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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

"A Medicina do Trabalho não Fornece Atestado"

A declaração é do presidente da ANMT/AM, Ricardo Turenko Beça. Ele lamenta que as fábricas e o comércio locais sejam produtores em grande escala de doenças ocupacionais

Ricardo Turenko Beça
                         Ricardo Turenko Beça (Antonio Lima)

 
O Amazonas oscila entre os primeiros lugares no ranking nacional de doenças ocupacionais. Seja nas fábricas, seja no comércio, o trabalhador em Manaus, por exemplo está exposto a uma série de doenças ocupacionais que vão muito além das conhecidas lesões por esforço repetitivo ou doenças osteomusculares relacionadas ao trabalho (LER/DORT).
Hoje o trabalhador pode encarar problemas de saúde decorrentes de assédio moral e distúrbios psíquicos como síndrome de pânico e depressão. Tentando reverter este quadro a Associação Nacional de Medicina do Trabalho regional do Amazonas reuniu os profissionais na última semana para melhorar a capacitação e a qualificação das equipes. “Sair da liderança deste ranking passa por maior investimento das empresas na qualificação e capacitação das equipes de saúde e segurança do trabalho”, afirma o presidente da ANMT/AM, Ricardo Turenko Beça, que nessa entrevista falou sobre os principais problemas de saúde causados pela atividade laboral. Ele alertou para o excesso de horas extras feitas pelos trabalhadores nessa última fase do ano, quando tracionalmente a economia da capital amazonense fica superaquecida. Confira a entrevista.

Quantos são os médicos especializados na área e como está o quadro atual de saúde do trabalhador amazonense? 

Temos uma boa quantidade de médicos, acima de 200 nessa especialidade. Agora nosso Polo Industrial de Manaus é onde existe uma das maiores incidência de doenças ocupacionais do País. No ranking nacional estamos sempre entre os primeiros. No último que olhei, o Amazonas só perdia para a Bahia.

Porque chegamos a esse nível?

Na verdade isso ocorre porque o investimento em atualização, capacitação e preparo das equipes de saúde e segurança no trabalho é pouco. Esse investimento ainda é visto como questão secundária nas empresa. Com isso acabamos não tendo equipes preparadas para fazer frente aos problemas e a incidência de doenças laborais aumenta.

A Associação Nacional dos Médicos do Trabalho realizou na semana um encontro em Manaus. Qual o foco das discussões?

Atualização em Medicina. Tratamos de temas como doenças ocupacionais, LER (lesão poir esforço repetitivo/DORT (disrúrbio osteomusculares relacionados ao trabalho) e atualização de normas técnicas, onde muita coisa mudou.

Quais normas mudaram e o que elas normatizam?

Tem a NR 12, que trata de como evitar acidentes do trabalho no manuseio de máquinas e equipamentos. A NR 32, que trata dos riscos de manipulação de agentes biológicos e de riscos para quem trabalha em hospitais ou em ambientes de unidades de saúde. Tratamos também de novos distúrbios que afetam o trabalhador.

Quais são eles e como o médico pode atuar nestes casos?

O assedio moral, por exemplo, exige muito cuidado por parte dos médicos do trabalho. Ele pode motivar uma doença psiquiátrica ou distúrbios do tipo ansiedade , depressão ou transtornos do humor. Ao médico do trabalho cabe estar preparado para identificar o problema, recorrer a especialistas quando for o caso, mas no geral é estar preparado para atuar numa eventual incidência dessas doenças. A preocupação é saber como identificar precocemente, diagnosticar e tratar o mais rápido possível doenças como depressão, ansiedade síndrome de pânico, hoje todas podem ser motivadas pelo trabalho.

O quadro ruim do Amazonas é um problema da indústria ou está presente também em outros setores da economia?

Esse quadro é geral e deve-se, por exemplo, às condições sanitárias que ainda vemos em canteiros de obras. Muitas empresas não não oferecem as condições mínimas sanitárias para que os trabalhadores exerçam a função deles sem problemas. Infelizmente essa é a nossa realidade.

Isso independe do tamanho da empresa?

Nas grandes multinacionais você vê menos problemas, há  muita fiscalização e elas acabam atuando, mas mesmo nelas não vemos o cuidado em investir e preparar médicos, engenheiros e enfermeiros na atualização dos temas. Nós realizamos um evento como este, que trouxe especialistas de fora, gente capacitada, mas pouquíssimos profissionais são liberados pelas empresas para comparecer. Uma colega de Belém foi liberada, mas terá de pagar os dias ausentes depois. Ou seja, ela fez um investimento que trará benefício para a empresa. Não custa lembrar que é obrigação da empresa cuidar da segurança e da saúde do trabalhador.

Esse quadro também se estende ao comércio, um dos segmentos que mais gera empregos em Manaus?

Vá ao comércio de Manaus  e procure localizar uma cadeira para o trabalhador descansar. Não tem, o cara fica ali oito horas em pé, no final do expediente ele terá problemas circulatórios, varizes de membros inferiores, problemas posturais e, pior, essa situação gera a insatisfação do colaborador que percebe a falta de respeito para com a saúde dele.

Os empresários reclamam muito do excesso de atestados para dispensa do trabalhador. Como o senhor vê essa situação?

A Medicina do trabalho não dá atestado. Quem dá são outros médicos, o médico do trabalho recebe e analisa a incidência das doenças anotadas no atestado. Faz um trabalho estatístico. A problemática do atestado não depende da Medicina do Trabalho, nós fazemos apenas a tratativa para saber porque um trabalhador está se afastando.

Qual  o futuro da Medicina do Trabalho?

O próximo passo aqui na regional é trazer capacitação e qualificação para as equipes e melhorar o status do nosso Estado, é uma vergonha para uma cidade que tem um polo industrial importante para o nosso pais ter a maior incidência de acidentes e doenças ocupacionais do País. É um status que precisa mudar. Temos de atuar com a Superintendencia de Trabalho e Emprego (SRTE), Ministério Público do Trabalho e Suframa, só assim vamos trazer melhores condições e qualidade de vida para os nossos trabalhadores

A propósito de qualidade de vida, os últimos três meses do ano são marcados pelo crescimento do número de horas extras. Quais os perigos que isso representa para o trabalhador que está de olho numa renda extra para o fim de ano?

Hora extra sempre tem de ser feita com parcimônia, com cuidado. Do contrário causará sobrecarga no trabalhador, principalmente onde tem esforços repetitivos. O ideal é ter parcimônia, numa uma mesma pessoa deve ficar fazendo extras seguidamente. É preciso que a fiscalização atue para impedir os abusos.


Font: http://acritica.uol.com.br/manaus/Manaus-Amazonas-Amazonia-Medicina-atestado-Ricardo-Turenko-Beca_0_564543734.html

7 comentários:

  1. O difícil é confiar nos médicos do trabalho. Eles são pagos pela empresa e defenderão os interesses de quem paga os salários deles. Assim acontece com os outros empregados. O médico do trabalho da empresa vive o dilema de cumprir com seu dever de cuidar da pessoa f´sica, com alma, ou cuidar da pessoa jurídica que não tem coração. Por via das dúvidas eu prefiro me manter com os dois pés atrás com o médico do trabalho e buscar meu encaminhamento com profissionais que não corram o risco de ter conflitos de interesse entre as pessoas. Isto não é exclusividade do médico do trabalho. Isto ocorre com todos os demais empregados que t~em seus salários pagos pela empresa. Então, não recomendo que se abra a vida com os profissionais internos á empresa quando se trata de assunto que pode gerar conflito de interesses ou disputas na justiça. Infelizmente, alguns profissionais de saúde do trabalho querem ir além das estatísticas e dar diagnósticos para aspectos que não têm competência: aí se incluem psicólogos e médicos, em particular. Não acho que seja maldade dos profissionais e sim algo que faz parte do sistema em que a pessoa jurídica está acima da pessoa física, de carne e osso.

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  2. Obrigada por sua participação.
    Comentários inteligentes são sempre muito bem vindos.

    Volte sempre!

    Assediados

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    Respostas
    1. O comentário anônimo abaixo, foi escrito equivocadamente pelo 5ebb7f58-fc4d-11e0-ad7c-000bcdcb8a73 no post "A Medicina do Trabalho não Fornece Atestado", quando deveria ter dido escrito no post "Conselho aos Enfermeiros", de 16/10/11 http://www.assediados.com/2011/10/conselho-aos-enfermeiros.html

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  3. Minha amiga enfermeira "A", concordo com você. Acho que você deve denunciar esta atrocidade no COREN.

    Não peça dicas ao "Assediados", porque ele é muito BURRO!

    Meu amigo "Assediados", você vem com esse discurso de legislação mas você é muito BURRO.

    Para os que não sabem o COREN é um órgão disciplinador do exércício profissional.

    Veja a lei e deixe de ser BURRO, seu jumento!

    LEI N 5.905/73, DE 12 DE JULHO DE 1973

    Dispõe sobre a criação dos Conselhos Federal e Regionais de Enfermagem e dá outras providências.

    O Presidente da República

    Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

    Art. 1º - São criados o Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) e os Conselhos Regionais de Enfermagem (COREN), constituindo em seu conjunto uma autarquia, vinculada ao Ministério do Trabalho e Previdência Social.

    Art. 2º - O Conselho Federal e os Conselhos Regionais são órgãos disciplinadores do exercício da profissão de enfermeiro e das demais profissões compreendidas nos serviços de Enfermagem.

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  4. Meu caro sem nome: 5ebb7f58-fc4d-11e0-ad7c-000bcdcb8a73
    O objetivo deste blog é manter um espaço para desabafos, por isso o seu comentário será mantido.
    Não temos a pretensão aqui de sermos legisladores, muito menos conhecedores das leis que regem as profissões. Entendemos que o Assedio Moral pode estar presente em todas elas, por isso não nos interessa nem cabe, conhecer estas particularidades. Quando nos indignamos, fazemos isso pela forma como as coisas são colocadas.
    Se o COREN é um órgão disciplinador ou não, do exercício profissional, não vem ao caso. O que vem ao caso aqui é a forma desrespeitosa, como a profissional foi "julgada", sem o devido respeito ao seu questionamento, mesmo que este questionamento não tenha sido feito por ela própria.
    Tudo que uma pessoa assediada não precisa, é deste tipo de avaliação. O que o Assediado precisa, é de ACOLHIMENTO, e é com esta finalidade que estamos aqui.
    Seja muito bem vindo ao nosso blog e volte sempre que estiver com um desejo incontido de "desabafar".

    Assediados

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  5. Assediadores,
    Vocês estão de parabéns!
    Muitas pessoas até podem ter razão, mas a perdem quando não sabem se manifestar de forma adequada.
    Eu sou um leitora atenta. Tenho minha história pra contar, em breve encminharei matérial.

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  6. Teremos o maior prazer em publicá-la.
    Atenciosamente
    Assediados

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