras dela eram muito convincentes. A possibilidade de viver em uma cidade diferente, ter qualidade de vida e limpar meu nome junto ao SPC, mais a força, motivação e esperança que a minha família me dava, foram suficientes para que tomasse uma decisão. Decidi mudar e recomeçar em outra cidade, deixando meus filhos em segurança com os meus pais. Mas como não tinha dinheiro para a mudança, pedi emprestado R$500,00 a uma amiga.

Viajei de ônibus por 12h no dia 18/07/10. Saí pela manhã e a noite já estava lá. Fui recebida pela minha nova patroa que me levou para casa alugada no bairro dos Ingleses.

Antes da minha chegada ela pagara sem o meu conhecimento, como garantia pelo aluguel da casa, R$1.000,00 de caução diretamente com os proprietários. A mim ela dissera apenas que eu pagaria o aluguel. Após a sua saída da minha nova casa, fui surpreendida com a visita do proprietário que me avisou que eu só poderia ficar lá por três meses e não seis, pois ele alugaria a casa para temporada. Fiquei nervosa, pois acabara de chegar à cidade, estava com pouco dinheiro, não tinha iniciado o trabalho ainda e já teria que procurar outra casa para morar.

No dia seguinte avisei aos meus novos patrões o que tinha acontecido e eles falaram que eu realmente teria que procurar outro lugar, pois não poderiam fazer nada.

Fiquei preocupada e comecei logo a procurar outro lugar para morar. Trabalhava de 12:00h às 21:00h e só conseguia chegar em casa por volta das 23:00h, então pela manhã, antes de sair, andava pelas redondezas procurando casa.

Nos meses seguintes eu pagava R$500,00 do aluguel, mais parcelas entre  R$300 e R$500,00 para amortizar o valor da caução dada pela empresa. Nesse período, não sobrava quase dinheiro algum para o meu sustento. Eu não tinha clientela formada no "Instituto", e diferentemente do que havia sido prometido, eu não ganhava salário fixo, apenas comissão.

No terceiro mês arrumei outra casa no mesmo bairro, pois era o único que eu conhecia. A empresa depositou o valor total exigido como caução de R$2.250,00 na conta da imobiliária como garantia e fez uma carta de referência para a mesma, onde constava o “valor” do meu salário. Com isso, a dívida com meus patrões se acumulava, pois agora tinha o restante da dívida da caução da primeira casa, mais a caução da segunda.

Para piorar a situação, a segunda casa que aluguei não tinha mobília, mas foi o melhor que arrumei na época. Não tive escolha, dormia em cima de uma caixa de papelão, e só mais tarde pude comprar uma cama e um fogão.

No início uma recepcionista do "Instituto" me ajudou muito, me deu copo, prato, talher, panela, e até comida muitas vezes levava para mim. Como eu não tinha geladeira, os alimentos estragavam rapidamente. Passei muita fome e vontade. Muitas vezes pensei em ir embora para São Paulo, a empresa não dava nenhuma demonstração de se importar com a minha situação. 

Após alguns meses comecei a sofrer perseguição de uma das colegas podólogas. Eu comentava com a patroa, pedia que tomasse providências, mas nada acontecia. O tempo foi passando e a perseguição só aumentava e estava afetando a mim e aos outros funcionários, pois a podóloga não queria que ninguém falasse comigo. Ela dizia que eu tinha que voltar para São Paulo, que eu tinha que sair daquela cidade. Parece que para ela, eu estava tomando o emprego de um dos nativos do lugar. Eu sofria, mas procurava não me deixar abater e sempre avisava para os proprietários e aguardava providências, mas nada foi feito. 

Uma noite a colega começou a me xingar e falava palavras ofensivas a mim e a minha família. A recepcionista chamou a Sra. "P" pedindo que ela resolvesse a situação, pois era insustentável. A sua intervenção foi radical,  demitir por justa causa a mim e a outra podóloga. Julguei a intervenção dela descabida, totalmente desproporcional a situação pois eu a avisara diversas vezes das perseguições e humilhações que vinha sofrendo e ela nada fizera.

Conversei com a Sra. "P" em particular e pedi por mim e pela outra. Argumentei que nos desse uma advertência ou suspensão, mas que não nos demitisse evitando assim ficar sem as duas podólogas. Foi quando ela e o marido, Sr. "P", admitiram ter tomado aquela decisão, pois já estavam querendo "se livrar" da outra funcionária há algum tempo e aproveitariam a situação para demiti-la por justa causa. Para isso eu teria que me afastar da empresa por uns meses, mas depois eles me recontratariam. Pediram para eu fazer Boletim de Ocorrência sobre a briga, para que assim documentados justificassem a demissão dela.

Fiquei apavorada, pois como ficaria a minha vida, demitida, tendo que pagar o aluguel da casa que morava e ainda devendo para a empresa?

No meu último dia na empresa, eu chorava muito, mas eles garantiram que eu iria voltar a trabalhar no "Instituto". Nos dias seguintes a Sra. "P" ligava na minha casa, para saber como eu estava e falava que logo me chamariam de volta para trabalhar e que eu deveria me acalmar. A minha amiga recepcionista também me visitava de vez em quando, levava comida, fazia companhia, e até me emprestou uma geladeira.

Para amenizar a situação os meus patrões depositaram o valor de R$ 750,00 referentes ao meu aluguel de Fev/11, valor este que se somaria às minhas dívidas anteriores e depois que eu voltasse a trabalhar na empresa, seria descontado do meu pagamento.

Sentia-me perdida totalmente desestruturada e sem condição de fazer nada a não ser esperar. Afinal eu estava em suas mãos, devendo muito, longe da minha família e sem condição alguma nem para ficar, nem para sair de lá.

Após umas duas semanas, a dona do "Instituto" me ligou e falou para eu voltar a trabalhar. Achei tudo muito estranho, pois foi rápido demais a recontratação. Eles alegaram que como a outra podóloga demitida abrira um processo trabalhista, eles não tinham o que temer com relação ao Ministério do Trabalho, pois alegariam que a outra agira de má fé.

Agora vinham os detalhes sórdidos da história: eles não fariam o registro na minha carteira “ainda” (afinal eu acabara de ser demitida por "justa causa"), para que as autoridades não percebessem a manobra deles, deixando evidente para a justiça a intenção de “driblar” a lei. Trabalhei quase um mês sem registro e então fui registrada novamente no "Instituto", só que com isso, começou uma nova contagem de tempo com relação às férias e ao direito ao convênio médico (benefício este que nunca recebi). 

Amanhã: Durante os meses seguintes...

8 comentários:

  1. Parece que há várias maneiras de assédio moral no trabalho apesar disso etar parecendo cárcere privado?
    quando vocês publicarão a continuação desta história?
    obrigado

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Caro Anônimo,
      Realmente o assédio moral no trabalho se apresenta de várias formas. Nem sempre é com gritos e atitudes claras.
      Vamos esperar a ver o que vai acontecer...
      A continuação do Relato acontecerá em sequencia nos próximos dias.
      Abraço
      Assediados

      Excluir
  2. Nossa! a empresa não cometeu estelionato?obter vantagem para si, além de fraudar a lei mandando ela embora por justa causa e depois recontratá-la , além de oferecer emprego em outro estado e deixá-la passar fome.há vários crimes nesse relato.
    estou indignada

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Os relatos de assédio realmente nos causam grande indignação.
      Cabe à justiça enquadrar as práticas de tal empresa em todos pontos cabíveis.
      Volte sempre!
      Assediados

      Excluir
  3. Quanto sofrimento minha filha! Como existe gente ruim nesse mundo. Fico triste, enojada, indignada e revoltada com uma situação dessas. Ë muito bom mesmo moça você contar aqui a sua história, porque pode servir de alerta pra muita gente. Nem sempre as coisas são o que parecem ser... a gente tem que confiar pra não ficar doido e paranoico, mas tem que começar a ser mais maldoso.
    O mais engraçado é que você não fala ai de grito, de humilhação... porque a gente acaba pensando em assedio só com isso, mas tem muita coisa que fica nas entrelinhas né?
    Tô solidária a você e quero logo saber como isso acaba. E lógico que tô torcendo por um final feliz, viu "Y"?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Boa noite Lolla,
      é bom ter você por aqui!
      Realmente é muito sofrimento, e acreditamos que ela tem toda razão quando diz não entender direito até agora o que passou.
      Você também ponderou bem quando diz que não existem gritos ou coisas assim, é diferente do que estamos acostumados a ver.
      Não perca o resto da história.
      Volte sempre e não deixe de comentar.
      Abraço
      Assediados

      Excluir
  4. Boa Noite

    Tem mais absurdo nessa história? bem diferente a abordagem diferente do que encontramos dentro do tema "assédio moral".
    Tem como vocês colocarem logo como desenrolou este relato ?
    quero saber até onde o empregador chega!!! coisa boa é que não é pelo que percebo no relato inicial.
    Boa Noite e sorte pra a "Y".

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Realmente caro Anônimo, quanto mais vamos lendo, mais nos perguntamos se já não bastam de absurdos, e isto é só a primeira parte da história.
      Você vai precisar ter calma para ver como a história se desenrola. Mas fique tranquilo que todo o relato será apresentado esta semana.
      Um abraço e volte sempre!
      Assediados

      Excluir