"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


domingo, 2 de outubro de 2011

Relato 13 (Passando pelo Médico do Trabalho)

Durante os últimos três anos sofri várias agressões no trabalho e passei a me sentir muito insegura e sempre com medo, pois mesmo buscando fazer sempre o melhor, a sensação era de que nunca era o suficiente, e que sempre havia um desejo por parte da gerência em encontrar algum defeito ou imputar-me culpa, por coisas sem sentido do tipo: 
"Você demora demais fazendo seu grupo, por isso ninguém vem!" (os outros grupos feitos na unidade,  também tinham baixa adesão)  
"Você ficou três horas fazendo grupo, que absurdo..." (o tempo estabelecido para o grupo é de duas horas; às vezes por esperar um pouco mais para iniciar, acabava compensando no final e passando um pouco do horário previsto) 
"Você assustou a médica, por isso ela foi embora" (que foi embora por diversas outras questões pessoais) 
"Você fala demais"... 
“Todo mundo entrega a produção de X% antes das férias menos você” (isso em apenas 1 semana de trabalho, até mesmo se esta semana tivesse um feriado ou curso, e consequentemente apenas quatro dias ou menos de trabalho).

Isso sem falar nos olhares de repreensão sempre presentes.

Também vi muitos colegas de todos os escalões serem agredidos por atitudes ou verbalmente por ela. Deboches e piadinhas quando se ia "pedir" uma folga mesmo tendo banco de horas suficiente para muito mais, como se fosse um favor, eram frequentes. 



Vi medo, choro, insegurança e até desespero algumas vezes... Durante esse tempo, vários foram demitidos por coisas pequenas, ou porque simplesmente não caíram nas graças dela. Os demais estavam sempre apreensivos, porque em geral sempre um, era o foco do momento, e ninguém sabia quem seria o próximo.


No decorrer do tempo, embora eu nem sempre tenha relacionado os fatos ao stress sofrido, ganhei peso, tive queda intensa de cabelos, procurei tratamento dermatológico, cheguei a passar uma noite no PS com dores no peito colhendo enzimas e fazendo ECG, dores intensas no pescoço e ombros que me fizeram buscar a Acupuntura. 

Comecei a frequentar academia no intuito de minimizar os efeitos do stress, fiz sessões de massagem, hidroginástica... tudo com o objetivo de ser capaz de suportar o sofrimento e de sentir-me  melhor, mas sem sucesso (hoje, vejo claramente, que tudo que fizesse estaria fadado ao fracasso - era só uma questão de tempo).

Após um episódio em que ela me agrediu com veemência (relato 8), além do rosto e olhos queimando, e a pressão arterial subindo, meus sentimentos começaram a ser irracionais. Sentia-me aterrorizada, apavorada, com muito medo, sensação de vazio, tristeza, sensação de que ela poderia me fazer algum mau, como me demitir ou estragar minha carreira de décadas. 

Mas o pior era acordar com os flashbacks das falas e agressões e não conseguir mais dormir após míseras 3h de sono, ou chegar às 2h da manhã sem ainda ter conseguido dormir.

Acabei por precisar de atendimento médico especializado com diagnóstico de três médicos, sendo um Psiquiatra, de Ansiedade Generalizada e Síndrome de Stress pós Traumático. Precisei iniciar, com muita relutância, o uso de antidepressivo e tranquilizantes.

Ao passar em consulta com o médico do trabalho, após o segundo atestado (num total de 22 dias), onde a médica psiquiatra relacionava o meu sofrimento mental a experiências estressantes no trabalho, fui questionada por ele que afirmava que eu tinha “Depressão”. Provavelmente porque no meio da consulta comecei a chorar; as lágrimas pulavam dos meus olhos e eu não conseguia me conter. 

Quando lhe falei que o meu diagnóstico não era este, foi que o mesmo pegou o CID 10 para ver qual era de fato a descrição. Quando leu "Síndrome de Stress pós Traumático", ele disse: 
“... mas isso é diagnóstico de quem sofreu assalto, sequestro...” 
Ao que afirmei: ‘mas eu nunca tive isso’. Para minha surpresa ele disse: 
“Eh... mas quem nunca teve um infarto vai dizer que nunca teve. Quem nunca teve diabetes, vai dizer que nunca teve, mas essas coisas vêm se desenvolvendo ao longo do tempo.” 
Ele pediu, então, que eu trouxesse um relatório da minha médica explicando porque relacionava o meu diagnóstico às experiências do trabalho, pois sendo confirmado o fato, ele precisaria abrir uma CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho).



Embora eu não lhe tenha dito naquele momento, pois só conseguia chorar,  gostaria de tê-lo dito que maus-tratos persistentes, também podem se manifestar com Síndrome de Stress pós Traumático e uma porção de outros transtornos de ansiedade e depressão. Imagino que ele soubesse disto. A literatura é abundante sobre esta associação.

Senti suas colocações como uma manifestação de desrespeito ao meu estado, visto que da forma como eu me encontrava, não tinha condição alguma de discutir o meu próprio diagnóstico com ele, sendo que tinha nas mãos, o relatório de uma especialista. É com ela que ele deveria discutir, entendo eu, ainda que eu fosse uma médica. Naquele momento eu era uma paciente em estado grave.

Senti-me agredida, e lhe disse apenas que, por favor, investigasse a minha denúncia, pois, de fato, se dessem espaço onde as pessoas pudessem sentir segurança para falar, elas falariam. Percebo que isto é óbvio. Sem privacidade e segurança não há confiança nos depoimentos. Isto é elementar, como diz meu assessor para assuntos psicológicos e comportamentais.

No meu retorno à consulta com o médico do trabalho da empresa, agora com relatório solicitado por ele, e descrito de forma fenomenológica, pela minha psiquiatra, descrita como no texto abaixo:
“... A referida gerente não exerce sua função como facilitadora e coordenadora, o que era de se esperar. Exerce sua função vigiando e constrangendo os funcionários...”) 
Ele fez uma leitura rápida das quatro páginas e me olhou com olhar descrente. Disse que aquilo era uma “temeridade”, me perguntou se a médica conhecia a minha gerente e questionou como ela podia escrever daquele jeito, sem conhecer a pessoa de quem estava falando. Afirmei que era com base nos meus relatos. Em dado momento da consulta ele me olhou e disse: 
“... ela deve gostar muito de você.”
Para mim, a sua afirmação foi uma surpresa. Era como se estivesse me dizendo: ‘ela só pode ser sua amiga prá escrever coisas como essas.’ Como se de alguma forma estivéssemos mancomunadas com algum tipo de “armação”, quando na verdade, conheci a médica apenas na minha primeira consulta. 

Mesmo com o relatório da especialista, ele não abriu a CAT , pois disse não ter elementos suficientes para isso, e que em 11 anos na empresa, nunca havia recebido um caso assim, e que passaria o caso para uma “comissão de ética”

Estranho que desta vez ele não tenha usado a lógica anterior (de que algo que nunca aconteceu pode acontecer em algum momento) quando insistia em que eu tinha depressão e não o que apontava o relatória de minha psiquiatra, a qual fez uma extensa anamnese (histórico de vida).

Fui então encaminhada ao INSS.

Graças a Deus fui muitíssimo bem atendida por duas peritas, por uns vinte minutos, e que, provavelmente "gostaram muito de mim",  já que reconheceram o nexo causal com as condições de trabalho. O benefício foi-me concedido em caráter acidentário. Em outras palavras, o INSS reconheceu que a minha doença foi causada pelas condições de trabalho descritas por mim, e abriu automaticamente a CAT. 

Para mim, aquela foi uma grande vitória, pois uma das piores sensações no percurso era o olhar de descrédito por parte da empresa, e as insinuações de que aquela era uma ‘dificuldade pessoal’ minha (minha sensibilidade) em lidar com a chefe. Houve e há uma relutância constante em admitir o óbvio: que o meu estado se devia a maus-tratos contínuos, ameaças e agressões, veladas e públicas, por parte da chefe, que afetava uma grande parte dos colegas, quer tenham coragem de dizer, quer não. É claro que os prepostos da empresa não admitiam a responsabilidade  da empresa. É notável que a empresa, em momento algum manifestou interesse em saber de meu estado de saúde.

O que dificilmente fica claro para as empresas - e elas não procuram saber - é que a luta de cada pessoa assediada não é contra uma empresa, sim contra um estilo de prática cultural totalmente desnecessário e danoso para todas as partes. 

Por isto é amplamente recomendado aos assediados que avaliem o clima da empresa e encaminhem denúncias às áreas competentes no sentido de alertar para a necessidade de mudanças nos relacionamentos. Certamente que, quando a empresa não se posiciona claramente contra estas práticas (implementando programas de prevenção e inibição) aumentam os riscos de prejuízos, desnecessários, para todas as partes. Fechar os olhos é tão prejudicial para a empresa quanto para as vítimas da violência moral no trabalho.

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