"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


sexta-feira, 10 de agosto de 2012


Por Florival Scheroki

Quase que todos os artigos e posts sobre Assédio Moral no Trabalho (AMT) repetem que as ações do assediador devem ser repetitivas, intencionais, direcionadas e danosas como características comumente reportadas pelos pioneiros neste campo estudo.

Já abordei anteriormente que a intencionalidade não é acessível e que a repetibilidade é uma característica anacrônica, comum quando havia menos punição para AMT. A direção das ações à vítima é tão inútil quanto à intencionalidade. A característica inequívoca está nos danos duradouros sofridos pelas vítimas.

A termo duradouro para os danos indica que, independentemente de quantidade discreta de ações cometidas pelo assediador, o que não deixa dúvidas é a patência de um dano contínuo, em geral crescente, e, portanto, nada discreto, como postulam alguns defensores dos malfeitores.

Então, temos que manter a característica de CONTINUIDADE analógica dos danos como evidência de que há ações por parte do assediador para\manter o sofrimento, mesmo que esta ação seja apenas de omissão, vistas grossas ao sofrimento infligido à vítima. 

A perspectiva acima referida é repetitivamente negligenciada nos artigos que abordam o assunto e pelo judiciário que busca no aspecto positivo (na patência dos atos repetitivos de maus tratos e com isto não focam adequadamente a ação negativa, de fato repetitiva, a omissão do socorro e da educação preventiva.

Parte substancial deste viés danoso nas organizações e no judiciário se deve a diversos fatores, entre os quais a má formação de psicólogos, médicos, agentes do judiciário, advogados e outros, todos fortemente mantidos por um legislativo paquidérmico e conivente com o sistema. Isto é o que o quadro atual me sugere.

Então, cabe acrescentar uma característica inequívoca que acompanha o assédio moral do trabalho: a PERMANÊNCIA dos danos, acompanhada de AGRAVAMENTO ou de MANUTENÇÃO da precariedade da saúde do trabalhador. Esta é minha proposta de objetividade para avaliar as situações denunciadas de AMT, em substituição ou em conjunto com a REPETITIVIDADE de ações causadoras dos danos relacionados ao AMT.

Dispensável repetir ao compêndio de problemas de saúde que acompanham o empregado vitimado de AMT. Não cabe, em situação alguma, a alegação de que o assediador e/ou a empresa desconheciam os danos em andamento ou que não havia dolo nas ações. Se não há educação organizacional para identificar e tratar as situações e pessoas (vítimas/vitimizadores) cabe imputar responsabilidade por omissão à empresa que não pode alegar desconhecimento da lei e nem do que ocorre em suas dependências.

Uma das intervenções positivas é criar a obrigatoriedade para que as empresas façam um dia de atividade, por ano, dedicadas às relações no trabalho, podendo este dia fazer  parte da semana de prevenção de acidentes (SIPAT), à semelhança do que ocorre com a abordagem sobre DST, tabagismo, álcool e outras drogas.

O papel do judiciário é fundamental para que, além das punições materiais atribuídas às empresas, acrescente esta obrigação de educação quanto ao tema, com conteúdo programático estipulado através de políticas públicas delineadas pelos ministérios relacionados com trabalho, saúde, previdência e assistência. Não é cabível que uma questão de tamanha gravidade fique apenas no âmbito do judiciário, sem claras diretrizes governamentais, pois trata-se de um mal que se assemelha às mais letais pandemias.

Florival Scheroki é psicólogo clínico há 30 anos, mestre em Psicologia do Desenvolvimento e doutor em Psicologia Experimental pela USP, além de estudioso de mudanças associadas a diversas instituições modernas, entre as quais o trabalho.



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