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domingo, 4 de março de 2012

ASSÉDIO MORAL E A MULHER

Por: Marisa Sanabria



Todos sabemos reconhecer a violência que atinge as mulheres na forma física, mas muito comum e absolutamente devastadora e a violência psicológica. Às vezes ela é difícil de ser identificada porque não existem marcas no corpo, é um crime sem sangue, de mãos limpas, que deixa a pessoa frágil, impotente e impossibilitada de seguir seu caminho na vida.

O livro de Marie-France Hirigoyem “El acoso moral- el maltrato psicológico em la vida cotidiana”, (1) define este fenômeno de assédio como uma violência psíquica no cotidiano, na família, no trabalho etc., um verdadeiro assassinato executado com insinuações, mentiras e humilhações que desestabilizam emocionalmente a mulher, que a fazem duvidar de si e ainda transformam a vítima, em responsável pela situação.

Este tipo de violência é exercitada por um individuo perverso, que não se questiona, não consegue ter vínculos afetivos e não considera o outro como uma pessoa. Eles têm um lugar muito especial na nossa sociedade, onde o mais admirado é aquele que sabe desfrutar mais e sofrer menos; são os ganhadores, os que estão sempre por cima, nunca se entristecem nem se deprimem e não assumem compromissos em nenhuma situação; utilizam seu encanto e sedução para manipular os outros e conseguir seus propósitos. Nós os encontramos em todas as áreas, são narcisistas que pensam que o mundo está a serviço deles.

É uma situação de violência muito complexa e real, ainda que oculta, que ataca a identidade, num processo de destruição moral e desestabilização emocional que traz diversas consequências, desde doenças psicossomáticas até o suicídio.

Marie-France Irigoyem comenta que depois de analisar uma infinidade de casos, chegou à conclusão de que as terapêuticas tradicionais não eram suficientes para solucionar o problema.

A vítima não é uma cúmplice masoquista, pensa que ela está errada, não entende o que esta vivendo, mas acredita ser uma etapa no relacionamento e que as coisas podem mudar. Propõe o diálogo e procura entender, mas aos poucos vai ficando na defensiva, isolada, com medo, perdendo a vitalidade e alegria sem possibilidade de se defender da manipulação.

O tipo de relação no assédio moral tem duas fases: primeiro a sedução, atraindo o outro com mentiras, procurando fasciná-lo. A segunda é a violência, com mensagens sutis, agressões, distanciamento, sarcasmo, tentando dominar e manter uma relação de dependência.

A pessoa, no começo, não percebe e espera em algum momento um retorno afetivo, não se trata de uma relação de dominação ou autoritarismo descarado, tampouco é uma idealização ou ilusão de não ver os defeitos do outro. É uma manipulação e intenção de manter o parceiro à disposição.


Estes sujeitos que submetem os outros têm uma incapacidade de amar e de se comprometer; sempre distantes e encantadores, têm uma atitude predatória em relação aos demais e deixam por onde transitam pessoas feridas e destruídas.

A vítima não acredita que essa manipulação esteja acontecendo, teme o conflito, sente vergonha e medo, está paralisada e, quando percebe e vai compreendendo que está sendo objeto de abuso, sente raiva pela sua tolerância e sua dificuldade em reagir.

A solução é o afastamento deste tipo de indivíduo e a reconstrução da auto-estima e do equilíbrio psíquico e emocional.

Esta situação de violência é sempre exercida pelos mais próximos: parente, cônjuge, professor, chefe, colega, aqueles que conhecem a vítima na intimidade.

Estes sujeitos, na dureza da vida, encarnam a lei do mais forte. Contudo, este tipo de transtorno não é definido ainda como uma patologia psiquiátrica, ele está marcado pela crueldade e pela fria racionalidade; o perverso mata em termos psíquicos para não ser morto, suga os demais para poder existir, apontando e expondo sempre os erros alheios.

O comportamento está movido pela inveja de perceber que o outro possui talentos, projetos ou alegria de viver que eles não possuem.

Vampiros existem, diz a poetisa gaúcha Marta Medeiros, eles estão em todo lugar, parecem simpáticos e agradáveis e sugam você todinha: seu amor, confiança, tempo, ilusões, tolerância... Demoramos a perceber que não houve troca e que somos uma laranja chupada, só nos resta o bagaço.

O perverso sempre nega a agressão e o conflito, é uma forma hábil de colocar os demais como responsáveis da situação, não escutam e se negam ao diálogo. Têm uma comunicação ambígua, dizem uma coisa, mas em nível não verbal, fazem outra com o propósito de desestabilizar e confundir.

Os tempos modernos nos fazem acreditar que o individualismo seja um estilo de vida interessante, assim o egocentrismo e a aparente liberdade aparecem como estilos de comportamento a serem alcançados. 


A dificuldade de manter um compromisso afetivo é exercida por aqueles que têm um grande “eu”, uma idéia desproporcional da sua própria importância, é uma necessidade de ser admirado.

A relação começa com encanto e delicadeza mas termina com agressões e violência. Trata-se de um jogo perigoso e perverso e, muitas vezes a mulher não tem certeza de que seja uma forma de violência e não consegue identificar a capacidade do outro de arquitetar e submeter do outro. Em ocasiões, ela se sente culpada e responsável por haver provocado a situação e tenta justificar com diversos argumentos as atitudes do parceiro, colega ou chefe.

Constantes ameaças, censura, cobrança e pressão minam o equilíbrio da vítima, que entende o que aconteceu quando se afasta e consegue  manter-se distante da situação.


O que ela solicita é que se reconheça,que o que viveu foi verdadeiro, apesar de ter sido dissimulado e oculto. Nesta trama o perverso, muitas vezes, consegue inverter o jogo e quando desmascarado, de agressor se transforma em agredido.


(1) Hirigoyen,France-Marie. El Acoso Moral – El maltrato psicológico em la vida cotidiana.Barcelona: Paidós, 2006

Marisa Sanabria é Psicóloga formada pela Faculdade Católica de Montevideo; Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Autora do Livro: Rádio Favela escuta a mulher. 
Contato: msanabria@terra.com.br



P.S. Assediados 
Desculpamo-nos por havermos liberado ontem postagem com erros e sem a apresentação da escritora. Problema resolvido. 

4 comentários:

  1. Esse texto foi muito difícil pra mim, pq senti essa situação na pele e, apesar de já estar distante de tal pessoa, temos uma ligação pro resto da vida, sinto que sempre que existe uma possibilidade ele ainda faz de tudo pra manter o domínio, para manipular e diminuir e se utiliza do nosso vínculo, meu filho, para continuar com as agressões de alguma forma. Agradeço todos os dias por esse "ciclo" de torturas terem cessado e trabalho diariamente pra reconstruir minha vida e personalidade.

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    1. Para as vítimas de assédio moral, independente se foi praticado por companheiros, colegas, chefes etc., fazer contato com cenas, descrições e relatos de assédio, transporta-lhes a um mundo sombrio de tristezas e lembranças dolorosas; mas ao mesmo tempo nos coloca em um espaço de compreensão que aqueles que nunca sofreram, por mais empáticos que sejam jamais conseguirão compreender.
      O distanciamento de tais "vampiros" é um privilegio que muitos (as) infelizmente ainda não têm.
      Reconstruir a vida é uma tarefa difícil, mas não impossível.
      Estamos na luta!
      Volte sempre.
      Assediados

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  2. Tenho até vergonha de estar inserida neste texto, não como assediada mas como esposa de um individuo perverso. Digo as vítimas, não se calem denuncie para ver se acaba com esses canalhas que não tem respeito as mulheres que assediam e traem suas próprias esposas.

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