"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


domingo, 15 de janeiro de 2012

Cuidado, você pode estar sendo vítima de assédio moral no trabalho

Coraline atravessa a passagem para o mundo perfeito, no filme "Coraline e o mundo secreto"



Uma boa maneira de compreender melhor o meu ponto de vista, é assistir ao filme "Coraline e o mundo secreto", de Henry Selick. Na história, uma menina se muda com seus pais para uma nova casa, onde descobre uma passagem secreta para um mundo em que tudo é perfeito: ela é o centro das atenções e seus pais são carinhosos e atensiosos, diferentemente do mundo real em que vive. Com o desenrolar da trama, Coraline descobre que a mãe perfeita que habita essa nova realidade, é dona de uma personalidade que a psicologia define como "narcisista", cujas características mais marcantes são o egoísmo, o exibicionismo e a vontade insaciável de controlar e dominar o outro.

Demorei muito tempo pra compreender o que aquela experiência profissional havia significado pra mim. Como Coraline, o início foi maravilhoso: elogios, compreensão e uma nova realidade estimulante e repleta de oportunidades. Com o passar do tempo, uma série de situações estranhas e contraditórias começaram a chamar a minha atenção. Em síntese, o discurso adotado naquele ambiente de trabalho não correspondia ao que acontecia na prática. 

Depois de muita leitura e conversa com outras pessoas, e principalmente com o distanciamento proporcionado pela demissão, consegui juntar várias pecinhas desse enorme quebra-cabeças que havia se construído ao meu redor. Afinal de contas, por várias vezes fiquei me perguntando onde eu tinha falhado. Carregava uma culpa enorme pelo suposto fracasso que me era atribuído. Em uma pesquisa na internet, encontrei um artigo acadêmico que abordava alguns aspectos do assédio moral no trabalho, dentre eles a personalidade do assediador. "Na personalidade do narcisista, Ket de Vries e Miller (1990 apud PAULA, 2004) encontraram como desordens o sentimento de suficiência e singularidade; o exagero na avaliação de suas próprias realizações e talentos; a fixação em fantasias de sucesso, poder, inteligência superior e beleza; a tendência ao exibicionismo; e a suscetibilidade ou intolerância à crítica".

Aquelas palavras me saltaram aos olhos. Como era possível alguém descrever com exatidão a personalidade de alguém com quem eu havia convivido por tanto tempo, mas que nem eu mesmo conseguia definir com tanta clareza? O artigo continuava sua descrição da personalidade narcisista do assediador: "finge que é sensível e amigo dos trabalhadores não só no trabalho, mas fora dele. Quer saber dos problemas particulares de cada um para depois manipular o trabalhador na "primeira oportunidade" que surgir, usando o que sabe para recebê-lo" (...) É confuso e inseguro. Não tem clareza de seus objetivos, dá ordens contraditórias. Se algum projeto ganha os elogios dos superiores ele apresenta-se para recebê-los, mas em situação inversa responsabiliza os subordinados pela "incompetência".

Mas o que mais chamou a minha atenção no artigo, foi a descrição do perfil psicológico de quem costuma ser vítima do assédio moral no trabalho:

"A vítima do terror psicológico no trabalho não é o empregado desidioso, negligente. Ao contrário, os pesquisadores encontraram como vítimas justamente os empregados com um senso de responsabilidade quase patológico, são ingênuas no sentido de que acreditam nos outros e naquilo que fazem, são geralmente pessoas bem educadas e possuidoras de valiosas qualidades profissionais e morais. De um modo geral, a vítima é escolhida justamente por ter algo mais. E é esse algo mais que o perverso busca roubar. As manobras perversas reduzem a auto-estima, confundem e levam a vítima a desacreditar de si mesma e a se culpar. Fragilizada emocionalmente, acaba por adotar comportamentos induzidos pelo agressor. Seduzido e fascinado pelo perverso o grupo não crê na inocência da vítima e acredita que ela haja consentido e, consciente ou inconscientemente, seja cúmplice da própria agressão.

Portanto, a vítima do assédio moral não é uma pessoa pacata, sem opinião própria, que fica em seu canto somente esperando o salário no final do mês ou simplesmente um executor de tarefas pré-determinadas. O agressor não se preocupa com este tipo de pessoa, pois esta não lhe ameaça o cargo, não transmite perigo. A vítima em potencial é aquela que leva o agressor a sentir-se ameaçado, seja no cargo ou na posição perante o grupo. A vítima é, normalmente, dotada de responsabilidade acima da média, com um nível de conhecimento superior aos demais, com uma auto-estima grande e, mais importante, acredita piamente nas pessoas que a cercam. A revisão bibliográfica apontou como principais perfis para as vítimas de assédio moral:

-Saudáveis, escrupulosos, honestos;
-As pessoas que têm senso de culpa muito desenvolvido;
-Dedicados, excessivamente até, ao trabalho, perfeccionistas, impecáveis, não hesitam em trabalhar nos fins de semana, ficam até mais tarde e não faltam ao trabalho mesmo quando doentes;
- Não se curvam ao autoritarismo, nem se deixam subjugar;
-Pessoas que estão perdendo a cada dia a resistência física e psicológica para suportar humilhações;
-Os que têm crença religiosa ou orientação sexual diferente daquele que assedia"

Quem me conhece sabe do meu senso de responsabilidade e perfeccionismo. Sabe também que não me curvo ao autoritarismo. Uma série de situações e lembranças me vieram à mente à medida em que eu lia o artigo, e o fato é que não precisei ler nem mais uma linha pra concluir que sim: eu havia sido vítima de assédio moral no trabalho. 

Posso vislumbrar a boca aberta de quem conviveu comigo naquele período, ao ler os trechos reproduzidos acima. Sei que vão reconhecer imediatamente e sem muito esforço a figura do assediador e do assediado. Por outro lado, espero que essa "revelação" tenha o mesmo efeito reconfortante que teve em mim: o de acalmar o coração e desfazer o que de mais perverso faz o assediador, que é induzir você a se sentir culpado e desacreditado em si próprio.

E que isso sirva de alerta. Abra bem os olhos: você pode estar sofrendo assédio moral no trabalho.

2 comentários:

  1. Bravo, Bravo

    Como tudo tem uma lógica, também nesses casos encontramos os pontos comuns, o poir é saber que ainda tantos sofrem e não precebem, conheço um caso de um Setor inteiro onde os chefes, incompetentes lógico, humilham seus funcionários e fazem complôs para desestruturar e mostrar autoridade, francamente.

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  2. Realmente, você tem toda a razão.
    Comportamentos irracionais como o do assédio moral no trabalho, só podem vir de mentes incompetentes, inseguras e doentias.
    Volte sempre!
    Assediados

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