"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Relato 20

Participar de um Concurso Público Municipal é sempre algo desafiador, ser aprovado, motivo de orgulho e satisfação. Então quando em 2002 fui aprovada e nomeada para assumir um cargo público, senti-me muito feliz, pois assim poderia por em prática todas as coisas para as quais eu havia me preparado durante todos os anos de faculdade. Até o meu Trabalho de Conclusão do Curso, desenvolvi no Sistema Público de Saúde.

Fui designada então para um determinado “Distrito Sanitário”. Por conhecidência e falta de sorte minha, a responsável por esta unidade para a qual fui lotada, me conhecia anteriormente, e por questão de orgulho ferido, nutria algum tipo de desagrado ou despeito por mim.

Não foi preciso muito tempo para começar a sentir os efeitos mesquinhos de tais sentimentos.

Em curto prazo de tempo, fui transferida para TODAS  as Unidades de Saúde pertencentes a aquele Distrito Sanitário. A sua falta de respeito por mim se tornava cada vez mais clara, e o seu desejo de me prejudicar mais evidente.

Fui informada posteriormente por uma pessoa que inclusive, veio a ser minha testemunha dos fatos, que em todas as reuniões com as responsáveis pelas Unidades de Saúde o meu nome era citado de forma pejorativa, como se eu fosse uma peça de leilão: “... quem quer ficar com “ela”?

No decorrer dos dois anos que estive lotada naquele Distrito Sanitário protocolei vários pedidos de transferência para outro Distrito, e só recebia negativas, sem nenhuma justificativa formal.

No meu desespero para conseguir trabalhar de forma honrada, e conseguir por em prática todos os meus conhecimentos, fui pessoalmente ao RH pedir transferência, mas a responsável pelo Distrito Sanitário fora “advertida” a meu respeito. Então, além de não conseguir ser transferida, ainda fui repreendida pela minha algoz, que não admitia o fato de que eu tivesse solicitado transferência.

Como entender a lógica de mentes assediadoras? Ela tenta “leiloar-me”, disponibilizando-me como se eu fosse um sapato apertado e sem utilidade, mas quando quero ir, por livre e espontânea vontade, o meu desejo é negado sem nenhuma justificativa.   Assim ela buscava alcançar sua meta de tornar a minha vida e trabalho impossíveis.

As coisas foram tornando-se cada vez mais difíceis, o meu isolamento aumentava a cada dia.  Eu era proibida de manter contato com os colegas, fossem eles do mesmo nível hierárquico, superior ou inferior. Os colegas, também eram proibidos de manter contato pessoal ou profissional comigo, o que tornava os meus dias muito penosos.

Na tentativa de me sentir incluída em “algum lugar do mundo” comecei a frequentar o Sindicato de Funcionários Públicos Municipais.

Na mesma época a responsável pelo Distrito em que eu estava lotada, começou a participar das Avaliações do Estágio Probatório (período de adaptação em que o servidor público tem o seu desempenho avaliado para determinar a efetivação ou não, ao cargo para o qual foi nomeado).

Durante o período em que trabalhei, eu era transferida em média a cada dois meses, e a minha avaliação do Estágio Probatório só era feita após a minha saída das unidades.

As avaliações acontecem semestralmente, com isso, no momento da avaliação do meu Estágio Probatório, eu já tinha passado por duas ou três unidades de Saúde do Distrito que estava lotada e nunca consegui transferência para outros Distritos como eu desejava.

Mas como eu poderia ter o meu desempenho, adaptação, responsabilidade, organização, qualidade do trabalho, relacionamento, racionalização, etc. avaliados, sem ao menos ter tempo para conhecer o território, identificar as necessidades da população, desenvolver estratégias ou construir vínculos, fossem eles no âmbito pessoal ou profissional?

Tecnicamente, ela nunca poderia estar presente, porque na avaliação, as pessoas presentes deveriam ser: um responsável direto, um representante do RH e o profissional a ser avaliado.

Uma pessoa dos meus contatos relatou todo o assédio e sofrimento pelo qual eu passava a um Deputado Estadual. Fui aconselhada então, a procurar ajuda Judicial.

Logo depois, este mesmo Deputado tornou-se o Secretário de Saúde do Município. Imaginei que desta vez o meu sofrimento teria fim. Entretanto, o Assédio Moral pelo qual eu passava, continuou sendo ignorado por aquele que poderia ter-me ajudado.

Eu que sempre fui uma pessoa de hábitos moderados, engordei 20K durante os dois anos em que sofri todas essas agressões.

Acabei por sofrer um processo administrativo, fui acusada sem provas de atitudes ridículas, absurdas e até imorais.

O Procurador, em defesa do município, argumentou que eu não apresentava nenhuma evidência que sugerisse “dano moral”, entretanto, os laudos médicos que me consideravam: “apta sem restrições” eram sempre questionados. Foi feita então uma solicitação médica para que eu fosse transferida para outro distrito sanitário, mas sua prescrição foi ignorada. Algumas vezes o médico chegou a sorrir e se desculpar comigo pelo ridículo da situação.

O Procurador então solicitou uma sindicância para apurar os fatos.

Mesmo com os meus relatos, as testemunhas e as provas apresentadas, fui exonerada e saí literalmente pela porta dos fundos da Unidade de Saúde.

Apesar de tantos abusos e mudanças, eu amava o meu trabalho, ou melhor, amava o que sonhei que seria o meu trabalho e desejei com todas as minhas forças desenvolver um trabalho digno para a população que deveria receber os meus cuidados.

Fui questionada há pouco tempo por este blog, sobre quis eram os meus sentimentos em relação a tudo pelo que passei. Concluo que não teria as palavras adequadas, mesmo que usasse um dicionário inteiro pra explicar. Mesmo assim resolvi tentar: Sinto os meus sonhos, a minha segurança, minha saúde física e psíquica violados. Percebo com mais clareza do que nunca, o quanto fui ferida e desestabilizada.



 E quanto mais penso nisso, mais tomo consciência dos danos e do assédio moral que sofri. 

Sei que tudo que perdi é irrecuperável, mas também sei, que em momento algum posso me permitir perder a esperança.


     Assédio Moral Adoece e Mata.

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29 comentários:

  1. E tudo isso na "barbas da Justiça" será?

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    1. Absurdamente, os Tribunais do país não têm dado foco ao tema "assédio moral"; juízes, Desembargadores, Ministros, Promotores de Justiça devem participar de cursos e palestras sobre o tema, para que os direitos fundamentais dos assediados não sejam ultrajados com o aval do Judiciário.

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    2. Sim nas barbas da justiça e neste momento 11 anos após o "massacre"estou chorando,porque só falam em estar fixa,realizando concursi público...

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  2. Coisas inacreditáveis acontecem no mundo do Assédio Moral no trabalho!
    Este é um espaço de relatos de fatos e experiências, que só quem passou ou está passando, sabe o real significado.
    Volte Sempre!
    Assediados

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  3. Respondendo ao amigo anônimo acima: não só nas barbas da justiça como em todas as outras, pois assediadores não possuem escrúpulos,consciência, e, muitas vezes, possuem um forte senso de impunidade. Reforço e concordo que "só quem passou ou está passando, sabe o real significado".
    http://mentesatentas.blogspot.com/

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  4. Corretíssimo Guerreiro da Luz! Só quem sente ou sentiu na pela as dores do assédio, é capaz de ter a dimensão exata dos estragos causados. E isso de fato, pode acontecer sob as barbas de quem deveria defendê-lo. Infelizmente...

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    1. Nem sempre os assediadores possuem barbas... as mulheres que assediam são bem mais crueis com outras mulheres...

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    2. Concordamos plenamente.
      Assediadores podem estar em qualquer posição. Acima, abaixo, ao lado... e verdade seja dita: mulheres assediadoras são de fato muito cruéis.

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  5. Será que esse DEPUTADO/SECRETÁRIO DA SAÚDE/PREFEITO pretende se reeleger e deixar mais pessoas desempregadas e desmoralizadas?!?

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  6. Pretende e está fazendo campanha e eu que não consigo "entrar na TV e contar a podridão.

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    1. Infelizmente as leis precisam mudar no Brasil.
      Apenas leis duras que por exemplo, deixem os assediadores inelegíveis, poderia mudar o cenário.
      Não conseguir "botar a boca no trombone", realmente gera um grande desconforto e uma sensação de impotência muito grande.

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  7. O que dói é que este atual Prefeito( que foi /Secretário da Saúde e Deputado)protege a monstra que me assediou moralmente,no momento ela tem 3 cargos comissionados e eu fora da prefeitura como se fosse uma bandida.

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    1. Muito triste mesmo!
      Você já perdeu todos os prazos para recorrer?

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  8. Ainda falta o primeiro processo ir a Brasília.
    digo o primeiro porque no caminho tive uma advogada "gilete"(jogava nos 2 lados) que abriu um processo que já não poderia mais(tempo) só para ganhar dinheiro.

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    1. Então ainda há esperança!
      Não desanime e cuidado com a escolha dos advogados.
      Abraço
      Assediados

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  9. Sobre o comentário que dizia que o prefeito iria concorrer novamente: além de estar concorrendo depois de tirar toda dignidade de um trabalhador ,fica afirmando zelar pela dignidade dos moradores e prometendo segurança aos trabalhadores,é brincadeira.

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    1. Realmente é revoltante!
      O nosso desejo é que a assediada em questão consiga reverter a situação em Brasília, e que os culpados sejam punidos.
      Abraço
      Assediados

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    2. Eu iria continuar o processo para o Supremo mas a, advogada gilete ,deixou passar o prazo para recorrer (mesmo sendo avisada de todas as maneiras)e somado ao prefeito que nunca deixou que tivesse audiência desde 2004 e desde que era Secretário da Saúde ,fiquei sem chão e prejudicada para o resto da vida.

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  10. É uma pena realmente, mas a escolha de um bom advogado é imprescindível para o sucesso de uma causa.
    Sentimos muito por você.
    Um abraço
    Assediados

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  11. Que pena ter acontecido tudo isso, te desejo boa sorte. Parabéns pela coragem. Nunca deixe de acreditar em você.

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    1. Gratos pelo apoio a esta vítima.
      Toda a atenção e solidariedade são muito bem vindos, e representam a força que um assediado necessita.
      Volte sempre!
      Assediados

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  12. Quanto tempo amiga;
    eu estava com a dor(DANO MORAL) aquietada até começar a propaganda do TRE para estar quite com a justiça eleitoral explico:
    no momento que a moça fala :"TOMAR POSSE EM CARGO PÚBLICO"...
    aquilo me dói,e o pior nada foi feito e ainda perdi minha pensão de emu pai ,por direito ao entrar na prefeitura,passei no nome de minha mãe,por achar que estava segura.

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    1. Marie-France Hirigoyen, no livro Mal-Estar no Trabalho Redefinindo o Assédio Moral é bastante clara quando diz "esse tipo de agressão deixa sempre marcas de longo prazo".
      Infelizmente esta é a triste realidade do assediado, em grande parte dos casos. A dor e o sofrimento não desaparecem, apenas dormem. Mas em alguns momentos, uma palavra, um gesto, uma situação qualquer, pode acordar os sentimentos.
      Desejamos a você força e coragem para suportar tudo isso.
      Um abraço
      Assediados

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  13. Eu continuo amiga sendo enrolada pela justiça e tenho certeza que fiquei com dano moral ex:

    Quando passa prepagandas por exeplo que cita concursos eu começa a querer chorar;
    Favor ler esta postagem que eu editei:

    http://lcmady.blogspot.com.br/2012/05/as-normas-e-o-poder-publico.html

    abraço

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    1. Infelizmente os danos persistem por muitos e muitos anos.
      Como no seu texto, as normas muitas vezes parecem servir apenas para serem quebradas e desrespeitadas... Triste realidade!

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    2. Realmente duram por anos,11 anos...

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    3. Se eu fosse de outra raça,sexo etc garanto que não estaria mais sofrendo até hoje.

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  14. Boa tarde
    hoje levantei chorosa e quase em depressão,isto mostra que a humilhação o tempo não cura e isso aconteceu em 2004, até hoje está nítido em minha memória

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    1. Infelizmente as marcas deixadas pelo assédio moral são muito profundas e requerem grande trabalho e esforço para superá-las.

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