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quinta-feira, 8 de março de 2012

ASSÉDIO MORAL E A MULHER

Por: Marisa Sanabria



Todos sabemos reconhecer a violência que atinge as mulheres na forma física, mas muito comum e absolutamente devastadora e a violência psicológica. Às vezes ela é difícil de ser identificada porque não existem marcas no corpo, é um crime sem sangue, de mãos limpas, que deixa a pessoa frágil, impotente e impossibilitada de seguir seu caminho na vida.

O livro de Marie-France Hirigoyem “El acoso moral- el maltrato psicológico em la vida cotidiana”, (1) define este fenômeno de assédio como uma violência psíquica no cotidiano, na família, no trabalho etc., um verdadeiro assassinato executado com insinuações, mentiras e humilhações que desestabilizam emocionalmente a mulher, que a fazem duvidar de si e ainda transformam a vítima, em responsável pela situação.

Este tipo de violência é exercitada por um individuo perverso, que não se questiona, não consegue ter vínculos afetivos e não considera o outro como uma pessoa. Eles têm um lugar muito especial na nossa sociedade, onde o mais admirado é aquele que sabe desfrutar mais e sofrer menos; são os ganhadores, os que estão sempre por cima, nunca se entristecem nem se deprimem e não assumem compromissos em nenhuma situação; utilizam seu encanto e sedução para manipular os outros e conseguir seus propósitos. Nós os encontramos em todas as áreas, são narcisistas que pensam que o mundo está a serviço deles.

É uma situação de violência muito complexa e real, ainda que oculta, que ataca a identidade, num processo de destruição moral e desestabilização emocional que traz diversas consequências, desde doenças psicossomáticas até o suicídio.

Marie-France Irigoyem comenta que depois de analisar uma infinidade de casos, chegou à conclusão de que as terapêuticas tradicionais não eram suficientes para solucionar o problema.

A vítima não é uma cúmplice masoquista, pensa que ela está errada, não entende o que esta vivendo, mas acredita ser uma etapa no relacionamento e que as coisas podem mudar. Propõe o diálogo e procura entender, mas aos poucos vai ficando na defensiva, isolada, com medo, perdendo a vitalidade e alegria sem possibilidade de se defender da manipulação.

O tipo de relação no assédio moral tem duas fases: primeiro a sedução, atraindo o outro com mentiras, procurando fasciná-lo. A segunda é a violência, com mensagens sutis, agressões, distanciamento, sarcasmo, tentando dominar e manter uma relação de dependência.

A pessoa, no começo, não percebe e espera em algum momento um retorno afetivo, não se trata de uma relação de dominação ou autoritarismo descarado, tampouco é uma idealização ou ilusão de não ver os defeitos do outro. É uma manipulação e intenção de manter o parceiro à disposição.

Estes sujeitos que submetem os outros têm uma incapacidade de amar e de se comprometer; sempre distantes e encantadores, têm uma atitude predatória em relação aos demais e deixam por onde transitam pessoas feridas e destruídas.

A vítima não acredita que essa manipulação esteja acontecendo, teme o conflito, sente vergonha e medo, está paralisada e, quando percebe e vai compreendendo que está sendo objeto de abuso, sente raiva pela sua tolerância e sua dificuldade em reagir.

A solução é o afastamento deste tipo de indivíduo e a reconstrução da auto-estima e do equilíbrio psíquico e emocional.

Esta situação de violência é sempre exercida pelos mais próximos: parente, cônjuge, professor, chefe, colega, aqueles que conhecem a vítima na intimidade.

Estes sujeitos, na dureza da vida, encarnam a lei do mais forte. Contudo, este tipo de transtorno não é definido ainda como uma patologia psiquiátrica, ele está marcado pela crueldade e pela fria racionalidade; o perverso mata em termos psíquicos para não ser morto, suga os demais para poder existir, apontando e expondo sempre os erros alheios.

O comportamento está movido pela inveja de perceber que o outro possui talentos, projetos ou alegria de viver que eles não possuem.

Vampiros existem, diz a poetisa gaúcha Marta Medeiros, eles estão em todo lugar, parecem simpáticos e agradáveis e sugam você todinha: seu amor, confiança, tempo, ilusões, tolerância... Demoramos a perceber que não houve troca e que somos uma laranja chupada, só nos resta o bagaço.

O perverso sempre nega a agressão e o conflito, é uma forma hábil de colocar os demais como responsáveis da situação, não escutam e se negam ao diálogo. Têm uma comunicação ambígua, dizem uma coisa, mas em nível não verbal, fazem outra com o propósito de desestabilizar e confundir.

Os tempos modernos nos fazem acreditar que o individualismo seja um estilo de vida interessante, assim o egocentrismo e a aparente liberdade aparecem como estilos de comportamento a serem alcançados. 


A dificuldade de manter um compromisso afetivo é exercida por aqueles que têm um grande “eu”, uma idéia desproporcional da sua própria importância, é uma necessidade de ser admirado.

A relação começa com encanto e delicadeza mas termina com agressões e violência. Trata-se de um jogo perigoso e perverso e, muitas vezes a mulher não tem certeza de que seja uma forma de violência e não consegue identificar a capacidade do outro de arquitetar e submeter do outro. Em ocasiões, ela se sente culpada e responsável por haver provocado a situação e tenta justificar com diversos argumentos as atitudes do parceiro, colega ou chefe.

Constantes ameaças, censura, cobrança e pressão minam o equilíbrio da vítima, que entende o que aconteceu quando se afasta e consegue  manter-se distante da situação.

O que ela solicita é que se reconheça,que o que viveu foi verdadeiro, apesar de ter sido dissimulado e oculto. Nesta trama o perverso, muitas vezes, consegue inverter o jogo e quando desmascarado, de agressor se transforma em agredido.


(1) Hirigoyen,France-Marie. El Acoso Moral – El maltrato psicológico em la vida cotidiana.Barcelona: Paidós, 2006

Marisa Sanabria é Psicóloga formada pela Faculdade Católica de Montevideo; Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Autora do Livro: Rádio Favela escuta a mulher. 
Contato: msanabria@terra.com.br



P.S. Assediados 
Desculpamo-nos por havermos liberado em 04/03/2012 postagem com erros e sem a apresentação da escritora. Problemas já resolvidos. Por este motivo, e em virtude do “Dia Internacional da Mulher”, estamos republicando hoje, o mesmo artigo, no desejo de que mais mulheres sejam alertadas e que se recusem a calar diante de tais atrocidades.

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