"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Relato 24 (Será que estou sendo vítima de assédio moral no trabalho?)

Sou professora universitária e tenho me preocupado muito com os valores que passo aos meus alunos, em especial por estar na enfermagem, área sabidamente propensa ao assédio moral.
Tenho buscado falar aos meus alunos, ao menos uma vez durante o tempo que dura o nosso contato, que estejam atentos ao fenômeno, para não serem vitimizados e também para não vitimizarem outros. Em geral também lhes falo da importância de buscar ajuda, visto que muitos sentem-se tão atordoados que sequer têm noção de como fazê-lo.
Não são falas longas, apenas um momento de reflexão com o desejo de semear neles a compreensão de uma realidade cada vez mais comum e com o desejo sincero que saibam como se defender, caso algum dia seus caminhos se cruzem com uma força devastadora como o Assédio Moral no Trabalho.
Como professores, nunca sabemos de fato o impacto que as nossas falas têm sobre nossos alunos, apenas esperamos encontrar eco. Alguns alunos, por motivos diversos, marcam a passagem por nós, e certamente nós por suas vidas. Esta aluna, em especial, marcou a sua passagem por mim, pois era extremamente interessada e comprometida, mas um dia me procurou dizendo que abandonaria a especialização, pois passara em um concurso público no interior do país e não poderia perder aquela oportunidade. Eu não tinha como discordar e apenas procurei passar-lhe alguns conteúdos que julguei serem úteis. Lembro-me de que, à  época, encaminhei-lhe um texto que chegou às minhas mãos, intitulado “Cuidado, você pode estar sendo vítima de assédio moral no trabalho

A vida continuava em sua rotina intensa quando numa sexta à noite deparei-me com um e-mail dela que dizia:

“Olá, professora!  
Hoje eu me lembrei de maneira especial de você e resolvi escrever pedindo alguma ajuda.  
Estou passando por uma situação muito difícil no trabalho. O Diretor Clínico do hospital é um homem estúpido. Acha que só ele tem a razão em tudo.  
Dia desses, ele pegou o carrinho de emergência que estava no PS e empurrou com força corredor à fora. Numa emergência qualquer ele começa a xingar e falar palavrões, apavorando a equipe. Outro dia, inclusive, ele pegou uma das minhas técnicas de enfermagem pelo braço e a puxou... Ela ficou muito ofendida. 
Quanto a mim, ele não quer que eu realize exame físico nos pacientes, não quer que eu faça ausculta e nada desse tipo. Seu último ataque foi devido ao fato de eu ter auscultado uma criança que já estava diagnosticada com pneumonia. Na minha evolução coloquei que havia creptação na ausculta pulmonar. Avisei-o sobre o achado clínico, como ele mesmo me havia pedido para fazer. 
Ele falou: "Vamos lá então, você por acaso sabe o que é uma creptação? Sabe diferenciar creptação de subcreptação? Sabe a que patologias esses sons estão relacionados?"  
Eu respondi que sei o suficiente para o desenvolvimento do meu diagnóstico de enfermagem e que não tenho a obrigação e nem a intenção de fechar diagnósticos médicos. 
A briga foi longa (...) 
Ele ficou extremamente irritado e falou que se continuasse desse jeito, com minhas evoluções não sendo coerentes com as dele, que pediria pra que eu parasse de evoluir os pacientes. 
Só existem duas enfermeiras aqui no hospital: uma formada há mais de 20 anos (...) e eu, que só sei trabalhar dessa forma, como aprendi na faculdade. 
Tenho chorado muito pelo medo que esse médico tem me causado. 
Estou sendo vítima de assédio moral no trabalho? 
O que eu poderia fazer quanto a esta situação? 
Obrigada, profa.  e que Deus continue contigo!”


Assim respondi à minha ex aluna, enquanto meu coração sofria por imaginar o que ela estava passando:

“Oi querida, realmente imagino o quanto você está sofrendo e sinto muito por isso. Uma das causas que pode nos tornar vítimas de assédio moral é, justamente, o fato de sermos competentes, e isso acende a ira de pessoas como esse tal médico. Meu conselho querida, é que você e as demais vítimas dele passem a gravar todas as agressões e em especial as ameaças e obstruções ao trabalho.  
Hoje os celulares estão muito potentes e eficientes para isso. Sugiro que compre uma caneta espiã, ou algo semelhante, e que a use, sempre, durante todo o tempo em que esteja em contato com ele, e até mesmo quando imaginar que ele vai atacar. Mas enquanto não tiver um desses aparelhos de registro, use o celular mesmo. 
O assédio moral é assim, não escolhe hora nem lugar; e quando menos esperamos somos suas vítimas. 
Dizer que não tenha medo é inútil, porque em verdade nos sentimos apavorados com a simples ideia da possibilidade de termos que sair de casa para trabalhar, e pensar que teremos que nos deparar com um desses crápulas. Mas, a partir do momento em que estiver se sentindo preparada para se defender, as coisas irão ficar mais fáceis. 
Quando você estiver bem munida de provas, aí sim, poderá pensar em como usá-las. Você poderá, por exemplo, denunciá-lo por assédio moral ao COREN, e o COREN ao CRM, por ele estar impedindo o seu trabalho.  Continue fazendo tudo como sempre fez dentro das técnicas que você aprendeu.  
Você é concursada, não? Sendo assim, ele não poderá demiti-la. Mas ele poderá infernizá-la bastante. Seu período de experiência já passou, não? 
Ir a um advogado seria o ideal, mas acho totalmente desaconselhável em uma cidade pequena como esta (6 mil habitantes), onde ele tem muito mais poder que você. Então se concentre em juntar provas.  
É muito importante que você não conte a outras pessoas o que estará fazendo, porque se isso, de alguma forma, chegar aos ouvidos dele, pode virar tudo contra você. Não conte nem para as suas colegas enfermeiras.  
Grave o que ele faz com você e também com as outras pessoas, porque, no final, tudo pode vir a ser utilizado no processo. 
Se desejar me ligar para conversar fique à vontade. Terei o maior prazer em ajudá-la com orientações e direcionamento.  
Quando estiver munida de provas terá força para enfrentar a situação. Por enquanto, evite enfrentá-lo.  
Comece também a escrever o diário do assédio. Compre um livro ata (páginas numeradas) e passe a escrever tudo que acontece com você e com os outros. Tente relembrar o que aconteceu e escreva. E passe a escrever diariamente tudo o que acontecer quando ele aprontar. Não rasure, não risque, não pule página. Se errar uma palavra escreva, digo, e continue. Descreva o que aconteceu com detalhes e não deixe de relatar seus sentimentos e as testemunhas presentes. 
Vamos um passo de cada vez, depois pensaremos com relação ao advogado. 
Tenha um sábado feliz.”

Ela me respondeu na mesma noite:


“Obrigada, profa. muito obrigada mesmo! 
Eu tenho ficado noites sem dormir cada vez que me deparo com ele. Necessito tomar, por dias, relaxantes musculares, de tanta tensão. Sinto dor física e muito medo. Nunca pensei que teria medo de ir pro trabalho.  
Eu sou concursada, no entanto são três anos de período "probatório", antes disso, não tenho estabilidade. Além disso, ainda sou muito ingênua. Fui criada em meio cristão, cercada de pessoas muito menos más do que estas. Elas são perfeitas em armar ciladas. E eu, muito inexperiente em me livrar delas.  
Moro sozinha, minha família mora longe. Estou aprendendo muita coisa com relação a "esperteza". Mas ainda assim tenho medo de armarem uma cilada pra me tirar do trabalho, principalmente depois de passar o período eleitoral, como o próprio médico fica dando indiretas. 
Esse é o momento em que coloco nas mãos de Deus, pois fico limitada. ELE tem me ajudado muito.
Mais uma vez, muito obrigada por se dispor a me ajudar.”
As nossas correspondências continuaram:

“Oi querida, Achei que a sua família morasse ai também, isso com certeza dificulta muito as coisas para o seu lado emocional. 
Lembra da história de Ester e como ela fez tudo para preparar uma "situação" para o Hamã ser pego pela própria armadilha? Ela não ficou parada, quietinha, chorando na cama que era lugar quentinho. Ela correu atrás e foi vencedora. Leia o livro de Ester e veja quanta sabedoria e perspicácia. 
Tem algum médico aí que seja de sua inteira confiança? Ou que seja da oposição a ele, que ao menos não vai contar o que se passa? Mas fale apenas da parte física, não entre no mérito das questões jurídicas. Ouça os conselhos dele, e diga apenas que está pensando em procurar um advogado. 
Se existir, procure o médico e relate como se sente fisicamente, de como tem sido o seu sono, da necessidade de tomar relaxante muscular para dormir, etc. Também pode procurar um psicólogo. Todos estes profissionais são prova, no futuro, do seu estado de saúde hoje, e da forma como está se deteriorando.  
Se ele fizer a você algo semelhante ao que fez a sua auxiliar, ou se de alguma forma ameaça-la verbalmente, vá até uma delegacia e faça um Boletim de Ocorrência. E isso vale também para os seus subordinados. 
Você diz que quando tem uma emergência ele perde a compostura, grita e xinga etc. Então é só estar preparada para gravar, afinal, emergência tem quase todos os dias em hospital. Grave o máximo de imagens e situações possíveis, dele agredindo os funcionários.  
Mesmo que ele consiga atrapalhar você no seu estágio probatório, não esqueça que funcionário público tem direito a ampla defesa. Então comece a se preparar desde já. 
Colocar nas mãos de Deus é muito importante, mas não basta. Você tem que fazer a sua parte e deixar que Deus complemente com o que for impossível para você fazer.  
Abraço e escreva sempre pra me manter informada.”

Poucos dias depois ela me respondeu: 

Profa.,  meu irmão, que mora numa cidade próxima, veio me visitar este fim de semana e contei a situação a ele. Ele já está ciente.
Eu ganhei um gravadorzinho bem discreto do meu pai e meu celular grava e acho que filma também. 
Tem um médico aqui que acho que seria discreto e não contaria, mas tenho muito medo de confiar em qualquer pessoa. Muitas vezes a gente se engana.  
Na verdade, profa., tenho medo de agir, mas me sinto mal em ficar estagnada, estática, vendo minha equipe (e eu mesma) sofrendo semanalmente com isso. Meu medo é manchar minha carreira, mas acho que, o que deve ser feito é agir pelo que é certo. 
Obrigada por poder contar com seu apoio e orientação. Vou começar a gravar e conforme as coisas forem acontecendo, vou te escrevendo para mantê-la informada e para continuar pedindo orientação!  
Penso que não foi à toa que Deus permitiu que eu a conhecesse pouco antes de vir pra cá. 
Mais uma vez, obrigada!”

Passaram-se algumas semanas e ela fez novo contato.


Para minha felicidade, aquela menina assustada dera lugar a uma profissional valente e com forças renovadas.


Mas o que aconteceu?

Ela me contou que o tal assediador amenizou seus comportamentos, pois uma paciente gravou os xingamentos dele e o denunciou, na prefeitura, e ele fora chamado pela prefeita da cidade em seu gabinete a responder pela denúncia. 
Ele não tinha a menor ideia de que a paciente gravara seus impropérios.
Este é um dos pontos fracos dos assediadores. Na maioria das vezes eles se acham acima do bem e do mau, e não acreditam na reação de suas vítimas.
Foi maravilhoso ouvi-la dizer: “Eu não tenho mais medo dele”
Alertei-a de que os seus maus comportamentos poderão retornar, e agora com um pouco mais de ‘requinte’.
Sua resposta foi firme: “Muito obrigada, profa., hoje eu sei como me defender e já estou pensando formas de como defender também a minha equipe”

Lição dada, lição aprendida!


2 comentários:

  1. Só tenho a dizer que uma relato desses me deixa triste. Mas é verdade mesmo que muitos profissionais se acham os tais e por isso passam por cima dos outros.
    Parabéns para a profa pelos conselhos e feliz a aluna que pode contar com uma ajuda assim, nem todos tem a mesma sorte.
    Bom saber que o assediador encontrou o que merecia.
    Parabéns pelo espaço com tantos relatos tão diferentes mas que mostram tão bem a cara do assédio moral no trabalho e pelo aniversário.
    Uma fã.

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    1. Boa Noite "fã",
      Estamos felizes por sua visita e agradecidos pelo reconhecimento ao nosso primeiro ano de trabalho.
      Nós também ficamos tristes com muitos relatos que nos chegam, mas também muito felizes quando percebemos a reação de defesa de um assediado.
      Volte sempre e seja nossa seguidora.
      Um abraço
      Assediados

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