"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Como tratar o assédio moral nas empresas?

Especialistas afirmam que o treinamento ético e a mediação de conflitos podem ajudar as empresas a lidar com o assunto.


Escrito por Marianna Moreira

Nós nos relacionamos com diversas pessoas de formação cultural, religiosa, moral e sexual diferentes da nossa. Em um mundo globalizado, interação é palavra de ordem. No universo empresarial isso não é diferente. Várias empresas são multinacionais e, na busca por profissionais qualificados ou de um emprego melhor, estrangeiros e brasileiros devem trabalhar em equipe.

Diante desse cenário de diversidade, os líderes, gestores e empresários devem estar atentos ao ambiente de trabalho para manter a qualidade, a harmonia e o equilíbrio e, ainda, evitar problemas futuros, como os casos de assédio moral entre seus colaboradores.

Segundo a psicóloga, Júlia Ramalho Pinto, Mestre em Administração de Empresas e coach, assédio moral é o constrangimento constante do trabalhador de tal forma que acabe comprometendo a dignidade, a saúde física, mental ou a própria carreira profissional. Esses constrangimentos podem ser ameaças constantes de demissão, ofensas pessoais, sobrecarregas de horário, impedimento que os colegas se relacionem com a vítima, entre outros.

Somente no Brasil, aproximadamente 39,5% dos trabalhadores sofrem com abuso verbal e humilhações no ambiente de trabalho. Isso reflete não apenas na saúde da vítima, mas também no ambiente organizacional, causando desmotivação, estresse e baixa produtividade. 

“Não há dúvidas que um ambiente de trabalho agradável contribui muito para a qualidade de vida do colaborador, de seu trabalho e, consequentemente, para a lucratividade de uma empresa. Pressões, estresse e cansaço podem fazer parte do dia-a-dia do trabalhador, mas, humilhação e constrangimento constante, além de ser crime, é pouco eficiente como gestão. Se o gestor agir de forma mais colaborativa e respeitosa ele terá mais criatividade, leveza e provavelmente resultados melhores”, alerta a psicóloga.

Treinamento

Problemas como esse desestrutura o ambiente de trabalho. Para evitar e, até mesmo, identificar situações de constrangimento entre funcionários, a Estação do Saber Coaching e Mediação, em Belo Horizonte (MG), desenvolveu um treinamento para líderes em ética com foco nos relacionamentos e no assédio moral.

Segundo Júlia, empresários e gestores são constantemente chamados a tomar decisões nas quais, consciente ou inconscientemente, os valores que orientam suas vidas e seu estilo são impressos nos relacionamentos. Por isso, um treinamento com esse foco pode contribuir não só com a postura diante de um individuo com educação e pensamentos diferentes, mas, também, nas decisões que esses gestores devem tomar com relação à empresa.

“Devemos estimular essas pessoas a olharem 360 graus sobre o impacto de suas ações e decisões. Nos treinamentos que ministro sobre o tema, sempre procuro ampliar a forma como esses gestores enxergam suas decisões e refletem sobre as consequências”, diz Júlia.

Quando o assédio toma proporções maiores

Quando o assédio moral ultrapassa as fronteiras da empresa e se transforma em ação judicial, a mediação pode ser uma ferramenta para solucionar o problema e/ou evitar maior transtorno para as partes.

Segundo a psicanalista e mediadora da Estação do Saber, Rita Andréa Guimarães de Carvalho Pereira, a mediação é uma alternativa milenar, agora institucionalizada, que traz uma mudança de paradigma na resolução de conflitos, permitindo, assim, a reestruturação das relações.

“Tendo a escuta como alternativa, a mediação possibilita aos participantes, através da construção de narrativa, a chance de reverem suas verdades, promovendo flexibilidade e empatia. Auxiliados pelo mediador, os colaboradores desarmam suas resistências, permitindo-se falar de suas dificuldades, enxergando o outro e a demanda da mediação de outra forma. A partir da mudança de padrões comportamentais, linguísticos e relacionais contribui-se para uma solução satisfatória para todos”, afirma.

Para a mediadora, muitas vezes, nesses casos de assédio moral no trabalho, falta sensibilidade e comunicação entre as partes. “Em muitos casos, uma conversa e um pedido de desculpas soluciona esse tipo de problema. Falta sensibilidade do ‘agressor’ de não perceber que sua atitude atinge negativamente o outro e não há comunicação da ‘vitima’, muitas vezes por medo, em expressar aquilo que o incomoda. A mediação faz essa ponte entre vitima e agressor”, explica Rita.

(*) Marianna Moreira é jornalista da Assessoria de Imprensa Estação do Saber: Ampla Comunicação

domingo, 30 de dezembro de 2012

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Relato 32 (Carta de assediada a um Juiz)


Senhor Juiz,

Gostaria de estar calma naquele dia, como estou agora, e que as minhas idéias fossem claras como são neste momento.

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Posso lhe assegurar que estar sentada à sua frente, foi uma das piores coisas que já tive que enfrentar. Não que o senhor fosse feio ou de aparência assustadora, pelo contrário...  mas a forma como o Senhor conduziu suas perguntas foi de fato aterrorizante e me deixaram de certa forma travada, paralisada.  O senhor me interrogou, e me interrompeu várias vezes dizendo: “responda apenas sim ou não”. Infelizmente Senhor juiz, tudo que vivi e sofri não é possível resumir com sim ou não. Por isso saí da sua sala ao fim de tudo, com uma sensação horrível de dever não cumprido.

O senhor me perguntou se quando voltei ao trabalho minha assediadora me tratava de forma normal, eu lhe respondi que superficialmente sim, mas por trás ela falava mal de mim, dizendo que eu era perigosa, para as pessoas terem cuidado comigo e para que as pessoas tivessem medo de mim e se afastassem de mim.  Gritar comigo realmente, ela não gritou mais. Mas não foi possível lhe dizer, por exemplo, que ela me deixou vários dias sem nenhuma atribuição e me tirou todas as que eu tinha antes, dando-me apenas atribuições descartáveis, e que sugestões ou qualquer outra interferência minha nas reuniões gerais eram ignoradas desdenhosamente, mesmo aquelas onde eu era a única especialista no assunto. Também não foi possível lhe dizer que me foi tirado o acesso às senhas dos computadores que todos os colegas tinham e que se suspeitasse que eu houvesse “descoberto” a senha, era uma correria velada pra trocar a tal senha para que eu não tivesse acesso a nada...

Eu pleiteava horas extras também Senhor Juiz. Na nossa conversa o senhor me perguntou se determinado trabalho técnico que eu fizera, fazia parte de minhas atribuições. O Senhor acha mesmo, que eu me sentaria à sua frente para dar um tiro no pé? E se não fizesse parte das minha atribuições, como explicar que o tal trabalho tenha participado de Congressos e eventos e tenha se tornado padrão de referência em todo o município. Sabe Senhor Juiz, eu nem teria me importado que o Senhor não tivesse me dado as horas extras, que o Senhor dissesse que eu não fizera mais do que minha obrigação, mas gostaria que tivesse me ouvido, porque é impossível resumir um livro em um simples: “Sim” ou “Não”.

Eu lhe respondi: “acho que não”, e o Senhor deu a conversa por encerrada. O senhor achou mesmo que as minhas palavras respondiam tudo que o senhor queria ouvir? Porque não me perguntou por que eu achava que não? Quando lhe disse “acho que não”, queria lhe dizer que tudo o que fiz ia muito além das minhas atribuições. Que o amor que dediquei a aquele trabalho ia muito além. Que as madrugadas que passei acordada por aquele trabalho, iam muito além. Que toda a energia que dediquei por mais de quatro anos a aprimorar aquele trabalho, iam muito além.

Se o senhor me perguntasse se fiz tudo aquilo pra ganhar horas extras, a resposta seria facilmente exata, NÃO. Mas depois de ser descartada por Justa Causa, acusada de forma vil, covarde e traiçoeira, de estar difamando a empresa, quando ela através de uma preposta sua, me adoecera e tripudiara... Acho que seria justo, muito justo, muito mais que justo, que eu fosse ressarcida e remunerada por isso.

Hoje enquanto lhe escrevo, ainda não sei qual será a sua sentença no meu caso. Só gostaria que soubesse o quão triste me sinto, por ter sido usada e descartada por aqueles que poderiam e deveriam ter me protegido. Por ter sido obrigada a ouvir do preposto da empresa sem poder reagir, que eu deixava de cumprir com as minhas obrigações, que eu não visitava meus clientes. Porque será que eu sendo assim tão incompetente, nunca recebi uma advertência sequer?  

O senhor se lembra Senhor Juiz, como em todas as oportunidades que teve, o advogado da empresa insistia em derrubar o laudo do INSS que me deu o benefício em caráter acidentário? Na última oportunidade inclusive, eles pediram até que as provas dadas por mim ao INSS fossem expostas. Pois vou lhe dizer uma coisa Senhor Juiz, se o Meritíssimo tivesse atendido ao pedido deles eu teria que ter exposto pessoas que ainda trabalham lá, e por querer protegê-las, não solicitei os seus depoimentos. Mas ao INSS eu mostrei tudo o que eu tinha de provas, e certamente para eles, foram provas irrefutáveis e deram veracidade às minhas palavras.

Eu sei que corria e corro o risco, Senhor Juiz, de que minhas outras testemunhas não tenham sido fortes suficientes para corroborar as minhas afirmações, e insuficientes para o seu convencimento. Mas sou uma mulher de palavra, e jamais prejudicaria alguém deliberadamente. Que garantias de segurança eu poderia dar às minhas testemunhas que ainda trabalham lá,  mesmo que a lei diga que elas não podem ser punidas por testemunhar, depois delas terem visto a empresa forjar a minha demissão por justa causa aos 45 dias de um período de estabilidade de 365 dias?

Eles me acusaram Meritíssimo, de estar denegrindo a imagem deles aqui neste espaço. Como se pode ver, um espaço sem nome e sem rosto, que pode ser de nenhum, ou de qualquer um que queira se desabafar e ser ouvido.

Eles entraram na minha rede social e imprimiram o rosto de todos os meus contatos e anexaram ao processo. Eles destacaram os meus contatos que eram seus funcionários, entraram em suas contas fazendo-se de amigos, e imprimiram compartilhamentos meus em seus murais. Eu lhe pergunto Meritíssimo: Até os amigos que seus funcionários podem ter, e os assuntos que podem ser compartilhados em seus murais, precisa passar por prévia autorização do empregador?

Eles imprimiram páginas de conversas minhas que não são públicas a eles, já que não fazem parte da minha rede de amigos, nem dos meus amigos, que tiveram suas conversas comigo anexadas ao processo. Imprimiram também todos os concursos que participei desde a minha demissão da empresa e anexaram ao processo.

O que isso significa Senhor Juiz? Que depois de ser demitida por justa causa, de ter que devolver a eles até o adiantamento do 13º. recebido nas férias e  ter que ver entrar na minha conta corrente R$ 382,00 (para quem tinha um salário bruto de quase R$6.000.00) eu iria ficar sentada na calçada esmolando em vez de arregaçar as mangas e ir ao menos procurar trabalho?

O Senhor me perguntou Meritíssimo, se eu estava trabalhando e eu lhe respondi que fazia trabalhos eventuais, o que não lhe contei Senhor Juiz, é que continuo em tratamento psiquiátrico e que todas as vezes que volto à minha médica ela me encaminha de volta ao INSS, mas que eu teimosamente resisto em retornar, pois fico sempre na esperança que alguém me chame para trabalhar. Sempre fico pensando e acreditando que a minha cura está no trabalho. Também não lhe contei Senhor juiz, que participei de um concurso onde fiz uma excelente pontuação que me colocaria entre os primeiros colocados, mas que no entanto, fiquei entre os desclassificados porque tive um lapso de memória e a quarta coluna do gabarito com 10 questões das quais acertei 9, simplesmente deixei  a lápis e não pontuei. Só acreditei porque recorri e vi com meus próprios olhos. Desolada com a situação abandonei o tratamento por 4 meses.

Senhor Juiz, eu participei também de um processo seletivo neste município, mas sabe a que conclusão cheguei? Que mesmo classificada, nunca me chamarão para trabalhar. Acho até que foi inocência minha participar. Escutei da própria Coordenadora da minha antiga empresa, poucos dias depois do meu retorno ao trabalho, que a Prefeitura “avisa” quando algum “parceiro” tenta contratar alguém que deu “problema” em outro lugar. Ou seja, existe uma “lista negra” onde os ex funcionários considerados “problema”, figuram. E certamente para eles eu fui um grande problema, ou não teriam feito comigo toda a maldade que fizeram.

Sabe Meritíssimo, quando comecei a lhe escrever esta carta eu estava chorando, no entanto agora, me sinto um pouco mais leve. É por isso que mando os meus Relatos para serem publicados, para me sentir mais leve, e para que outros, lendo a minha história aprendam como se defender, como conseguir provas e até como se portar na frente de um juiz, pra não sair de lá com a mesma sensação de engasgamento que eu saí. Muito embora eu tenha sabido de outras pessoas (vítimas e testemunhas) em outras audiências, e com outros juízes, que se sentiram mais a vontade e menos pressionados do que eu me senti pelo Senhor.

Quem sabe o Senhor também não seja vítima do sistema, quem sabe também o senhor seja pressionado a cumprir sua produção e por isso precise nos fazer responder com SIM e NÃO o que na verdade temos um livro pra dizer? Se for isso Meritíssimo, eu sinto muito, por nós dois.



Assédio Moral Adoece e Mata.

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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Relato 31 (Meu irmão)


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Meu nome é “Jota”, e estou aqui para contar a história do meu irmão. Acredito que quando se é o irmão mais velho, para o resto da vida nos sentimos responsáveis e atingidos, quando algo de ruim acontece a um deles. Sou dez anos mais velho que o meu irmão, e me sinto magoado e ofendido por ter que ouvir de um jovem tão cheio de sonhos e planos, o quanto se sente infeliz, intimidado e desestimulado com o seu trabalho.

Meu irmão trabalha a alguns anos em uma das unidades de uma das maiores fusões da indústria de alimentos no Brasil. Neste tempo ele relata ter presenciado irregularidades graves cometidas aos funcionários, em ambientes considerados de médio e alto risco para acidentes.

A maior irregularidade de todas, e que mais tem revoltado e amedrontado, tanto ao meu irmão, quanto aos seus companheiros, é o fato de nunca poderem denunciar os acidentes ocorridos no interior das unidades. E caso surja alguma denuncia de acidente o encarregado e o supervisor do setor, obrigam o funcionário assinar um termo de advertência com base em um tal  “artigo 482” onde reza que o funcionário é o único responsável pelo seu acidente e assume a responsabilidade por negligencia e conduta de risco.

O referido artigo também serve para justificar demissão por justa causa, ou para ameaçá-los disso. Isso faz com que todos trabalhem com medo e nunca denunciem os acidentes ocorridos no interior das unidades, e se alguém esboça alguma reação de denúncia o encarregado reafirma a sua “culpa” pelo acidente, dizendo que ali nunca houve relato de acidentes e que ele é o primeiro.

Se durante o cumprimento da ordem de um encarregado, algum acidente ocorre, o mesmo afirma que o funcionário “sabia do risco”, e inverte a situação unicamente contra a vítima. Inclusive, de tempos em tempos, todos são “obrigados” a assinar termos de que foram treinados para desempenhar determinadas tarefas, treinamentos estes que nunca acontecem.

A tal empresa não possui políticas de redução de acidentes, visto que não reconhece a existência deles. Ela não usa os acidentes que de fato ocorrem como forma de estudar a situação e encontrar meios para reduzir a gravidade ou diminuir a incidência dos mesmos. Em uma situação como esta o funcionário recebe uma ameaça de justa causa.

Passo a descrever algumas situações relatadas a mim, por meu irmão:

No mês passado aconteceram dois acidentes no setor de Almoxarifado, um foi com meu irmão e o outro foi com um de seus colegas. Até ai tudo bem, afinal seres humanos são passíveis de acidentes. Meu irmão registrou o acidente que ocorreu com ele, mas o seu colega não. Muitos, inclusive o meu irmão alertaram o colega para que fizesse isso, mas ele não o fez. Certamente intimidado pela “conversa particular” que foi chamado a ter com o encarregado do setor horas depois. O buchicho do acidente se espalhou pelo chão da fábrica e mesmo tendo chegado ao conhecimento do SESMT (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho), nada aconteceu e ninguém foi até lá fazer uma perícia, muito menos saber se o funcionário estava bem, o único efeito disso foi ter ambos os acidentes divulgados nas outras unidades.

O que me deixa inconformado, é pensar que o colega do meu irmão poderia estar morto hoje, pois ao obedecer a uma ordem do encarregado para andar em cima de uma parede acima do forro de PVC e verifica a bóia de uma caixa d’água, ele caiu de uma altura de aproximadamente 5 metros e só não foi mais grave porque ele conseguiu se segurar com apenas um dos braços, e meu irmão estava no local subiu em uma mesa e apoiou os pés dele, com isso ele conseguiu subir novamente e depois descer em segurança.

Por ironia do destino no dia seguinte, o meu irmão se feriu com uma lâmina que estava em uma das paleteiras do almoxarifado. Ele foi mandado pelo encarregado à enfermaria para um “curativo”, entretanto ao ser examinado ele foi levado para o pronto socorro da cidade vizinha e teve seu braço suturado. Meu irmão relatou que teve uma perfuração profunda no seu cotovelo porque estava de costas para o local onde havia uma lâmina mal acondicionada, e tentando consertar uma paleteiras hidráulica, que para ser movida, precisa ser bombeada para frente e para traz e que apresentava um defeito e ameaçava cair, teve seu cotovelo atingido.

Quatro dias depois ele foi chamado para assinar uma advertência que o culpava de negligência pelo seu acidente. Ao ler essa advertência meu irmão ficou indignado e logo quis saber por que tinha que assinar aquilo, mas para sua surpresa o supervisor lhe disse que quem redigira a advertência fora seu encarregado.

Durante os quatro dias o tal encarregado fizera um teatrinho na tentava de mostrar aos colegas do meu irmão como ele causara o próprio acidente. Alegava que ele estaria correndo com uma paleteira e não conseguira parar, e por isso se ferira. Chegou a levantar a hipótese de que meu irmão ao cumprir uma ordem dele, dias antes, de fazer limpeza nas prateleiras, movimentara as lâminas de lugar e que isso poderia ter causado ferimentos graves em outros colegas, visto que as lâminas se encontravam na altura do peito, podendo atingir pontos vitais como pulmões, etc.

Sabendo que lá havia câmera e se sentindo forçado a assinar a advertência, meu irmão perguntou ao encarregado na presença do supervisor onde estariam as imagens que comprovariam que dias antes ele fizera uma limpeza na prateleira e movimentara a ponta da lâmina para fora da área de segurança fazendo com que ele se ferisse e expondo os outros colegas a riscos. A resposta dada pelo encarregado foi que as câmeras não funcionavam.

Surpreso, no dia seguinte, sua primeira missão foi ir até a portaria e perguntar aos vigias se a câmeras do almoxarifado estariam funcionando. A resposta foi que depois de uma reforma que houve por lá, as imagens não eram mais monitoras ali e “talvez” estivessem sendo feitas em outra central interna.

Infelizmente no dia do acidente ao voltar ao trabalho, após ser encaminhado ao PS, ao retornar quase ao final do seu turno, o local do acidente já havia sido descaracterizado, impossibilitando uma avaliação adequada da situação.

Meu irmão não queria assinar a advertência, não que ele fosse contra a advertência em si, mais pela forma mentirosa e recheada de suposições, e o mais absurdo, fora redigida pelo encarregado passando-se por ele, que assim, responsabilizava-se não só pelo seu próprio acidente, mas por expôs seus colegas a risco. E ainda seguido do artigo 482, sobre os deveres que o funcionário é obrigado a cumprir.

Na sala do supervisor da área, e na presença do encarregado meu irmão foi acusado de estar sofrendo acidentes “o tempo todo” dentro da empresa e o artigo 482 foi usado verbalmente como forma de intimidá-lo, dizendo que se ele sofrer “acidente demais” poderá levar uma justa causa.

Ele alegou que em quase 5 anos de empresa sofrera apenas dois acidentes e que um deles ocorrera fora do seu ambiente de trabalho, já que estava substituindo um colega em outro setor, para o qual inclusive não fora treinado.  Nesse acidente ele sofreu um escorregão ao subir no caminhão e caiu de costas no chão de uma altura de quase 1 metro, acidente este causado por haver pisado em ambiente molhado no local da entrega.  Após registrar a ocorrência ele ainda teve que ouvir do encarregado que ele “caiu de costas porque quis”.

Diante daquela situação, meu irmão sentiu-se impelido a dizer que seu colega de trabalho havia sofrido um acidente um dia antes, e que seu encarregado sabia, pois fora ele mesmo que dera a ordem para o funcionário subir na parede e verificar a caixa d’água, e que após o acidente o encarregado teve uma conversa particular com o acidentado e o colega não registrara o ocorrido. Por incrível que pareça ele negou que havia dado a ordem.

Meu irmão já expressara na presença de varias testemunhas que o encarregado não queria que fossem feitos registrados dos acidentes, além de ser ele o responsável pelo acidente de seu colega de trabalho, pois havia dado a ordem para o funcionário verificar a caixa d’água, e esta não fora a primeira vez, já que era comum a exposição de funcionários a situações de risco.

O único argumento do encarregado foi dizer que meu irmão não sabia o que estava falando e que cada caso era um caso. E ainda quis imputar-lhe novos riscos à segurança, acusando-o da colocação de borrachas de dinheiro nos refletores que poderiam cair e provocar novos acidentes. Meu irmão afirma que de fato colocou borrachas em lugares onde deveria haver parafusos, pois na verdade já se encontravam presas com borrachas, e todas as vezes que lhe foi solicitado fazer limpeza nas mesmas, ele apenas as substituiu. E se o encarregado sabia da existência delas a ponto de acusar o meu irmão, porque não providenciara a manutenção adequada dos mesmos?

A desculpa do encarregado é que só queria “ajudar” os trabalhares não permitindo que eles registrassem seus acidentes, isso o próprio encarregado disse para meu irmão.

A única verdade da história era o fato do encarregado estar expondo todos, a riscos de acidente. Afinal os tais refletores estão a mais de 7 metros de altura. Outro relato assustador do meu irmão, é que uma vez ele flagrou o encarregado elevado outro colega no garfo da empilhadeira sem a gaiola de proteção, que por sinal não é tão segura assim, visto que já aconteceu de a gaiola se desprender da empilhadeira.

O  que ficou evidente para meu irmão nesse momento, era que por ter cumprido ordens de limpar os refletores e as prateleiras, bem como o fato do seu colega ter sofrido um queda que quase acabou com a sua vida, era o fato de que seu encarregado dava ordens que poderiam de fato, resultar em acidentes, mas mesmo assim, poderiam ser culpados, já que a responsabilidade pelos acidentes é sempre imputada a eles.

Muitos destes acidentes acontecem em momentos de “desvio de função", e sempre usando a alegação de que eles devem ser "proativos" e que devem ser mais produtivos, empurra-os para o desempenho de diversas tarefas que não correspondem aos seus cargos e funções, deixando-os mais expostos a erros e acidentes.

Muitos funcionários trabalham descontentes e fazem suas conferências apenas por amostragem, refletindo o desinteresse em trabalha bem. Agora fiquei sabendo que meu irmão foi acusado de “improdutividade” e de ser um “morto” por esta trabalhando usando métodos criteriosos, já que não usa o método de “amostragem” visto que este não apresenta garantias de confiabilidade. Isto para mim é inconcebível, já que a acusação feita ao meu irmão é a meta que deveria se esperar de cada funcionário. Ou seja, a acusação é de que meu irmão é quem apresenta menos “divergências” nas suas conferências, ele não dá prejuízo à empresa e está sendo questionado por isso?

Trabalhar machucado é fato, quando o funcionário ainda nem se curou de algum acidente e se vê obrigado a voltar para garantir o seu sustento. Muitos retornam lesionados e queixosos da situação e do desamparo.

Após essa sucessão de fatos meu irmão procurou conversar com seus colegas de trabalho e descobriu que vários deles já haviam assinado advertências como aquela, por outros motivos, como por exemplo, em pequenos atrasos nos horários de trabalho, o que é muito estranho, já que os mesmos trabalham com compensação de horas.

Outro fato inexplicável, é que ninguém possui copias de seus contratos de trabalhos, e quando meu irmão procurou o dele, já que fora mudado de função, lhe disseram que o antigo que ele recebera há alguns anos atrás quando fora contratado para o setor de produção ainda era válido.

Quanto a CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) ou SESMT pelo que ele me conta, simplesmente não funciona.

Reivindicações feitas pelos funcionários são respondidas pelos encarregados e supervisores de forma desdenhosa, com: “Ninguém vai receber salário melhor, se sair daqui”, ou “Vai se virar, se vocês quiserem vocês é que tem que correr atrás”, ou quando em desvio de função: "Você não pode ter um salário maior por que você foi contratado para ser motorista de empilhadeira e não almoxarife", e por ai vai. É triste saber que trabalhadores, no desempenho de suas funções estão o tempo todo sendo chamados de moleques, improdutivos e incompetentes.

Os mais jovens não ficam ali por muito tempo. Alguns conseguem estudar e são promovidos para outros setores ou simplesmente pedem demissão, e os que ficam por anos ali, trabalham com medo e evitam registrar seus acidentes como foi o caso mencionado.

Dá pra confiar em seres humanos que trabalham com medo? Uns desconfiam dos outros, afinal são pais de família que necessitam dos seus empregos para alimentar seus filhos. Como pedir que pessoas nesse estado de medo sejam testemunhas de alguém ou sobre alguma coisa?

Recentemente um colega que já não trabalha mais lá, ligou para meu irmão solicitando que ele fosse sua testemunha em um processo que está movendo contra a empresa. Meu irmão diz estar receoso em ajudá-lo por medo de sofrer algum tipo de perseguição, mas mesmo assim esta tentando ajudá-lo entrando em contato com outros que já saíram da empresa.

Fico abismado com as formas absurdas de desrespeito e os abusos cometidos contra outros semelhantes em situação de assédio moral no trabalho e fico feliz com a forma que vocês abordam o tema com injeções de ânimo, quando relatam ações onde um assediado sai vencedor e a forma como incentivam pessoas que estão sendo assediadas a contar os seus dramas. Espero que a história do meu irmão sirva de exemplo para que outros se manifestem e compreendam que apenas na união e solidariedade pode haver vitória.

Depois dessa creio que aprendemos uma lição importante que é: em tempos modernos onde o computador é regra e a internet é a porta do mundo, temos que nos informar também sobre as empresas onde estamos entrando para trabalhar se não quisermos ser a próxima vitima.

Assédio Moral Adoece e Mata.
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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Relato 30 (Usado, abusado e ludibriado)


Em 2007 comecei a trabalhar em uma construtora em Fortaleza-CE. Desde então minha vida sofreu muitas mudanças.

Tenho sido prejudicado de diversas formas por meus antigos empregadores e tentarei expor a vocês um pouco dos meus tormentos e da forma como fui usado, humilhado e ludibriado em tantas situações que me fizeram por fim, pedir demissão do emprego.

Minhas funções eram inúmeras e variadas e passava por assistente, motorista, comprador, pagador, responsável pela folha de pagamento entre outras.

A forma de tratamento dada pela empresa aos funcionários demonstra o modo sem escrúpulos e respeito que iam desde a forma de alimentá-los com parcos R$4,00/dia, proibição de usar os banheiros da empresa, o não fornecimento de equipamentos de proteção adequados entre outros.

Os absurdos continuam ainda, com descontos às faltas dos empregados com atestado, apenas para dar a recarga de Passe Card com um valor menor. Muitas vezes eu fui representá-los no Sindicato dos Empregados da Construção Civil aqui em Fortaleza levando “faltas” que os mesmo não tinham, apenas para que não recebessem a participação nos lucros. Também acompanhei várias rescisões forjadas com os empregados para que recebessem o seguro desemprego, só que continuavam trabalhando e tinham que devolver o dinheiro da rescisão e ainda dar ao patrão o primeiro mês do seguro desemprego. Hoje percebo com mais clareza a forma como fui usado para cumprir os seus propósitos, inclusive tendo em meu nome contas de água de suas obras.

As irregularidades lá eram muitas, e iam desde o não cumprimento das férias conforme manda a lei, chegando alguns funcionários a trabalhar com mais de duas férias vencidas, pessoas que trabalhavam em uma empresa, mas mantinham a carteira assinada por outra, a falta de livro ou relógio de ponto nas obras chegando ao absurdo de terem seus pontos assinados pelo pessoal do escritório.

Quando iniciei neste trabalho eu era casado e possuía imóvel próprio na praia de Iracema. Hoje não tenho mais esposa nem apartamento, ambos perdidos por conta das desonestidades do meu empregador.

De certa foram comecei a “pagar para trabalhar”, visto que tive um carro locado em meu nome, na locadora do irmão do meu ex- patrão e sem o meu conhecimento (achei que estava assinando para retirar o carro para a empresa), visto que eu assinava documentos para eles e o carro era usado unicamente para fazer o trabalho da empresa. Todas as despesas do tal carro corriam por minha conta, como combustível, estacionamento, etc. Só tomei conhecimento da minha absurda “dívida” de R$7.000,00, quando comecei a ser veementemente cobrado pela locadora.

Posteriormente, confiando na promessa de que se eu pagasse as prestações de um carro novo, em vez do valor da locação, quando o carro fosse vendido, o valor pago por mim seria devolvido, foi feito então um leasing no nome da construtora de um FORD KA que era pago por mim com a ajuda da minha então esposa, para que eu tivesse a locomoção para as diversas funções do meu trabalho facilitado sem os custos da locação. Cheguei a pagar nove prestações, além do seguro total do carro, com a apólice no meu nome e no da minha esposa.

Ter uma dívida em meu nome que crescia a cada dia me fez vender meu apartamento por valor muito abaixo do mercado, para fugir do tormento de ser cobrado daquela forma. Na época, por segurança, pedi ao meu patrão, que guardasse os cheques pré-datados da venda do apartamento no cofre da empresa.

Pouco tempo depois, desgostoso com toda a situação vivida ali, pedi demissão. Foi então que solicitei a devolução dos meus cheques, mas o mesmo alegou que estes estavam guardados no seu apartamento já que “não confiava” em guardá-los no cofre da construtora, entretanto esta devolução nunca aconteceu,  e os cheques foram depositados na conta da construtora, obrigando-me a fazer um BO para tentar reavê-los.

Na tentativa de me amedrontar ele fez uma queixa crime de calunia e difamação na justiça comum. 

Não tenho nada a temer, pois todas as minhas denúncias contam com provas testemunhais e documentais, mas com isso não consigo mais arrumar emprego visto que o mesmo e seus funcionários só dão referências desfavoráveis a meu respeito.

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Atualmente já atravessei a quinta audiência na Justiça do Trabalho onde cobro todos os prejuízos sofridos.

A minha vida, mudou muito, já que em função de tudo que sofri, perdi minha casa, minha esposa e meu trabalho. Hoje estou com vários problemas de saúde como pressão alta, depressão e pânico, e ainda sofro humilhações onde vivo, visto que há quase dois anos não consigo mais nenhum trabalho e dependo de favores alheios.

Recebo constantes ameaças por telefonemas nominais e anônimos que já me fizeram mudar o numero de telefone por três vezes. Ainda assim me mantenho firme, não posso perder a confiança na Justiça do Trabalho, ainda que o meu advogado tenha solicitado a troca do profissional que deveria julgar o meu caso por julgamento tendencioso.

O que de fato sei, é que não posso duvidar da Justiça Divina, pois esta sim, até pode tardar, mas não falhará.

Hoje, a única certeza que tenho é a de que continuarei a denunciar tudo o que vivi e sofri, mesmo sabendo que o custo disso pode ser a minha própria vida. 

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Relato 29 (Chefe... "Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é")

 “Um diamante mesmo enterrado no lodo, continua um diamante.” 


Outro dia li esta frase em um livro e ela ficou guardada em minha mente, pois transmite na sua simplicidade uma mensagem muito importante, porque em muitas circunstâncias da vida, deixamos de acreditar no que verdadeiramente somos.

Relembrando fases diferentes da minha vida profissional, fazendo um “mini-flashback” como dizia aquela atriz, pude perceber o quanto progredi nesses últimos anos e o quanto aprendi no dia a dia, mesmo vivendo numa cidade pequena e onde aparentemente não iria encontrar muitos desafios. Ledo engano...

Meu primeiro emprego foi numa galeria de arte, eu era uma aprendiz de “marchand” tinha só 17 anos, foi um experiência e tanto. A artista muito excêntrica pintava quadros maravilhosos e eu tive neste emprego minha primeira grande lição: como é bom ter um lar, para onde se possa voltar após um dia muito duro de trabalho. Lembro de um dia que cheguei tão estafada em casa de tarde que deitei no sofá e lá adormeci profundamente, um sono tão pesado que não senti meu pai carregar meus 1,75m e quase 70 kg nos braços e quando acordei no outro dia de manhã estava na minha cama, debaixo das cobertas de tênis e carteira no bolso... Acho que foi a última vez que meu pai me carregou no colo, rs Depois deste vieram alguns outros empregos, vou relatar aqui os que mais me marcaram.

Primeiro num departamento de criação em um laboratório que tive oportunidade de ter um chefe maravilhoso, o Sidney que percebeu talento gráfico em mim e me incentivou a ir estudar Artes Gráficas no Senai Theobaldo de Nigris e lá na melhor escola de Artes Gráficas do Brasil, pude adquirir conhecimentos importantes que apliquei também no meu curso de biblioteconomia. Hoje eu cuido de livros, lá aprendi a produzir livros. Muito obrigada Sidney, onde quer que você esteja.

Depois de formada passei por alguns bureaus de pré-impressão onde fui diagramadora e posteriormente consegui uma colocação numa editora de revistas. Lá fiz bons amigos, Sueli ilustradora talentosíssima e meu querido Emmanuel dono da editora, uma pessoa boníssima e extremamente divertida. Eu achava incrível o fato dele ser nosso chefe e simplesmente não parecer um chefe e ao mesmo tempo era respeitado, querido e amigo de todos.  Neste emprego aprendi que você pode ser chefe e ser leve e divertido ao mesmo tempo em que trabalha.

Depois desta editora passei por um progresso acentuado quando consegui um trabalho em um estúdio de arte muito promissor em São Paulo. Este estúdio estava crescendo e trabalhava com grandes clientes, multinacionais e só usava plataforma Macintosh. Foi o período onde tive mais contato com o Designer gráfico e pude após este tempo, trabalhar alguns anos como autônoma, em meu próprio estúdio. 

Foi só um ano, mas acho que foi o lugar onde tive, antes de sair de São Paulo, meu maior aprendizado para a vida profissional. Pra começar esta história, lembro o dia da entrevista, eu sentada em frente ao computador com uma página para criar e minha entrevistadora ao meu lado me explicando o que queria. Quando ia começar, uma porta se abriu e uma criança de uns três anos veio em nossa direção e sentou-se no meu pé e eu tentava prestar atenção na minha entrevista.

Quando comecei a diagramar vi o menino enroscado no meio dos fios e virei para a moça e falei: “ele vai se machucar!”. Ela me olhou e respondeu assim: “cuida da sua entrevista que do meu filho cuido eu!”.

Eu, não sabia onde enfiava a cara de tanta vergonha e só pensei: nossa, como pode ser tão grosseira... Fiz meu teste, fui bem, mas sinceramente não achei nem um pouco interessante ir trabalhar lá depois do fato ocorrido já na entrevista.

Voltei para casa e continuei minha busca até que um mês após o teste me chamaram deste mesmo estúdio para trabalhar, se ainda estivesse disponível. Como já estava há quase dois meses procurando emprego e a oportunidade no estúdio muito boa em termos de experiência profissional e salário, esqueci o ocorrido e fui trabalhar.

Neste estúdio conheci boas pessoas e tenho uma linda amiga com a qual até hoje me correspondo e que amo de todo meu coração. Mas após um ano de trabalho nesta empresa o que mais pude interiorizar e aprender, para toda minha vida, é o que eu NÃO deveria ser quando fosse responsável pelo trabalho de alguém.

Eu pela convivência com vários profissionais de muita capacidade e talento, aprendia elementos importantes para a profissão de designer, ao mesmo tempo infelizmente, tive uma colega de trabalho que me deixou em situações tão constrangedoras que hoje rememorando, não sei como eu consegui sobreviver e tirar ainda assim, algo de bom deste período da minha vida profissional.

Para ter uma ideia um dia, ela me apresentou a uma importante executiva de uma multinacional, cliente do estúdio, usando a frase: “esta é a Sandra, a macumbeira da equipe”, só porque ela sabia que minha família era Kardecista.

Na festa de confraternização no final do ano ela na mesa com todos os funcionários reunidos me gritou lá do canto onde estava dizendo assim para mim: “Sandra, come esse carpaccio que o garçom está servindo, pois lá da zona leste de onde você vem, não tem essas coisas!”.

Uma ocasião (isso até seria cômico, se não fosse trágico) ela virou para mim e disse assim: "sabe qual é o seu problema Sandra, seu problema é que você é feliz demais!".

Meu Deus... Ela me falava tantas barbaridades, mas eu só focava no fato de ter acabado de entrar na faculdade de biblioteconomia que era particular e, em outras várias responsabilidades e o salário deste emprego era excelente, eu pensava no dinheiro, me acalmava e prosseguia. Foi um ano de muita resignação e exercício de paciência...

Um dia ela me pegou para me passar um sermão na sala dela, ficou três horas seguidas falando sem parar, tantas barbaridades que eu chorava igual uma criança e em um determinado momento ela falou assim: “não esquenta não, eu entendo que você ainda não tem maturidade e por isso é normal você chorar assim na frente da sua chefe!"

Nesta empresa passei por tantas situações tristes e desagradáveis que voltando no tempo e rememorando os fatos para poder relatar "algumas coisinhas" aqui, chega a apertar o coração de tanta dor. A verdade é que eu deveria tê-la processado por perdas e danos morais. Mas naquela época eu ainda era muito inexperiente, tinha pouco mais de vinte anos e não era amplamente divulgado o que atualmente chamam de "assédio moral".

Nos últimos meses quando o despertador tocava de manhã, eu abria os olhos e pensava que tinha de ir para lá, meu estômago até revirava e meu coração apertava no peito, mas eu levantava...

E por ai vai... Foram tantas, mas tantas tristezas que passei neste lugar que quando completei um ano e já sonhava com as férias queria descansar minha cabeça, mas aconteceu de ter de ir trabalhar num sábado, para compensar uma falta, mesmo sem trabalhos atrasados, mas por convocação da “minha chefe” fui. 

Logo que cheguei ela veio passar os trabalhos que queria que eu fizesse e foi embora, depois de umas duas horas voltou e começou a me destratar sem motivação aparente, colocava defeito em tudo que eu havia feito, mas fazia isso de uma maneira muito mais estranha do que já era habitual, parecia que ela estava procurando confusão e eu mesmo assim, mantive como sempre a paciência. Neste um ano, nunca, nunca a enfrentei de forma alguma.

Só que ela permaneceu me atacando e em um dado momento, não resisti mais e empurrando a cadeira num chute só  me aproximei bem dela que era baixinha e perguntei: “minha filha, o que você tem afinal contra mim?”

Acho que todos os sapos de um ano lá que engoli vivos e viviam rolando em minha barriga resolveram sair todos ao mesmo tempo e eu cuspi todas as respostas que eu queria ter dado a ela no ano todo em que ela me torturou. Falei tudo que eu pensava e achava dela, falei meia hora sem parar, devolvi todo o lixo que ela tinha jogado em mim e disse que ela era uma “monstra” (risos).

Bom, depois disso nem preciso dizer que fui sumariamente demitida...

Eu voltei triste para casa, chorei o caminho todo e o fim de semana também pensando em como eu ia ficar sem meu emprego e como eu ia continuar minha amada faculdade se não conseguisse logo outro trabalho.

Mas na segunda-feira, quando o relógio não despertou, mas eu sozinha abri os olhos e lembrei que não ia precisar ir trabalhar lá, dava cambalhotas e gargalhadas deitada na minha cama e esta acho que foi a segunda-feira mais feliz da minha vida (risos).

Quando saí deste pesadelo prometi para mim mesma que, se algum dia eu chegasse a ser chefe de algum setor, ou empresa, nunca seria como esta minha ex-chefe.  Lá aprendi tudo que eu NUNCA deveria ser com meus colegas de trabalho.

Uma semana depois eu já tinha conseguido outro emprego muito legal, de meio período. Fiz outro vestibular, passei. Estudava Biblioteconomia de manhã, trabalhava à tarde no novo estúdio e cursava faculdade de Educação Artística à noite.

Minha situação melhorou e muito ao invés de piorar como eu pensei inicialmente... Ao invés de fazer uma eu estava fazendo duas faculdades. Como diz aquela música: "muitos temores nascem do cansaço e da solidão". Espero nunca mais ter de lembrar ou pensar sobre esta experiência...

Muito tempo se passou... 

Me formei, tive pequenas experiências em Bibliotecas em São Paulo e meu primeiro grande emprego como Bibliotecária formada foi no Unesc de Colatina. 

Posso dizer sem sombra de dúvidas que lá foi a experiência de trabalho mais feliz que tive na minha vida. A equipe de trabalho da biblioteca universitária era composta por dez pessoas para eu coordenar e eram todos rapazes. Eu trabalhava com dois assistentes, um menor aprendiz, dois estagiários e cinco auxiliares. A biblioteca era enorme, com diversos ambientes e mais de 50 mil livros no acervo e a rotina diária de atendimento era de cerca de 1.000 universitários nos três turnos.

Tive muita sorte, pois as pessoas com que trabalhei foram muito generosas e prestativas e eu retribuí a acolhida, procurei ao longo deste ano mais ensinar e mais aprender que “mandar”.

Eu não tinha subalternos, eu tinha colegas de trabalho, uma equipe de pessoas muito interessadas e com desejo de progredir. Muitos faziam serviços mecanicamente, pois não haviam explicado para eles os motivos de isso, ou aquilo, ser dessa forma na biblioteca eu passei a explicar os detalhes, procurei melhorar o acesso deles aos elementos que faziam parte de suas atividades e eles puderam entender o porque deles terem de realizar certos procedimentos. Os serviços passaram a ser assimilados, eram atividades compreendidas e não mais meramente mecânicas.

Com eles eu também aprendi muito, procurei dar oportunidade para todos falarem, sugerirem, aproveitei boas ideias dando crédito ao autor das mesmas, elogiava para meu superior minha equipe e pedia sempre que era possível, melhorias para as condições de trabalho deles.

Trabalhei muito, passei alguns apertos, dei muitas risadas, tive muito orgulho do que deixei lá, pois no dia que me despedi do meu diretor, ele me disse que nunca havia passado por lá uma Bibliotecária como eu, que tinha feito um excelente trabalho e que ele sentia por eu ter de deixá-los. Me senti muito orgulhosa do meu trabalho e feliz pela missão cumprida.

Tenho saudades até hoje dos meus amigos do Unesc, nunca devia ter saído de lá, mas essa...
É outra longaaaaa história para contar outro dia...

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Relato 28 (MINHA MÃE É UMA “ASSEDIADORA”)



Em 2002, pedi exoneração da Guarda Civil Municipal de uma das cidades do Grande ABCD Paulista, por não concordar com “fatos e feitos” dentro da corporação. Logo, mesmo tendo estabilidade, não me sujeitaria a nenhuma estratégia mal intencionada. E do tão falado: “PEDE PRA SAIR!”, SAÍ MESMO!

Como eu já tinha pouco mais de 30 anos, o mercado de trabalho já não era mais tão generoso comigo. Mesmo assim não me abati e fui fazer um curso de manicure. Nunca trabalhara com isso antes, mas resolvi arriscar. Para muitos, trocar o cargo que eu tinha na guarda, pelo de manicure era uma derrota, mas não liguei para as opiniões alheias e fiz o curso no SENAC.

Minha mãe tem um salão de beleza e logo que terminei o curso fui trabalhar lá.  Ela contratara também outa manicure, então trabalhávamos nós duas como manicure e minha mãe como cabeleireira.

Imagem Google
No início foi muito difícil, além de ser uma área nova para mim, as pessoas quando sabiam da minha decisão, não compreendiam e não se conformavam com a troca que eu fizera, inclusive minha mãe, que não perdia tempo em me humilhar mesmo na presença de clientes.

As pessoas têm muitos preconceitos e consideravam aquele, um trabalho inferior, em relação ao meu antigo posto. No entanto, me mantive firme fazendo meu trabalho, e muitas vezes tentava explicar para as pessoas que me julgavam,  que por dinheiro algum eu me sujeitaria a fazer coisas erradas ou a fazer mal para as pessoas. Também não desejava passar o resto da minha vida em um ambiente ruim e que estava fazendo mal para minha saúde, só porque era concursada.

Bem lá no fundo eu pensava: 'Se passei em um concurso posso muito bem passar em outro'.  Mas no fim das contas, não quis prestar novo concurso, e resolvi que mudaria totalmente de ramo, afinal, existem tantas coisas pra se fazer nessa vida!

Minha mãe é uma pessoa de personalidade muito forte, só eu sei! De verdade, uma pessoa muito difícil de lidar e conviver. Do tipo que só está satisfeita se todos fizerem tudo exatamente como ela quer. 

Como a nossa empregadora, era uma pessoa assim, tão difícil de lidar, nos tornamos bastante amigas e até confidentes. Era com ela que eu me desabafava e ela comigo.  Eu ouvia as reclamações da manicure, que sempre se queixava do comportamento da minha mãe e da forma como a tratava. 

Realmente minha mãe falava e fazia coisas pra ela, com as quais eu não concordava. Dizia por exemplo: “Você é muito devagar”, “Você não sabe falar direito” (menosprezando um problema de saúde que ela tinha nas cordas vocais), “Você não vai arrumar emprego, desse jeito, só eu pra te aguentar”.  Sem falar das vezes que a colocava para fazer serviços externos para os quais não fora contratada, e sem remuneração extra para isso, e das muitas vezes que marcava cliente na hora do seu almoço, deixando-a com fome por muitas horas.

Eu ficava "entre a cruz e a espada”. De um lado a empregadora, minha mãe, do outro a empregada injustiçada e vítima, que agora era minha amiga.

Eu tentava amenizar o clima entre as duas, mas eu também sofria com aquela situação, sem falar da forma acintosa que também eu era tratada por minha mãe na presença de clientes, levando muitos deles, a não quererem ser atendidos por mim.

Varias vezes pensei em procurar outro emprego, mas de certa forma, eu sentia pena de deixar a minha mãe sozinha. Afinal ela estava tranquila comigo lá, porque eu era “de confiança”, era da família e ela podia sair e chegar na hora que quisesse porque sabia que eu tomaria conta de tudo. 

Eu também pensava na minha amiga, porque se eu saísse, ela ficaria sozinha sofrendo as agressões da minha mãe. Diante de tudo isso, optava sempre por continuar.

Passado algum tempo, a manicure me confidenciou que pediria demissão e colocaria minha mãe "no pau”.  Ela ia processar minha mãe.

Eu levei um susto, mas pra falar a verdade não fiquei de todo surpresa, sabia que ela estava no seu direito e a aconselhei que procurasse um advogado e conversasse com ele sobre suas intenções. Para ser sincera, até eu mesma algumas vezes pensei em processá-la, tamanho o absurdo na forma de nos tratar, mas logo o pensamento se dissipava, afinal, como a sociedade encararia uma filha que processa a própria mãe que lhe dá guarida?

Mas para mim uma coisa sempre foi clara. Eu fico do lado da justiça, seja mãe ou não, justiça seja feita!

A manicure pediu demissão e foi embora. Não nos vimos mais e eu até pensei que ela não cumpriria a ameaça de processo e nunca comentei nada com a minha mãe.

Só que depois de alguns meses a notificação do processo chegou e o drama estava instalado. 

Durante o processo, minha mãe descobriu que meu pai, contador do salão, nunca depositara o FGTS durante um ano de trabalho da manicure. Desastre total!

Cada vez ficava mais claro para mim que algo muito errado acontecia nos negócios da minha família.

No decorrer do processo minha mãe sofreu muito. Ficava nervosa, com a pressão alta e tudo mais, pois a manicure alegou que sofria “ASSÉDIO MORAL NO TRABALHO”, e queria indenização.

Eu também sofri muito nesse período, porque ao mesmo tempo em que eu queria justiça em favor da manicure, também ficava mal em ver meus pais naquela situação, sofrendo por não terem dinheiro para saldar tamanha dívida, mas certamente teriam que arcar com suas responsabilidades.

Para isso tiveram que fazer algo que odiavam: ‘pedir favor’. E foi pedindo dinheiro emprestado a parentes que os meus pais conseguiram quitar aquela dívida. 

Bom, a justiça fora feita, eles pagaram o que deviam, e aquele seria o fim daquela história. Pelo menos foi o que pensei na época.

Mas, que nada! Hoje, muitos anos depois, chega um oficial de justiça na casa dos meus pais, alegando que iriam "embargar" a casa deles, porque eles não pagaram a manicure.

Como assim?  Meu pai depositou tudo direitinho, tenho certeza disso, pois acompanhei a situação de perto. Mas vai explicar isso para o oficial de justiça. Obviamente que o constrangimento foi inevitável.

Imagino que vocês nem consigam imaginar o que aconteceu.

Houve um acordo entre as partes e meu pai depositou o combinado na conta da advogada da manicure. A advogada dos meus pais não fez mais contato, e pela inexperiência deles, acreditaram que tudo estava resolvido. Só que a tal advogada, não deu a continuidade necessária para o fim do processo na justiça. Então para a justiça, ficou como se os meus pais não tivessem quitado a dívida com a manicure. Com isso a dívida corria por todos esses anos, como se não tivesse sido paga, com juros e tudo mais.

Resumindo meus pais estão estressados, pois terão que pagar a dívida novamente. Eu estou super preocupada com eles, pois não moramos mais na mesma cidade e não posso acompanhar a situação de perto. Fico pensando neles sozinhos, passando por isso e de certa forma ainda me culpo pelo que aconteceu. Mas na verdade, sei que a única culpara por tudo isso, é a minha mãe, por não ter sabido dar a uma funcionária, o devido valor e respeito.

Isso também deixou uma coisa muito clara para mim, que é a importância da escolha de bons advogados.

Que isso sirva de consolo aos assediados, vejam só, os meus pais estão tendo dor de cabeça até hoje. O meu pai por não terem cumprido com a obrigação legal com a funcionária e minha mãe por ter sido uma assediadora.

A lei é dura para os empregadores que não fazem a coisa certa e acredito que precise ser mais dura ainda com os assediadores. A justiça pode até tardar, mas esperamos que não falhe, doa a quem doer!

Afinal de contas, ninguém merece ser maltratado no trabalho.


Assédio Moral Adoece e Mata.
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