"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

"Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre" Lance Armstrong


domingo, 25 de setembro de 2011

Relato 11 (A denuncia)

Imagem Google
Cheguei em casa aquela noite depois do trabalho (após a chefe brigar comigo na reunião geral...) me sentindo muito mau, ainda com os olhos e face queimando. Não contei nada para o meu marido, porque quando estou muito magoada com alguma coisa não consigo falar, preciso digerir primeiro para depois conseguir por pra fora.
Como continuava me sentindo mal, resolvi verificar a Pressão Arterial (PA) e me assustei, pois estava bastante alterada para os seus padrões habituais. Mesmo assim não falei nada, resolvi esperar para ver se dormindo poderia relaxar e melhorar.
Pela manhã a PA continuava da mesma forma, e como de hábito, tomamos café na cama e conversamos. Só então me senti em condição de contar ao meu marido o que acontecera no dia anterior e da alteração na minha PA.
Estava muito indignada com o fato de termos sido chamados na Sede da Empresa para uma “livre manifestação”, e depois tomar bronca por termos falado o que percebíamos e sentíamos. Sentia que aquilo era muito injusto.
Falei ao meu marido que estava pensando em pedir uma reunião com a Chefia Superior  para expos os fatos ocorridos. E que iria perguntar a um Supervisor em quem eu confiava o que ele achava da minha idéia. Fiz a pergunta por torpedo, mas não obtive resposta.
Estava fazendo uma atividade por volta das 11:40h, quando meu celular tocou. Estranhei o pedido do meu marido ao telefone quando disse: “preciso de 3 minutos”. Pedi licença aos presentes e disse que ele podia falar. Ele então me disse: “Mandei uma carta para a Direção da sua Empresa”. Fiquei muda. Estática. Sem ação enquanto ele lia a carta que dizia: 

Senhora XXX

Direção da Empresa YYY


Como esposo da Senhora X, tomei esta liberdade depois de ver e sentir, reiteradas vezes os impactos que o relacionamento da chefia da unidade Z tem sobre minha esposa e minha família. O que não deve ser diferente para outras famílias.


Como há um clima geral de medo e intimidação que rende uma boa produtividade é possível que eventos relevantes de desrespeito passem despercebidos a essa instância, e que venham, em breve, trazer problemas de outras ordens, além dos que já vem trazendo para a saúde dos que se mantêm calados diante de alguns comportamentos da sua gerente "O".
Entendo que não sou eu diretamente que trabalho na unidade Z e que talvez coubesse à minha esposa esta iniciativa. Contudo, diante de intimidações públicas e privadas, sutis e escancaradas, a muitos dos que trabalham nesse local, minha esposa deixou de se reportar a essa Direção diversas vezes por motivos compreensíveis. 


É como parte "interessada" e apreciador há décadas dos valores publicamente conhecidos que subjazem à filosofia dessa empresa, e das práticas de gestão que a contemporaneidade exige é que me dirijo. Não imagino que uma organização como essa, fundada em tais princípios, exima-se da responsabilidade pelo bem-estar dos seus funcionários.


Penso que haja alguma maneira de conviver com as exigências de produtividade que não seja com constrangimentos morais públicos, explicitamente intimidatórios, e que, para algumas pessoas, culminam em processo demissional. Aposto em abordagens que priorizam a promoção e não a punição.


Certo do interesse por parte dessa respeitadíssima Empresa para elucidar os fatos, sem a necessidade de que alguém, em algum momento, recorra a outras instâncias, aguardo contato para esclarecimentos que penso serem úteis para subsidiar sua avaliação.


Atenciosamente

Senhor X

Quando consegui raciocinar, achei que ele estivesse dizendo que havia apenas escrito e que estava dizendo que havia mandado só pra me testar, pra ver qual seria a minha reação. Mas ele afirmou que não, que já havia mandado mesmo.
No restante do dia ele me ligou algumas vezes para saber como eu me sentia. No fim da tarde, ele voltou a ligar e disse que havia recebido uma resposta e que a coisa “não estava boa” pro meu lado. Perguntei porque e ele leu a resposta a sua carta que dizia: 

Prezado Senhor X


Estarei apurando a sua denuncia.
Gostaria de informar minha surpresa com essas questões.
Em reunião realizada com representantes da unidade Z, na Sede da Empresa, com a participação da Senhora X, não houve manifestação de dificuldade alguma por parte dela, apesar da liberdade dada para se colocarem. Na reunião ela lixou e cortou as unhas, me pareceu não estar muito interessada.(grifo meu).


Faz parte desta Direção a orientação de conduta aos gerentes. 


Iremos ouvi-la, pois para nós apurar os fatos é muito importante.


Atenciosamente,


Senhora XXX
Direção da Empresa YYY

Ao ler a resposta ao seu e-mail ele ficou profundamente indignado, pois considerou uma desqualificação à denuncia que estava sendo feita a frase grifada acima.
Eu estava em choque, não podia acreditar em tudo que estava acontecendo, como se não bastasse tudo que já tinha acontecido até ali, agora mais esta bomba.
Fiquei pensando. Como a Senhora XXX dissera: “Iremos ouvi-la”, fiz a seguinte ponderação. Se ela estiver realmente interessada em saber o que está havendo na unidade Z, irá me chamar em particular para saber o que está acontecendo, mas se não... o pior que poderia acontecer seria chegar para conversar e dar de cara com a gerente "O".
Naquela noite já dormi muito menos do que já vinha dormindo, e ao acordar achei que seria de bom tom dar alguma satisfação a Direção da Empresa. Mandei um e-mail curto que dizia:

Senhora XXX,


Apesar de compreender, lamento a atitude do meu marido em tomar a palavra por mim.
Disponibilizo-me para prestar esclarecimentos.

Atenciosamente
Senhora X


Sentia-me muito angustiada, apavorada, com muito medo, pois se com muito menos que isto, as coisas já estavam como estavam, imagine agora. O que eu teria que suportar? Por quais agruras teria que passar?

Contei o que estava acontecendo neste momento em especial apenas a uma pessoa, embora os episódios de agressão ao longo dos anos, tenham sido compartilhados com várias outras de dentro e de fora do serviço. Eu sabia que ela também já tinha sido vítima por longo período dos mesmos desmandos de "O", que sempre tem um, como foco de suas agressões. Esta pessoa foi muito importante para mim naquele momento, pois era a única  com quem eu me sentia a vontade para compartilhar o que estava acontecendo. Infelizmente na época em que ela era o alvo, eu não sabia o que sei hoje para poder ajudar de forma adequada, e também não tinha conhecimento do quanto ela estava sendo afetada, embora algumas vezes a tenha visto arrasada depois de algumas atitudes de "O", e ouvido muitos desabafos. Tudo o que sei é que até hoje ela sofre as sequelas dessa fase. Sei que tenta bloquear de seus pensamentos e de seu coração, tudo que viveu, como se isso fosse possível. Hoje ela é muito mais agressiva do que quando a conheci. Mas sei que esta é uma das sequelas do assedio. Hoje temos um pacto de não falar mais sobre o assunto “O”. Chegamos a nos magoar neste período, mas acho que um dia ela não vai mais aguentar ficar calada, e quero estar muito forte para estar ao seu lado, e testemunhar de tudo que sei que ela sofreu. Ela se trata há muito tempo, mas ainda se sente fragilizada e sem condições de assumir os riscos de enfrentar a situação de frente. Ela encontrou sua forma particular de lidar com a situação. Respeito os sentimentos e vontade dela, embora para mim, esta forma hoje, já não seja eficiente.

Saí para trabalhar e parei no caminho para supervisionar uma atividade. Lá o meu celular tocou, era a Senhora XXX me chamando para uma conversa na Sede da Empresa. Meu coração disparou, parecia que ia sair pela boca. Em trinta minutos cheguei ao local da reunião. Minha boca estava seca e o meu rosto queimava.
Sou anunciada e subo as escadas. Com meu coração ainda aos pulos sinto minhas pernas bambas. Meus olhos queimam. Sinto que preciso manter a calma a qualquer custo.
Dou de cara com a porta aberta e a Sra XXX sentada do outro lado da mesa. E para minha surpresa...

Aguarde o próximo relato.

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