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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A INELUTÁVEL EVIDÊNCIA DO ASSÉDIO MORAL NO TRABALHO


Por Florival Scheroki, Dr.

Prof. Dr. Florival Scheroki
Uma grande parte de artigos (jornalísticos e acadêmicos) e de postagens, sobre Assédio Moral no Trabalho (AMT) repetem e reforçam, como características do AMT, que as ações do assediador devem ser repetitivas, intencionais, direcionadas e danosas.

Abordei em outros textos que a intencionalidade não é acessível e que a repetitividade de modos de agir (topografia do comportamento) era mais comum quando havia menos punição para AMT. A direcionalidade das ações à vítima é outro aspecto que gera tanta confusão quanto à intencionalidade. 

As características inequívocas estão na função de diversas formas e comportamentos – sutilmente veladas ou escancaradas – de causar danos duradouros às vítimas. Os danos são vastamente conhecidos assim como as variedades de ações que os antecedem.

O termo duradouro, para os danos, indica que, independentemente da quantidade discreta de “maldades” cometidas pelo assediador, o que não deixa dúvidas é a patência de um dano contínuo –em geral crescente, e, portanto, nada discreto, como postulam alguns prepostos de malfeitores.

Então, temos que observar a continuidade (analógica) dos danos como uma evidência de que há ações que historicamente os antecederam – que podem ser ou não ser, as mesmas ações que os mantêm no presente. A sutileza das ações por parte de grande parte dos assediadores se contrapõe à visibilidade dos danos que se sucedem às maldades.

A perspectiva acima referida é por diversas vezes negligenciada em artigos que abordam o assunto, e principalmente, parece-me, pelo judiciário que – sem o suporte apropriado de observação e análise, inerentes ao trabalho de psicólogos experientes – busca na patência dos atos repetitivos de maus-tratos, o nexo de causalidade para os danos que saltam aos olhos. 

Com isto, com a falta de conhecimento apropriado, deixam de ver a repetitividade da omissão (vistas grossas?) de socorro e da educação preventiva – isto sim, uma ação danosa repetitiva por omissão. Cabe notar que a área médico-pericial, por diversos fatores que não cabem neste texto, correm os mesmos riscos.

Parte substancial deste viés danoso nas organizações e no judiciário se deve a diversos fatores, entre os quais a formação insuficiente de psicólogos, médicos, agentes do judiciário, advogados, e outros tantos, fortemente mantidos por um legislativo paquidérmico e conservador. Assim é que a mim se mostra o atual quadro para este problema, o Assédio Moral no Trabalho (AMT).

Voltando às características do AMT, repetidas como mantras em alguns textos e contextos, chama a atenção – como se a própria coisa já não estivesse a gritar aos nossos olhos – a inequivocável companhia da permanência dos danos ao longo da vida, comprometendo praticamente todos os âmbitos.

Mesmo distante, fisicamente, da situação de assédio, a permanência dos danos segue junto com o agravamento dos mesmos, perpetuando e acrescentando, assim, mais prejuízos à já precária saúde física, emocional, financeira, familiar etc. do trabalhador. Não são só assalto e estupro que provocam Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Ansiedade Generalizada – assédio moral no trabalho também. 

É necessário que se considere a evidência inelutável dos danos estendidos pela vida. Esta é minha perspectiva de objetividade ao avaliar situações de AMT – em substituição a, ou em conjunto com a REPETITIVIDADE das ações que resultam, ou são consequenciadas por danos no AMT.

Dispensável repetir o compêndio de problemas de saúde que acompanham o empregado vitimado de AMT. Não cabe, em situação alguma, a alegação de que o assediador e/ou a empresa desconheciam os danos em andamento ou que não havia dolo nas ações. 

Se não há educação organizacional para identificar e tratar situações e pessoas (vítimas/vitimizadores) cabe imputar responsabilidade por omissão à empresa – esta não pode alegar desconhecimento da lei e nem do que ocorre em suas dependências.

Uma das intervenções positivas é criar a obrigatoriedade para que as empresas façam atividades sistemáticas dedicadas às relações no trabalho, devendo fazer parte da semana de prevenção de acidentes (SIPAT), à semelhança das DSTs, tabagismo, álcool e outras drogas. Embora isto seja tarefa para os legisladores, é um indicador de responsabilidade social de uma empresa. 

O papel do judiciário é fundamental para que, além das punições materiais atribuídas às empresas, acrescente-se esta obrigação de educação com conteúdo programático estipulado através de políticas públicas delineadas pelos ministérios relacionados com trabalho, saúde, previdência e assistência.

É de causar indignação que uma questão de tamanha gravidade fique apenas no âmbito do judiciário, sem claras diretrizes governamentais, pois se equipara às mais letais epidemias.


Florival Scheroki graduou-se psicólogo pela USP há 30 anos, tornou-se Mestre em Psicologia do Desenvolvimento e Doutor em Psicologia Experimental também pela USP. Tem sido um crítico e estudioso de mudanças nas diversas instituições modernas, entre as quais e de modo particular na do trabalho, onde, como clínico, os casos de Assédio Moral têm-lhe chamado atenção especial. 
Contato: florival_scheroki@yahoo.com.br

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