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domingo, 29 de janeiro de 2012

ASSÉDIO MORAL: A DIFÍCIL RELAÇÃO DO ASSEDIADO COM A EMPRESA

Por: Florival Scheroki


Tenho lido algumas orientações de especialistas, em caso de assédio moral no trabalho (AMT), que merecem algumas considerações. A mais polêmica me parece ser a quem procurar quando se é vítima assédio moral.  

Será que é um bom caminho buscar ajuda dentro da própria empresa?  Em alguns casos pode ser que sim embora esta seja a exceção.

A política explícita pela empresa em manual de conduta pode não ser suficiente para dar segurança à vítima de assédio quanto à busca de ajuda internamente. Explico melhor. É comum as empresas divulgarem missão, visão e valores, mas é bem menos comum que sigam os valores, principalmente em situações em que segui-los pode trazer desvantagem competitiva.

Então, escrever e divulgar princípios e valores, em quadros e palestras, que incluam o respeito nas relações de/no trabalho não significa que isto vá de fato ocorrer, ou que as infrações serão inibidas ou punidas. Contudo, sabemos que há empresas que levam a sério esta questão do AMT, quer seja por uma questão de princípios ou de valores, incluindo os valores monetários que o AMT pode gerar de prejuízos. 

O que fazer quando se percebe vítima de assédio (AMT)? 

Tenho visto algumas pessoas decepcionadas após buscarem ajuda internamente, na empresa. Um colega do RH pode saber melhor a receptividade esperada de uma queixa de AMT, mas não é garantia de que o caso será tratado sem trazer mais danos a quem se queixa.

Administrações sérias costumam estar preocupadas em inibir tais condutas de AMT. E, numa demonstração de comprometimento com a valorização das relações no trabalho costumam agir preventivamente e não ficar esperando que haja uma denúncia de maus-tratos ou perseguição, para só então correr atrás de uma solução.

Uma empresa que não toca no assunto, como se não existisse AMT em seu ambiente, já é um indicador para que uma vítima de assédio (AMT) busque orientações externas à empresa, antes de se dirigir às instâncias internas.

Embora a existência de condutas de AMT envolva, também, características e tendências pessoais de assediadores e assediados, tais condutas, numa empresa, são de responsabilidade dela e, cabem à ela, empresa, as medidas de prevenção e inibição das condutas.

Assédio Moral no Trabalho (AMT) não é uma fatalidade e sim uma constatação de negligência e/ou complacência, à semelhança do que ocorre com outros acidentes (ou doenças) do trabalho, em que as fontes, agentes etiológicos ações ou situações costumam ser mais visíveis e receberem, portanto, mais atenção e controle.

Quando o empregado busca apoio interno, em especial no RH ou na área de saúde ocupacional (SSO), pode-se presenciar, em muitos casos, um conflito de valores e interesses (reconhecer ou não a existência de AMT? Se sim, dar ou não ajuda a quem está denunciando, pedindo socorro? Ou será que é melhor fazer vistas grossas, desconversar e negar a ocorrência de AMT?).

Normalmente, procura-se legitimar a negação atribuindo os maus-tratos a meras diferenças individuais, associados a fatores externos e particulares da vida pessoal. Em casos aberrantes, a empresa tende a atribuir os danos decorrentes do AMT a doenças de suposta origem interna e pessoal, como a depressão e a sensibilidade, aumentadas por  fatores ambientais e relacionais.

Dificilmente, fatores ambientais, aí incluídos os inerentes às relações desumanas na organização do trabalho, são reconhecidas como elementos etiológicos (causadores). É conveniente para muitas empresas depositar sobre o empregado a responsabilidade por não suportar as condições de relacionamento no trabalho.

Ao apelar para estas explicações, de âmbito individual, está-se a negar a existência do fenômeno do AMT como responsabilidade da empresa para prevenção e tratamento.
O objetivo parece ser livrar a empresa da incumbência legal de lidar com o problema e isentá-la dos eventuais prejuízos financeiros que podem decorrer.

É esperado que um colega próximo da vítima apresente argumentos que “culpem”, mais uma vez a presa fácil, retratando a empresa de modo idealizado, fantasioso, mesmo quando também foi vítima de AMT em algum período.

Conheço relatos de pessoas que choraram quando a assediadora foi transferida de planta, numa clara demonstração de autodefesa (ou autopreservação), não consciente. Essas lágrimas e lamentos, quando um algoz é afastado, são conhecidos.

Quando um colega da empresa é administrativamente envolvido com a situação de AMT, como ocorre com os gestores de RH e SSO e com a alta administração, é provável que vá defender a empresa nos âmbitos administrativos e judiciais. O lema é: as organizações devem ser preservadas a qualquer custo enquanto os indivíduos são substituíveis. É a lógica das guerras: o importante não é o número de baixas e sim a vitória na guerra. 

É comum vermos países e empresas fazendo autoinvestigações sobre denúncias contra eles. É dispensável dizer qual a tendência da maior parte destas ouvidorias ou sindicâncias. 
Algumas poucas empresas têm suas ouvidorias internas reconhecidas por organizações de classe. Os valores das pessoas mudam conforme as circunstâncias assim como parece ocorrer com os valores das empresas. Uma ouvidoria independente, externa, é uma atitude de controle para garantir a lisura do processo, reconhecidamente de difícil condução quando realizada em âmbito interno apenas.

Deve haver um contrato explícito, multipolar, envolvendo organizações de classe, empresa e consultoria externa com a definição dos papéis e das condutas previstas para enfrentamento do problema, preferencialmente com o uso de recursos promocionais envolvendo as partes.

A garantia de sigilo deve se dar num termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) que resguarde o papel, a credibilidade das partes e a lisura do processo de condução. Para o enfrentamento dos conflitos com AMT é fortemente recomendável a presença de profissionais do comportamento acostumados a atuar em conflitos de Comunicação e Relacionamento no Trabalho (CRT).

Os trabalhos preventivos e corretivos exigem uma construção ou reconstrução de valores e práticas pautados no respeito aos propósitos individuais sem prejuízo da missão social de uma organização.

Voltemos ao assediado. Chamo a atenção para a delicada situação que vive o assediado no trabalho. Se ele se queixa internamente corre o sério risco de ver recrudescer o ostracismo – o que é mais comum do que se imagina – vindo a adoecer e/ou pedir demissão e/ou “ser o motivo” para ser demitido, em particular por justa causa, para que enfraqueçam seus argumentos diante de uma ação judicial no futuro. É uma “sinuca de bico” em que se estabelece um círculo destrutivo crescente nas relações de trabalho na empresa, no assediado e, por decorrência, na família do assediado.

Ações judiciais podem ser evitadas com a mediação externa por consultoria comportamental em Comunicação e Relacionamento no Trabalho (CRT), focalizada em solução de conflitos através de mediação. Mas, para que isto seja implantado é necessário o reconhecimento e aceitação da “falibilidade” dos gestores, o que nem sempre se verifica.  Nossa experiência neste âmbito tem-se mostrado bastante exitosa quando a onipotência da empresa com “soluções fáceis” dá lugar ao investimento em mudanças culturais permanentes na qualidade das relações no trabalho.


Onde buscar ajuda quando se vê vítima de assédio?

Se a empresa não tem um plano de enfrentamento com educação preventiva explícita, para todos, e que comporta também estratégias para coibir tais ações efetivamente, minha recomendação é que busque ajuda fora da empresa, seguindo uma hierarquia de importância das fontes de ajuda.

A primeira fonte de apoio é a família. E estou me referindo ao empregado vítima de Assédio Moral no Trabalho em uma empresa complacente ou “desconhecedora” de tais práticas.  A vítima deve informar os membros significativos da família os detalhes do que se passa e pedir apoio para outras medidas de enfrentamento efetivas. 

A família costuma ser a principal fonte de apoio consequente, o espaço que padece junto com a precarização das relações de/no trabalho e com a demissão em que costuma culminar.
Apoio e decisões em família tem-se se mostrado altamente eficientes e exitosos para o enfrentamento destas situações e de outras que envolvem impactos relevantes sobre o grupo familiar ou um de seus membros.

Considero a apoio familiar a pedra angular para a condução da situação. Certamente que é importante obter o apoio de amigos (de fora ou de dentro), mas é fundamental que a família saiba do que se passa e ajude a decidir e/ou fazer o que for necessário para a proteção da vítima de assédio.

Não esqueçamos que o assédio moral, ou como chamam os britânicos (mobbing) – termo que vem do estudo do comportamento animal (etologia) – é comumente visto em documentários sobre a sobrevivência na selva.

É comum entre diversos mamíferos a predação do mais lento, do doente ou do isolado, mesmo que não seja lento ou doente. O assédio animal, assim como o assédio moral no trabalho, depende de circunstâncias favoráveis ao ostracismo para que se isole a presa.

Mesmo quando a vítima é competente, o isolamento vai minando a confiança, a vitalidade e sangra aos poucos – desestabilizando como se costuma dizer – até que o empregado (tal como um animal perseguido na selva) escorrega, cai e vira “carne de frigideira” e “banquete para abutres”.

Foge ao escopo deste artigo explicar porque as coisas ocorrem desta maneira. É importante que saibamos como elas ocorrem na atualidade e como nos proteger.

As condutas predatórias evoluem como as do crime organizado. Mudam-se os controles e os cenários e logo vemos novas formas, para se adaptar às novas leis e situações. Muda a topografia do comportamento e mantém-se a função predatória, que não deixa de cumprir os objetivos e resultados implícitos nas condutas de AMT.

Até mesmo os países terceirizam algumas maldades para fugir à criminalização. É o caso de países que contratam mercenários para torturar e fazer outros serviços sujos nas guerras.

A terceirização de malfeitos encontra-se em outras esferas da vida pública e privada. No Brasil temos diversos setores de serviços públicos que são terceirizados. Esta terceirização torna mais fácil contratar, demitir e punir – ou seja, estabelecer condutas coercitivas para produzir números para eleições à custa de pessoas que adoecem. Embora não se possa generalizar uma Organização Social de Saúde (OSS), por exemplo, pode evitar os “controles previstos” e associar o mau uso do dinheiro da Saúde Pública ao abuso de poder no trato com os trabalhadores.

Deixar que as empresas encontrem soluções com seus próprios “acertos e erros” é como aguardar que uma pessoa aprenda a ler e escrever por conta própria. Vamos ter uma aprovação automática de analfabetos funcionais. Já conhecemos este cenário. Para ser mais próximo do que conhecemos, é deixar que as relações entre empregados e empregadores se autorregulem à semelhança do que se esperava acontecer com o deus “Mercado Financeiro” coordenado pelo FMI, agências de risco e outros. Já sabemos no que deu a economia mundial e não precisamos esperar para ver quantos mais vão adoecer e morrer em condições de trabalho desumanas.

Então, por um princípio de precaução, não recomendo que se busque apoio dentro da empresa antes que haja diversos apoios fora dela. Já falei da importância da família e dos amigos de fora. Esta ajuda não pode se limitar a ouvir queixas. Ouvir queixas não muda a situação. Os vitimados de assédio moral no trabalho precisam mudar e/ou sair da situação. E quando saem da situação ficam outras pessoas como potenciais vítimas. 

É indispensável consultar um advogado trabalhista. Por mais que a mídia divulgue orientações, quando a coisa ocorre em nossa casa, não se pode prescindir de um advogado de confiança. Isto, depois de termos uma rede de apoio familiar e de amigos, que com seus olhares de fora, podem escutar as queixas e ajudar e/ou acompanhar na busca das próximas fontes de enfrentamento. Precisamos ser muitos para enfrentar uma organização para não sucumbirmos. A confiança nas fontes de ajuda mitiga o sofrimento e promove a resolução.

Outra ajuda que considero relevante é a de profissionais de saúde mental – claro – sem dispensar a busca de um médico generalista para monitorar a saúde física da vítima, que vai se deteriorando. Um psicólogo pode ajudar a desenvolver habilidades de enfrentamento, o que inclui a busca de outros pontos de apoio. Os danos decorrentes do AMT não são algo a ser cuidado por apenas uma fonte. Família, amigos, psicólogo, psiquiatra, médicos, advogados, órgãos de classe (sindicatos) e outros, devem compor nossa linha de frente mínima.

Recomendo que as vítimas de AMT busquem ajuda dentro da empresa somente depois de estarem bem ancoradas e orientadas pela frente de apoio externa mencionada acima. A empresa não é nossa família e tem seus próprios interesses para defender. O que não implica que não haja gestores e empresas socialmente responsáveis. Em casos de assédio moral (AMT) os interesses do empregador podem colidir com os interesses dos empregados. Nestes momentos corre-se o risco de ver a carta de princípios e valores organizacionais, relativizada ou esquecida.

Um empregado da empresa está, em princípio, comprometido em defender os interesses da empresa. Eventuais conflitos, com dissonância cognitiva, costumam ser facilmente ajustados para diminuir a tensão de “amigos em posição de gestores”. Não há razão para acreditar que o médico terá uma conduta diferente de outros empregados da empresa. A empresa que paga os soldos do chefe que assedia alguém é a mesma que paga o salário do médico do trabalho.

Assim como não deveria haver condutas desumanas entre um gerente e seus subordinados, também não deveria haver condutas desumanas entre um médico, psicólogo ou assistente social e seus clientes internos (outros empregados). Mas estes profissionais não constituem classes à parte dos mortais. Estes profissionais costumam ouvir relatos de pessoas em estado de fragilidade por diversas razões, incluindo as de AMT. Estas categorias profissionais são confiáveis e têm um papel relevante na sociedade. Chamo a atenção para as circunstâncias em que atuam – são empregados de uma empresa que lhes paga o sustento próprio. O contrato psicológico (o que está implícito para fazerem) propícia conflito de interesse.

Esta é uma realidade à que todos estamos sujeitos, independentemente da ocupação ou profissão. Por isto, enfatizo a importância de, inicialmente, buscar apoio fora da empresa, para só então, recorrer às instâncias administrativas da empresa. Por um princípio de cautela e proteção sugiro que esta regra seja seguida mesmo quando a empresa tem demonstrações inequívocas de combate ao AMT.

Ilustrando. Há algum tempo, "A" me disse que fora encaminha a um tratamento psiquiátrico numa clínica conveniada com a empresa. A própria empresa agendara a consulta depois de ter-lhe concedido quinze dias de licença médica por “ansiedade” e “depressão”. Pouco tempo depois do retorno da licença "A" foi “disponibilizada para o mercado de trabalho”. Interessante esta frase demissional, mas foi isto mesmo que A ouviu; dedicou-se por quatro anos à empresa, até ficar doente, e agora é dispensada em estado precário de saúde. Que chances tem A de ser aprovada para outro emprego considerando o estado de saúde em que é “disponibilizada”?

Esta é a lógica preponderante num “mercado de trabalho” em que não há mais a corporificação do trabalho (vínculos duradouros) e os humanos foram rebaixados à condição de “recursos ou capital humano”. Valemos dinheiro enquanto estamos sadios, com dentes e nervos intactos.

Desaconselho, também, que se recorra a tratamentos de saúde mental conveniados com a empresa. Isto não quer dizer que não haja clínicas e profissionais sérios, técnica e eticamente. Ocorre que, como leigos, e em estado de fragilidade (hipossuficiência – gosto desta palavra) podemos não saber ou não ter recursos para avaliar estes indicadores institucionais. A saída pode ser partir das relações de confiança familiares/amigos –  as mais básicas – para encontrar um local e profissionais com quem se possa sentir seguro. Não é muito diferente em outras circunstâncias da vida. É verdade que estes profissionais têm um código de ética a ser seguido. Também é verdade que este mesmo código de ética vale para o trabalho dentro da empresa.

Não nos esqueçamos de que o prontuário da presidenta (e não de um funcionário qualquer de uma empresa qualquer) Dilma Rousseff, foi vazado do hospital em que se tratava (e, diga-se de passagem, dum hospital de primeira linha). Não nos esqueçamos de que têm ocorrido diversas denúncias de vazamento de dados da receita federal, para não me prolongar mais.

Então, se precisar de um apoio em saúde mental, recomendo que busque particular. Reitero que as circunstâncias especiais de vínculos com empresas ou profissionais – ainda que tenham garantias legais de sigilo – podem ter usos desautorizados por razões desconhecidas. Proteger-se em estado de fragilidade implica proteger informações a seu próprio respeito também.

Reitero que quanto mais cercamos as condutas de AMT, mais se sutilizam as artimanhas do assediadores. Semelhante ao que ocorre no âmbito de outras criminalidades, com o crime organizado. Mas tem solução, depende de todas as partes e será bom para todas elas.

Dito isto, reitero que as precauções sugeridas por mim se pautam no conhecimento de alguns fatos que me chegaram ao conhecimento. Minhas considerações são aplicáveis aos serem humanos que, como eu, estamos sujeitos às pressões e influências das contingências em que vivemos.


Florival Scheroki é Psicólogo pela USP com doutorado em Processos Cognitivos e Afetivos nos Modelos de Relacionamento e Apego. Atua em Comunicação e Relacionamento no Trabalho (CRT) com ênfase em Mediação de Conflitos e Treinamento para Gestores, além de atividades clínicas e docentes.

2 comentários:

  1. Cara, que conselho massa.
    Se eu soubesse disso tudo antes minha vida era outra hoje.
    Tomara que muita gente veja isso pra saber o que fazer, porque eu to desempregado por nao saber de tudo isso antes.
    Os conselhos que recebi sempre foram de primeiro procurar a empresa, e foi o que eu fiz. Mas até a psicologa da empresa ficou com medo de ser vista falando comigo dentro da empresa. O que mais eu podia fazer? Acabei doente e desempregado. Se eu tivesse feito o caminho diferente podia ainda ter meu trabalho hoje. Valeu muito ler isso, se pra mim veio tarde, pode ser a hora certa pra outros.
    José Roberto

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  2. Meu caro José Roberto,
    Infelizmente a realidade de grande parte dos assediados é essa, adoecimento e descarte.
    O desejo do "Assediados" é diariamente, levar informação e esclarecimento a quem estiver na busca por respostas e compreensão do sofrimento que é o assédio moral no trabalho.
    Volte sempre e divulgue o link a todos os seus contatos. É com atitudes simples que começamos a fazer a diferença no mundo.
    Gratos por seu comentário
    Assediados

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